Laverne Cox fala de como chegou ao posto de um dos maiores ícones trans da cultura pop

Atriz que interpreta Sofia em Orange Is the New Black

Mac McClelland / Tradução Ligia Fonseca Publicado em 08/07/2015, às 09h31

Laverne Cox fala de como chegou ao posto de um dos maiores ícones trans da cultura pop

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Laverne Cox foi de garçonete a representante de uma comunidade inteira quase tão rápido quanto o tempo que as pessoas levam para fazer uma maratona da série que a revelou para o mundo. Em Orange Is the New Black, da Netflix, que já tem três temporadas, a atriz de 30 anos interpreta a cabeleireira da prisão, Sophia Burset — presa por fraudar cartões de crédito para pagar por suas cirurgias de mudança de sexo. O sucesso a tornou representante do movimento transgênero mundial, com direito a uma capa icônica na revista Time.

Entenda como as estrelas improváveis de Orange is the New Black revolucionaram a televisão.

A artista acredita que a era da internet ofereceu um fórum para pessoas antigamente relegadas às margens sociais, mas também liberdade para que novos produtores de conteúdo, como Amazon e Netflix, “assumissem riscos que muitos canais não conseguem – ou acham que não podem”. A visibilidade na mídia é “apenas uma parte da equação”, afirma. “Precisam existir políticas públicas em vigor que mudem sistematicamente a vida e a circunstância dos transgêneros.”

Sophia é a personagem com quem você mais se identifica em OINTB?

Sim, tenho vivido nela e vivenciando a Sophia de um jeito mais profundo do que com os outros personagens, porque a interpreto. Também há algo em Suzanne (Uzo Aduba) que realmente amo, a maneira como ela é ingênua, mas tem essas explosões violentas. Daí penso na Vee (Lorraine Toussaint) da segunda temporada: aquela é uma personagem que adoraria fazer. Há um lado meu que é meio sinistro e calculista e isso é muito divertido.

Quanto à sua nova série, Doubt, – sua personagem é uma mulher trans. Você preferiria fazer o papel de uma mulher cis em algum momento?

Quero fazer seres humanos e personagens complicados – a forma como se identificam não é realmente relevante para mim.

Você não acha que as outras pessoas pensam: “Trans tem de fazer o papel de gente trans”?

Essa pode ser a realidade da indústria agora, mas também acho que faz parte do meu trabalho como atriz mostrar que posso representar uma ampla gama de personagens. Então, assumo responsabilidade por, quem sabe, inspirar diretores, roteiristas, produtores a me verem de diversas maneiras. Acho que poderia ser poderoso, para mim, assumir um papel em que minha identidade trans não seja relevante no futuro, mas também acredito que há muitas histórias trans para contar e elas ainda não foram contadas. Assim, se sinto uma conexão com a história, não me importo em contá-la.

Em sua capa para a Variety, há uma manchete imensa que diz “TRANS”. Se alguém tivesse colocado a Lucy Liu na capa e afirmasse: “Aqui há uma asiática...”

“Revolução Asiática”, pois é.

Vamos olhar para isso daqui a algumas décadas e pensar: “Era séria essa manchete”?

Seria interessante se isso acontecesse. Acho que o que é importante e forte, entretanto, sobre chamar a matéria assim é que as pessoas trans nem sempre estão visíveis. Durante décadas nos disseram que precisávamos fazer a transição, misturar-nos e desaparecer como pessoas transgênero. E há muita gente que não acha que realmente existimos – insistem que sempre somos apenas o gênero que recebemos ao nascer.

Então, o processo de nomear essa identidade e reivindicar a existência trans de alguém, em um mundo que nos diz que não deveríamos existir parece revolucionário. A sensação é de um passo muito importante. Acho que seria diferente se estivéssemos falando só de mim – embora quase sempre as pessoas digam “a atriz transgênero Laverne Cox”.

Você sempre gostou de fingir ser outras pessoas? Montava cenas quando era pequena?

Eu dançava muito quando criança. Não eram necessariamente cenas, eu tinha personagens na minha cabeça que expressava pelo movimento.

Você ainda dança muito?

Só por diversão, no meu apartamento, e canto no karaokê com algumas amigas. Sou muito fã de karaokê. Canto e mando ver na coreografia.

Qual sua música preferida no karaokê?

Não tenho uma só, tenho muitas. Ultimamente, tenho cantado muito “Chandelier”, da Sia, e o tema do Fantasma da Ópera. Não atinjo o mi maior no final – mas às vezes consigo o dó maior.