Leia entrevista inédita de José Wilker, realizada em abril de 2013, quando o ator divulgava Giovanni Improtta

O ator morreu no último sábado, 5, aos 69 anos

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 07/04/2014, às 16h07 - Atualizado em 10/04/2014, às 16h42

José Wilker
Divulgação/TV Globo

O ator e diretor José Wilker, que morreu em 5 de abril de 2014, aos 69 anos, concedeu uma entrevista em abril de 2013 à Rolling Stone Brasil para falar de música, literatura, de cinema, novela, teatro, da experiência de se autodirigir e da carreira. “A pior coisa que pode acontecer na vida de um artista é já ter feito o seu melhor”, disse ele na ocasião, quando estava divulgando Giovanni Improtta, primeiro e último longa que dirigiu. Leia abaixo perguntas e respostas que não foram publicadas.

De onde vem o interesse por representar?

Quando tinha 4 anos, eu não sabia ler, evidentemente. Mas, como a casa dos meus pais era cheia de livros, eram objetos que me atraíam muito. Olhava e achava lindo pelo cheiro e pelas letras. Eu não sabia o que era um “a”, um “b”, um “r”, mas eu gostava de contar a história daquelas letras. Eu enchia o saco da minha família, até cobrava ingressos, para que eles ouvissem a minha história.

Foi daí a gênese de sua carreira de ator?

É provável, e isso é uma coisa inspiradora para mim até hoje. Até inventei na época um cineminha. Eu morava do lado de um cinema e sempre sobravam fotogramas. Eu pegava uma caixa de sapato, recortava um quadrado num lado e um no outro e dentro colocava uma lâmpada transparente que eu enchia de água. Colocava o fotograma de um lado e iluminava com uma lanterna e projetava na parede. A partir daquela imagem, contava histórias. Eu me lembro, por exemplo, que umas das que mais me marcaram foi uma imagem do filme Arroz Amargo, que tinha a [atriz italiana] Silvana Mangano de pernas de fora, que eu achava um troço fascinante. Esse mesmo espírito infantil me acompanha até hoje.

O filme Giovanni Improtta que você acabou de dirigir parece trazer embutida uma homenagem à velha guarda da TV e do cinema.

Diria que foi uma homenagem que fizeram a mim, porque eles são meus amigos. Quando o Cacá Diegues [produtor] me convenceu a fazer o filme e a dirigir, achei que só poderia fazer se eu me cercasse de pessoas nas quais tivesse total confiança. Desde a montagem da equipe a minha preocupação foi essa, estar com pessoas que conheço desde que comecei a trabalhar com cinema.

E como foi a escolha do elenco?

Muitas vezes, quando se faz um casting para um filme, se diz assim: “Esse papel é pequeno, vamos botar qualquer pessoa”. Ou acontece também de muitos de nós, atores, não aceitarmos uma pequena participação porque temos certa “vocação estelar”. Então, de repente, o Jô [Soares] topar fazer uma cena no filme é de um carinho por mim enorme. É uma homenagem que ele está fazendo a mim.

O corte final do filme ficou do seu agrado?

Claro que todas as sequências do filme, todo o modo de contar o filme, é inspirado naquilo que eu gosto de ver em cinema. Que não houvesse nada escondido e que cada espaço da tela fosse ocupado por alguma coisa. E isso foi seguido pela direção de arte, pela maquiagem... Porque eu vivo num país onde tudo é público. Não é porque a modernidade chegou até nós, porque temos internet, Twitter, Facebook... Não, tudo é público aqui, os escândalos são públicos, os desafetos são públicos, os amores são públicos. Nós somos um país muito descarado. Não é sem-vergonha no sentido pejorativo, somos sem-vergonhas. É uma herança talvez dos nossos índios nus que os jesuítas tentaram vestir e que se mantém nus até hoje. Nós somos um país nu.

E como você define a experiência de dirigir um filme pela primeira vez?Existe uma diferença entre dirigir para TV e cinema?

