Lollapalooza 2014: “Não existem mais letras irresistíveis, especialmente na música pop”, diz vocalista do Cage the Elephant

Banda faz show solo nesta sexta-feira, 4, em São Paulo, e no dia seguinte toca pela segunda vez no festival criado por Perry Farrell

Pedro Antunes Publicado em 03/04/2014, às 10h18 - Atualizado em 24/03/2017, às 18h00

Matt Shultz - Cage the Elephant
Paul A. Hebert/AP

No início da tarde daquele domingo, 7 de abril de 2012, o sol castigava quem estivesse próximo ao palco Butantã, na primeira edição da versão brasileira do festival Lollapalooza. Com dois discos na bagagem, o Cage the Elephant surgiu e arrebatou o público de forma surpreendente. O vocalista Matt Shultz parecia possuído por uma força incontrolável. O som relativamente baixo que vinha das caixas de som e a alta temperatura no Jockey Club não eram capaz se segurar o ímpeto do grupo de Kentucky. A combinação, ao contrário, parecia acelerar a combustão da performance ao vivo. “Depois daquele show, passei a receber muitos e-mails e mensagens no Facebook vindos de fãs brasileiros”, revela o músico, por telefone, à Rolling Stone Brasil.

Cage the Elephant explora sonoridades tranquilas em nova música; ouça “Come a Little Closer”.

Praticamente desconhecido por aqui, apesar dos elogiados álbuns Cage the Elephant (2008) e Thank You, Happy Birthday (2011), e com um ilustre fã (Dave Grohl, vocalista do Foo Fighters), o Cage the Elephant foi surpreendente. “Quando soube que voltaríamos a São Paulo, pedi ao nosso agente: ‘nós precisamos marcar um show nosso lá’”, disse ele. Desta forma, além de tocar na terceira edição do Lollapalooza brasileiro, neste sábado, 5, o grupo fará uma apresentação solo em uma das Lolla Parties, marcada para esta sexta-feira, 4, no paulistano Cine Joia.

Desta vez, o grupo chegará com um repertório mais denso e confessional, fruto das canções do disco Melophobia, lançado no ano passado após um período de descanso dos integrantes. O título do álbum significa “medo de música”, mas Matt explica que o sentido não é exatamente este. “É o medo de criar música sob os pretextos errados”, diz ele. “As pessoas compõem música para criar uma imagem premeditada delas mesmas, em vez de procurar expor um sentimento ou pensamento, entende?”

Ele alfineta a indústria fonográfica por transformar a música em algo mercadológico. “Não existem mais letras irresistíveis, especialmente na música pop. Até fazem música para ser recebida como poética, intelectual ou artística, mas não é isso. É a ideia de comunicar um pensamento, um sentimento ou todos esses elementos juntos. Para a gente, este disco foi um álbum para quebrar esse medo de compor”, disse ele

“Funcionou bem para a gente”, completou o vocalista, que viu o primeiro single do disco, “Come a Little Closer”, chegar ao topo da parada de rock alternativo norte-americana. “Isso veio a mim como uma revelação após ficar em turnê por dois anos seguidos. Tentamos alcançar a perfeição de entreter, mas quero compor canções que entrem no corações das pessoas. Letras transparentes aproximam as pessoas.”

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o guitarrista Brad Schultz, do Cage the Elephant, falou sobre os planos para o novo álbum e lembrou de quando era proibido de ouvir discos de rock.

A faixa em questão busca justamente a aproximação que Matt explica ao telefone. “A criatividade, na forma mais pura, vem para a solução de problemas. Se eu quero me comunicar com você, preciso construir uma ponte entre a gente. É o que a música sempre fez, desde o tempo em que as pessoas se reuniam ao redor das fogueiras e batucavam em tambores. Era isso que as reunia.”

A ideia de “Come a Little Closer”, aliás, foi inspirada pela primeira passagem da banda pelo Brasil, na manhã da performance do grupo no festival. “Pegamos um avião de Buenos Aires para São Paulo no dia anterior. Na manhã seguinte, da janela do hotel, eu conseguia ver um lugar com casas improvisadas com chapas de metal e tijolos... Como elas são chamadas? Vilas?”, pergunta ele. “Isso, era uma favela. E fiquei pensando que as pessoas ali viviam de uma forma que eu não conheço, mas que dão um valor para a vida que eu não teria. É o conceito da música, o fato de a gente não perceber o que está na nossa frente”.

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Intenso é a palavra para descrever uma performance de Matt e companhia no palco. AO telefone, contudo, o vocalista é tranquilo e de fala lenta. Ri ocasionalmente e divaga sobre solidão. No palco, contudo, torna-se um animal selvagem que pula sobre o público, corre para todas as direções e se entrega às canções. Questionado se a performance seria um reflexo da timidez extravasada pelas músicas, Matt se diverte: “Acho que pode-se dizer que sim.” “Nossos shows convertem o nervosismo em energia”, continua.

Energia tamanha que ele guarda poucas memórias das apresentações em si. Do Brasil, o músico se lembra “da energia do público”. “Até mesmo fora do palco, andando no festival, era possível sentir isso. Era bem revigorante”. Sobre o show escaldante de 2013, Matt pensa por um momento e responde, enfim: “Sabe, isso é engraçado. Nosso produtor costuma dizer que quando se faz um grande show, a gente nunca se lembra”. “Então, eu não me lembro muito da apresentação em si. Mas lembro de me sentir muito bem aí.”