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Little Richard anuncia aposentadoria

“Para mim já deu, de certa forma, porque não sinto vontade de fazer nada agora”, diz o músico em entrevista exclusiva à Rolling Stone

Neil Strauss/Ligia Fonseca Publicado em 05/09/2013, às 12h25 - Atualizado às 12h51

Little Richard
Patrick Semansky/AP

“Simplesmente agradeço a Deus por estar vivo”, diz Little Richard. “Nunca imaginei que viveria até os 80. Sou o único da minha família a chegar a esta idade.” Um ano atrás, não parecia que ele, um dos primeiros e mais influentes – se não o mais influente – cantores/compositores/pianistas da história do rock, completaria 80 anos. Ele estava no Howard Theatre, em Washington, para um dos poucos shows que fez nos últimos cinco anos. Levado ao palco em uma espécie de cruzamento entre trono, banco de piano e móvel de jardim, foi colocado em seu lugar à frente do piano, usando um terno de paetês azul que não servia mais. “Tudo bem, senhoras e senhores”, proclamou, iniciando a apresentação que abre seus shows há mais de meio século. “Sou o lindo Little Richard, de Macon, Geórgia.” Só que, naquela vez, a introdução passou de grandiosa a mortal quando ele falou ao público sobre a operação de substituição do quadril que fez em 2009 e como os cirurgiões não conseguiram remover um osso quebrado.

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“Sinto dores 24 horas por dia”, concluiu e, em seguida, começou a tocar “Blueberry Hill”, que ficou mais conhecida na voz de um amigo que ainda visita, Fats Domino. Cada música que tocou vinha de um lugar mais profundo de dor – não emocional, mas física – até que, finalmente, no meio de “Tutti Frutti”, bem depois do primeiro “aw-rooty”, implorou: “Jesus, por favor me ajude. Mal consigo respirar”. No entanto, ele seguiu em frente, determinado a dar à plateia o que esta queria ver, lutando para cantar “Long Tall Sally”. Por um momento, parecia que o lindo Little Richard cantaria até morrer – e finalmente foi carregado para fora do palco.

Quinze minutos depois, estava sentado em sua cadeira de rodas, sozinho. “Estou doente”, disse como que pedindo desculpas, como se estivesse decepcionado por seu corpo não conseguir mais acompanhar seu espírito. “Fiquem próximos de Jesus”, aconselhou, limpando sangue que saía do nariz e da boca com um lenço. “O mundo está chegando perto do fim. Preciso de um copo.” Enquanto cuspia mais sangue dentro do copo, dois fãs entraram, esperando tirar uma foto com ele. Apesar de sua condição, aceitou, olhou para a imagem e comentou: “Tenho a cabeça grande – tire outra”.

Há 70 anos, quando ele era simplesmente Richard Penniman, as crianças o chamavam de Cabeção, e evidentemente o eco dessas provocações continua. Desde a infância, fosse insistindo para ser a mãe nas brincadeiras de casinha ou ganhando uns trocados como curandeiro espiritual, Penniman vive em uma realidade própria, com os elementos de sua personalidade extravagante intocáveis. Ele se proclama “o Arquiteto e Originador do rock”, embora, na verdade, seja um dos vários fundadores do gênero; quando lhe perguntam, responde que também é chamado de “quasar do rock” e reflete: “Havia outro rapaz em Atlanta, Billy Wright, mas eu que comecei”.

Quase um ano depois do show, Little Richard liga do nada para continuar a conversa. Com energia e otimismo renovados, anuncia que seu plano para o futuro é “continuar vivendo o máximo que conseguir e garantir que meu legado seja o que deveria ser.”

“Acho que meu legado deve ser tal que, quando comecei no show business, não havia o rock”, afirma Richard. “Era ‘balance com Sammy Kaye’. Era John Lee Hooker, Elmore James – e então, depois de um tempo, vem Chuck Berry. Quando comecei com ‘Tutti Frutti’ foi quando o rock realmente começou a sacudir, com ‘wop-bob-a-loo-bop-a-lop-bam-boom’, sabe?” Richard enuncia a frase de forma percussiva e levemente diferente da gravação original. “Quando encontro as pessoas hoje, elas não sabem.”

Ao ouvir a pergunta sobre se sua música na época vinha da frustração que ele precisava expressar ou de uma alegria que precisava extravasar, responde: “Era uma dor e, então, uma alegria impressionante. Queria expressar as duas coisas”. A alegria, explica, vinha de Deus. Quanto à dor: “Minha mãe teve 12 filhos. Meu pai foi assassinado aos 40 anos, pelo meu melhor amigo. Então, minha mãe precisou de ajuda. Era muita dor, mas muito amor.” Reflete por um momento. “Então a dor não era dor. Era a dor do amor.” Mastiga as palavras e, depois, exclama: “Isso deveria ser uma música, ‘A Dor do Amor’. Gosto disso. É bonito.”

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Quanto a gravá-la um dia, isso parece improvável. Ultimamente, Richard tem passado o tempo desenhando roupas, rezando a Deus para proteger seus funcionários de longa data e as famílias deles de um apocalipse divino que sente ser iminente e enviando suas roupas antigas para o Smithsonian. Sobre a música, diz decisivamente: “Para mim já deu, de certa forma, porque não sinto vontade de fazer nada agora.”

Esta entrevista faz parte da edição 84 da Rolling Stone Brasil, setembro de 2013.