O Cacá diz que sou um “criator” e eu teria de assumir a direção. Mas dirigir e fazer o personagem são experiências que espero não repetir. Estar dos dois lados é complicado, porque é difícil ter o olhar crítico. Como ator, preciso que alguém mande em mim. E ali quem mandava em mim era eu mesmo.Televisão é uma coisa que as pessoas não veem – as pessoas olham. O esforço é conseguir que eles vejam. Muitas vezes, isso é solucionado com close-ups e sonoplastia. O cinema é outro ritual, a pessoa sai de casa e convive com outras, e ritualisticamente consome aquele produto. A técnica tem de ser outra. Afora isso, é desproporcional, porque o cinema tem um tamanho impressionante. Um pequeno erro fica uma monstruosidade.

A caracterização do seu personagem no filme carregou nas tintas, mostrando o lado do mau gosto do milionário vindo da contravenção. Está lá a excessiva coleção de gravatas, o figurino de cores espalhafatosas, o falar errado já conhecido da novela. Esse exagero que você usou na composição do personagem foi uma radicalização do Improtta da novela Senhora do Destino?

Foi intencional sim, porque no intervalo entre o fim da novela e começar o filme eu visitei esse universo mesmo. Eu fiquei quase um ano visitando, não o universo do contraventor, mas o universo da nova classe média ascendente carioca. O universo das pessoas que não compreenderam ainda o que significa exatamente o bom gosto, mas que olham determinadas coisas que disseram que era de bom gosto e começam a apostar nelas, mas como não têm informação, perdem a medida – elas estão sempre no excesso. Eu visitei várias casas na Barra da Tijuca e vejo com carinho isso – não estou falando com deboche –, o quanto a ansiedade pelo bom gosto, pela aceitação no novo status social faz essas pessoas percorrerem caminhos muito complicados. Eu visitei uma casa onde numa piscina tinha uma cascata enorme, iluminada pessimamente, um pouco [parecida com] a Casa da Dinda. É como se a nova classe média brasileira aspirasse a Casa da Dinda como um valor, como um signo de modernidade. Eu visitei outra casa, em que o dono percebeu o quanto suas filhas eram feias e montou uma boate dentro da própria casa, que reproduzia a decoração das boates do Rio de Janeiro e São Paulo, dos anos 70, com todas aquelas aberrações daquele momento, todo o “bom gosto” daquela época. Foi com esse olhar que a direção de arte se realizou no filme, foi com esse olhar que o figurino se realizou. E também foi com esse olhar que a atuação do Giovanni se realizou.


O que você pensa do personagem Giovanni Improtta?

Ele é despontuado, uma pessoa absolutamente desprovida do bom senso no que se refere ao bom gosto. Tem uns exemplos malucos, mas de repente se eu disser, vou identificar as pessoas que gentilmente me permitiram ser entrevistadas. Eu ouvi um sujeito falar assim: “Para a pessoa ser bem aceita na sociedade ela deve ser uma pessoa culta, isso implica em tem ter uma biblioteca”. Então, ao invés de se comprar livros, compra-se imitações de livros, prateleiras falsas com vários títulos. Compra-se por metro, mas não é nem livro... Porque se eles comprassem livros por metro, ainda assim eles estariam ajudando o pessoal dos sebos. Mas não tem a obra, é só a imitação da lombada dos livros. Então, a interpretação do personagem Giovanni Improtta é correspondente desse estilo de vida. Ele não mede os próprios gestos, tem um sentido de justiça absolutamente pessoal, particular. Por exemplo, ele resolve que é legal comprar um rim, desde que se pague. Está pago! Qual é a ilegalidade? Os rins estão à venda, ele tem dinheiro e compra, que, aliás, é um comportamento nacional não tão recente, mas hoje muito evidente. Ou seja, as pessoas têm um preço – algumas têm um preço baixo, outras têm um preço mais alto. Se olharmos para nossa história recente, vamos descobrir que o valor roubado pelos condenados desse último processo do mensalão é uma gorjeta. No fim das contas, o cara se vendeu por R$ 30 mil, ou seja, é um pequeno canalha. Eu fico meio perplexo com essa pequena canalhice. O Giovanni aspira à grande canalhice, e é essa que me encanta.

Giovanni Improtta é a sua estreia como diretor de cinema. Depois de toda essa vivência como ator, foi só agora que você se sentiu seguro para dirigir?

