Lollapalooza 2014: “Ser uma banda que simplesmente entra e sai do palco é nossa marca", diz guitarrista do Pixies

Joey Santiago explica postura introspectiva dos integrantes em cena, comenta a saída da baixista do grupo e promete uma banda "renovada" no segundo dia de Lollapalooza Brasil

Lucas Brêda Publicado em 04/04/2014, às 20h08 - Atualizado às 20h31

Pixies ao vivo.
Robb Cohen/AP

Desde o reencontro em 2004, o Pixies vem fazendo turnês esporádicas (como a comemorativa dos 20 anos de Dootlittle), lançando EPs e passando por turbulentas mudanças no posto de baixista da banda. Dez anos depois da volta, o grupo que sobe ao palco do Lollapalooza Brasil no domingo, 6 de abril, é “uma banda com ‘frescor’, mas que está aí já há algum tempo”, conforme definiu o guitarrista Joey Santiago, em entrevista à Rolling Stone Brasil. “A gente sempre se sente renovado e trazendo coisas novas para as pessoas”, ele completa.

Veja as informações sobre Indie Cindy, álbum que reúne os EPs lançados recentemente pelo Pixies.

Com o lançamento dos três EPs (EP-1, EP-2 e EP-3) e o anúncio de Indie Cindy – primeiro álbum completo desde Trompe Le Monde, de 1991, a ser lançado em 29 de abril – o Pixies deu boas as vindas ao século 21, mostrando-se uma banda que envelheceu o tanto que os 23 anos sem discos de inéditas sugerem. “Você está vendo uma banda crescer”, explicou Joey sobre as faixas recentes do grupo, acrescentando: “Mas ainda tendo a mesma personalidade. Isso não mudou. Você pode dizer que crescemos pela maneira como abordamos as canções agora, mas continua soando como o Pixies”, ele disse, finalizando: “É como com um bebê: você o vê chegando à adolescência, mas ele continua a mesma criança”.

Se em músicas como “Bagboy”, “What Goes Boom” e “Blue Eyed Hexe” o grupo parece dar novo vigor ao tipo de som que fazia na virada dos anos 1980 para os 1990 (principalmente com os riffs de guitarra), em faixas como “Greens and Blues” e “Andro Queen”, Black Francis canta melodias mais afáveis e um tanto quanto insossas, levadas ao violão. Muito da mudança no som da banda se deve à falta de Kim Deal, baixista que deixou o grupo no ano passado.

“No começo, só de pensar nisso já era muito chato”, lembra-se Joey, “é uma pena, porque queríamos muito que fosse a Kim”. Dona dos graves do grupo desde 1986, Kim Deal anunciou seu desligamento em junho de 2013, dando um susto em Francis, Joey e no baterista David Lovering. Entretanto, o guitarrista admite que a perda maior está nos backing vocals que se tornaram marca registrada da baixista e, consequentemente, do som do Pixies, “A música continua lá, a melodia continua lá, as partes da guitarra que faço continuam lá”, disse. “Não é tanto pelo baixo, é mais pelo backing vocal que sentimos falta”.

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Outra Kim, Shattuck, entrou para a banda em julho, e quatro meses depois já havia sido demitida, sugerindo que o motivo teria sido o fato de os integrantes da banda serem “pessoas mais introvertidas” do que ela. Além disso, Shattuck chegou a especular que um dos fatores ligados à saída tenha sido um show em Los Angeles, quando ela, entusiasmada, "mergulhou" na plateia. “Quando eu deixei o palco, o empresário disse para não repetir aquilo. Eu disse: ‘Sério, pela minha própria segurança?’ E ele disse: ‘Não, o Pixies não faz isso’”, contou ela à britânica NME, na ocasião.

“Ah, Jesus! A razão não foi ela ter pulado do palco. Aquilo foi no começo, bem no começo. Era nosso segundo show, então não foi por isso”, se defendeu o guitarrista. “Não vou entrar em detalhes, mas foram vários os motivos pelos quais fomos atrás de uma nova baixista”. Ele ainda demonstrou uma certa “trava” ao falar do assunto. “Talvez tenha alguma coisa a ver [com o fato de os integrantes serem introvertidos], é questão de personalidade”, completou. “O que acontece é que são várias razões nas quais você pensa, então, ela... o que devo dizer? Não posso falar nada mais que isso”.

Tão nebuloso quanto a saída de Kim Shattuck do grupo, é o setlist que a banda trará ao Brasil, em sua terceira passagem por aqui – a primeira foi em Curitiba, em 2004, depois em São Paulo, no SWU de 2010 –, “Depende do humor de Charles [Thompson, nome real do vocalista Black Francis], ele vai chamando as músicas. Varia de uma situação para outra, nunca sabemos como vai ser”. É provável que a banda não toque o costumeiro repertório de mais ou menos 30 canções: no Lollapalooza da Argentina, foram 18, no do Chile, 24. Em São Paulo, eles tocam por 1 hora e 15 minutos, das 17h35 às 18h50. “Duvido que a gente toque tantas canções. Tem um limite na quantidade de minutos que vão nos permitir tocar”.

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Uma das coisas que vai afetar a performance do grupo é o fato de ser um país pouco visitado pelo Pixies ao longo dos anos. Joey admite: “Sabemos que estamos em uma cidade diferente, e sabemos que várias pessoas que estarão lá vão nos ver pela primeira vez. Eu me coloco nessa situação. Isso faz com que minha mente esteja renovada, porque eu me relaciono com a plateia”.

A relação entre Pixies e plateia, inclusive, é uma das coisas mais marcantes nos shows da banda, tendo em vista que poucas (ou nenhuma) palavras são trocadas entre os integrantes e o público. “Eles estão lá para ouvir música, e se conversamos com eles, estamos jogando fora o tempo do entretenimento, do som”, o guitarrista explica, entre risadas. “Ser uma banda que simplesmente entra e sai do palco é nossa marca. Não tem nada a ver com não prezar pela plateia. Fazemos como os Ramones, tudo que você ouve nos shows deles é ‘1, 2, 3, 4’, sabe?”.

Esperar que Joey Santiago e companhia ajam diferente em cima do palco é ir de encontro com uma personalidade inerente ao Pixies. Entretanto, de um catálogo com hinos indie como “Hey”, “Where Is My Mind?” e “Here Comes Your Man”, é difícil imaginar que um público “entusiasmado” e que “tem uma resposta inacreditável”, segundo Joey, não fique satisfeito.