Eu nunca me senti seguro e acho que nunca vou me sentir seguro para dirigir cinema. Quando comecei a trabalhar com cinema, em 1963, eu estava fazendo um curso de cinema com o Arne Sucksdorff [cineasta sueco], um curso que todo mundo fez, o Leon Hirschman, o Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade e muitos outros. Era um curso que o Itamaraty promoveu para jovens do país inteiro. Então, na minha cabeça, eu ia dirigir cinema. Daí voltei para Recife, aconteceu o golpe [militar de 1964], eu estava trabalhando em dois curtas e eles queimaram esses filmes. Eu estava colaborando com o Eduardo Coutinho no Cabra Marcado para Morrer, que também foi abandonado. Daí o que aconteceu? Voltei para o Rio e fui trabalhar naquilo que tinha: era uma peça de teatro, onde eu consegui um emprego. E sempre fui muito requisitado como ator. Para felicidade ou infelicidade minha, me chamavam muito para atuar. E a carreira que eu queria antes, que era trabalhar com fotografia, com direção e com roteiro de cinema, foi colocada em segundo plano, foi ficando para trás. Eu sempre fui muito insistentemente convidado a dirigir, mas não é que eu me sentia inseguro. É que não juntava isso na minha cabeça, não acontecia e tinha essa coisa de ser muito requisitado com ator. E tinha que sempre adiar, e nessa de adiar, a gente acaba não fazendo.

Como funciona a função de comentarista do Oscar, e como isso começou na sua vida?

Eu me divirto. Isso começou por acaso. Há 20 anos eu tinha um círculo de amigos e a gente conversava, e na época o pessoal do Telecine me convidou: “Você não quer fazer o que conversa na mesa em um programa de televisão?” Eu respondi: “Se eu não tiver o compromisso de parecer um crítico, de ser um crítico de cinema e pode ficar à vontade para, de repente, dizer tolice, eu acho legal fazer”. E é meio nesse espírito que eu faço. Eu me permito, por exemplo, fazer comentários como dizer que o Robin Williams aprendeu a representar com o Patolino – e isso não é exatamente uma crítica. É um comentário, e a ideia é essa. Eu fiquei 10 anos fazendo isso no Telecine e agora na Globo, na entrega do Oscar. Estou escrevendo um livro que se chama Este Não É um Livro Sobre Cinema com esse espírito. Não esse espírito rigoroso do crítico, mas me permitindo falar o que me vem à cabeça sem a preocupação de “será que isso é tolice, será que isso faz sentido?”.

Do que trata especificamente o Este Não é um Livro Sobre Cinema?

É um livro que não está pronto ainda. É uma brincadeira com o [pintor René] Magritte – “Este não é um cachimbo” [Ceci n’est pas une pipe]. Claro, é um livro que fala de cinema, é uma espécie de diário de filmagem de dois ou três filmes que eu fiz. Eu comecei com O Maior Amor do Mundo, depois o Casa de Mãe Joana e agora o Giovanni Improtta. Ele vai contar como foi a preparação, as filmagens, mas do ponto de vista de uma pessoa que não fosse do ramo, que visse cada coisa que a gente faz como uma aberração, uma loucura. É um olhar com relação ao cinema, ao processo de criação do ator como se fosse feito por um padeiro, por uma pessoa que não tem nada a ver com aquela profissão.

Esse distanciamento não é uma coisa fácil para você.

Mas é legal. Eu me lembro que aconteceu uma coisa engraçada, e a partir dessa frase me veio a ideia... Eu já era ator e tal, mas a minha família nunca tinha me visto ao vivo. Viam na televisão. Voltei a Recife e fizemos um espetáculo para 4 mil pessoas. E quando acabou foi uma festa, era uma comédia maluca minha e do Miguel Falabella. Meu pai estava lá e era a primeira vez que o meu pai me via representando. Já no camarim ele falou a seguinte frase: “tudo muito bem, tudo muito bom, mas quando é que você vai tomar vergonha na cara e começar a trabalhar?”. Eu achei isso do mais absoluto carinho, mas as pessoas não acham que o que a gente faz seja trabalho. E esse olhar me encanta, então eu preciso investigar o meu trabalho por este olhar. No filme O Maior Amor do Mundo aconteceu outra coisa que eu achei interessante. A gente filmava em uma favela no Rio e tinha uma pessoa que ia todo dia ver as filmagens e me perguntou se podia trazer o filho, que ele gostaria muito de me apresentar. E ele trouxe o rapaz e disse: “eu queria lhe apresentar o meu filho mais velho, ele nasceu em um ano em que você fazia uma novela chamada Final Feliz, era um personagem másculo, vitorioso e eu quis homenagear a você e o batizei como José Wilker”. Eu falei: “Legal, muito obrigado, que bom”. Ele continuou: “Posso trazer meu outro filho amanhã?”. E no dia seguinte ele trouxe o outro filho e falou: “Este aqui nasceu dois anos depois e você fazia uma novela em que você fazia um personagem másculo, vitorioso e eu resolvi homenageá-lo de novo. E este aqui se chama Wilker José”. Entende? Esse é um olhar que me encanta, a gente, às vezes, como ator, não tem noção de quanto penetra e interfere na vida das pessoas, de quanto o nosso trabalho contamina o corpo social. A história do livro é essa, por isso que ele não é sobre cinema.

Giovanni Improtta tem uma trilha sonora adequada ao universo daqueles personagens que logicamente não é o tipo de música que você aprecia. Lá tem funk, pagode, brega. Qual é o seu gosto musical?

Tudo o que está na moda, o que toca atualmente eu acho muito ruim, acho uma merda. Essa música onomatopeica, essa pobreza lírica da nossa música recente me desencanta imensamente. Eu sou daquelas pessoas que meu universo de gosto vai de [Richard] Wagner, [Claude] Debussy até Milionário e José Rico. Eu acho que essa música nova é ruim. E se eu for escolher compositores vou de Cartola, Caetano, Chico, Noel Rosa, Cole Porter, Jacques Brel, Rolling Stones, Beatles, David Bowie, The Doors, Jim Morrison, Crosby, Still, Nash & Young. Eu fiquei talvez nos anos setenta, mas acho que eu fiquei em um bom ano [risos]. Um cara que não toca nas rádios, mas é um músico sensacional, é o Edu Lobo. É fora de série, com uma puta formação sólida. Tem um letrista que parou de escrever que é genial, o Ruy Guerra. Milton Nascimento... e de repente a música brasileira vem com esse cheque, cheque, essas onomatopeias, umas letrinhas paupérrimas. De fora, eu comecei a gostar muito do Gotan Project, eu tinha certa resistência ao tango tecno e comecei a gostar quando ouvi com mais atenção. Tem coisas novas e o que está um pouco parecido com o que a gente faz aqui de bobagem acontece também na música francesa. Têm coisas de música inglesa muito legais, eu fico fuçando na internet, ouço, compro e quero ter em casa, porque, com muita freqüência, gosto de fazer trilha sonora para teatro. Mas há coisas boas acontecendo, o problema é que a visibilidade delas em um mundo que aposta numa certa pressa, que confunde com ritmo de vida, passa batido um monte de coisas. E, de repente, se fica nesse chiclete, naquela coisa que gruda e aí “passa a ser bom”. Tem certa ditadura de números, de achar que o que vende muito é melhor, isso me incomoda.


Algum talento recente na música que você goste?

Eu não ouvi nada recente que achasse legal. A Marisa Monte surgiu e depois ficou um pouco mais do mesmo, mas é boa, acho legal, mas está mais do mesmo. A menina filha da Elis [Regina], a [Maria] Rita, é muito legal, mas não tem o deslumbramento de quando eu vi a Maria Bethânia pela primeira vez no show Opinião, cantando “Carcará”. Esses deslumbramentos... Por exemplo, um que eu tive quando ouvi Milton cantando “Morro Velho” e “Travessia” no Festival da Canção. Todas as canções que ele mandou foram classificadas e eram obras-primas. Não tem o deslumbramento que eu tive quando descobri esses caras.

E de bossa nova, você gosta?

Muito, não de toda, mas gosto mais do que menos. Acho Tom Jobim extraordinário. Algumas músicas de bossa nova têm certo quê de música de elevador ou de consultório dentário, mas o melhor dela é excepcional. Tom Jobim é um gênio. Tom é a coisa mais moderna em música depois de Debussy e Debussy para mim é um músico popular.

Tendo passado grande parte de sua carreira profissional fazendo novelas marcantes como Roque Santeiro, Senhora do Destino e Gabriela, o que você acha da atual situação do gênero no Brasil?

As novelas estão em um momento bom, na verdade, estão num “turning point”. A televisão estava em uma zona de conforto até algum tempo atrás e os novos meios, os novos instrumentos que apareceram, estão mexendo com a televisão. Acho que em mais dois ou três anos vamos nos deparar com formatos e conteúdos bem legais. Estamos em um momento de experimentação, com coisas muito boas e coisas muito ruins convivendo, mas acho um bom momento. Mas eu não vejo muito novela. Na televisão, o que vejo mesmo é futebol. Se tiver um jogo do Ibis x “arranca toco”, eu vou assistir. O que eu vejo é isso. Eu não acompanho e é um defeito que eu preciso corrigir. Eu acompanho lá de dentro, eu percebo, estou falando da Globo onde eu vivo há 40 anos, e entendo o que está acontecendo. Os caras estão inquietos e estão tentando formatos, conteúdos, estão até mesmo tentando uma coisa que na televisão não é tão comum, que é trabalhar a interpretação, investir, correr riscos com os intérpretes. Sei que tem um monte de coisa medíocre que faz sucesso. Quando eu comecei a fazer, me lembro de Gabriela, Saramandaia, Irmãos Coragem, Bandeira 2, tinha Casamento na TV, do Raul Longras, ao mesmo tempo. Esse é um veículo que é feito para o Rio Grande do Sul até o Amapá, Roraima, para um país deste tamanho.

É difícil ficar imune a alguns fenômenos, mesmo para os que não são telemaníacos, porque extrapola a telinha. É o caso da novela Avenida Brasil.

Pois é, é uma novela que eu não vi, mas não podia escapar de saber. Aliás, não via porque não tinha tempo e logo depois teve um troço que eu achei muito bom, um seriado de quatro capítulos que o José Luiz Villamarim fez, O Canto da Sereia, que era muito bem realizado, tecnicamente impecável. Esse eu vi os três últimos capítulos, uma escrita de câmera genial, uma belíssima interpretação. Eles estão tentando esses formatos e isso está invadindo a narrativa das novelas.

O que você poderia dizer sobre o atual panorama da cultura brasileira?

Temos bons escritores, mas temos um passado que não foi reposto. Está difícil aparecer uma escritora do tamanho da Clarice Lispector, está difícil aparecer um escritor popular do tamanho de Jorge Amado, está difícil aparecer um escritor com a consistência de um Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, mas isso não quer dizer que a gente não tenha boa literatura. O que está acontecendo, de novo, no Brasil, que eu acho muito importante e merece um olhar atento, são as artes plásticas. Estas estão acontecendo com importância e influência mundial. Perdemos terreno na música e na literatura, mas estamos ganhando em artes plásticas e também, por incrível que pareça, na televisão.

Qual a sua percepção do cinema brasileiro atual?

No cinema estamos em um momento em que eu não sei para onde vamos. Ainda, depois de tanto tempo, continuamos tendo filmes e não cinema. Temos muitos filmes, mas não temos um cinema. Já estivemos perto de ter um cinema com o Cinema Novo, com a chanchada, mas o Brasil é um país onde o cinema têm surtos. A gente chama isso de retomada, renascimento, mas acho que são surtos. Esse surto da retomada é um surto mais longo e eu acho que ele pode, de alguma maneira, levar a gente a ter um cinema, mas isso ainda não aconteceu.

Você é um famoso colecionador de filmes. Quais são seus preferidos?

Tenho mais de 10 mil DVDs e Blu-rays. Vendi minha coleção de VHS e doei 5 mil títulos em vídeo laser para a Escola Darcy Ribeiro. Estou sempre revendo John Huston, adoro Monicelli, De Sica, Fellini, Antonioni, Bertolucci. Adoro rever filmes do Masaki Kobayashi e do Kenji Mizoguchi. E os do Truffaut, que acho genial. O cinema proporciona uma janela para a vida e para o mundo.

Como você avalia o país atualmente?

O Brasil mudou bastante, não tenho certeza se para pior ou para melhor. Hoje é um país que tem uma safra de grãos monumental, que tem uma Amazônia que é o pulmão do mundo. E o que acontece? A gente continua insistindo em devastar a Amazônia, e não temos para onde mandar a produção, porque não temos estradas. Esse quadro se estende para o resto do país. Ganhamos um grande presente, um “lego” monumental, e não sabemos como montá-lo, não conseguimos encaixar as peças. Não quer dizer que não me sinta feliz aqui. Acho ótimo e é um bom momento. Era ruim quando não tínhamos o “lego”.