Lollapalooza 2015: sobriamente, Alt-J faz de Interlagos uma catedral; entenda

Trio britânico tocou faixas dos dois discos em tom solene

Thiago Neves Publicado em 28/03/2015, às 20h56 - Atualizado em 30/03/2015, às 14h20

Banda durante apresentação no Lollapalooza 2015

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Pela primeira vez no Brasil, em apresentação no Lollapalooza 2015, o Alt-J subiu ao palco Skol para evidenciar que a estética proposta pelo trio de Leeds, na Inglaterra é adorada por uma multidão de jovens, que demonstram isso com as mãos, desenhando com elas o triângulo representante da letra grega Delta, que já fez parte do nome da banda, antes chamada de alt-J (?).

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Desde o primeiro momento, quando os vocais de “Hunger of the Pine” ecoaram em um dos vales que abrigam os palcos do Lollapalooza, estabeleceu-se um cenário solene, em que havia pleno diálogo entre os sons e o silêncio, em um lugar onde cada nota – e cada pausa – ocupava uma posição exata, precisa. Diferentemente do que se espera de um show em festival, a apresentação do Alt-J fez com que o ensolarado e movimentado Autódromo de Interlagos se "transformasse" em uma igreja, como a Catedral das Belas Artes de Paris, local onde o trio se apresentou recentemente. Naquela ocasião, ficou claro que os vocais sobrepostos e a sonoridade grandiloquente do grupo podiam ser diretamente ligados à música apresentada na instituição religiosa, onde a música da banda ecoou e soou mais bela do que nunca.

O fato de esta vinda ser a primeira do grupo agiu em favor do espetáculo, obrigando que o Alt-J também explorasse as faixas do aclamado An Awesome Wave (2012), com as quais os fãs certamente têm mais afinidade. Não que as músicas de This Is All Yours (2014), segundo e mais recente álbum da banda, não agradem ao público, mas o primeiro disco é a apresentação de uma estética relativamente inovadora, que guia quase todas as faixas da banda.

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O show foi constante, com poucas intervenções dos integrantes da banda. Antes do início, a esperança de boa parte dos fãs, provavelmente, era de que o Alt-J conseguisse reproduzir ao vivo o mesmo cenário proposto quando em estúdio. Durante o concerto, essa tarefa foi executada com tranquilidade pelos músicos, capazes de entoar cada uma de forma muito semelhante dos discos, permitindo experimentações e dando espaço para que fossem entoados os refrãos. Completado o êxito no aspecto da performance, a banda, consequentemente, peca pelos mesmos erros dos álbuns. Inegavelmente o Alt-J é uma banda repetitiva, as faixas do grupo seguem uma imutável sequência: uma crescente, com vocais agudos, muitos efeitos digitais e melodias com uma grande dose de lirismo.

Por um lado, a repetição da forma é a razão da virtude do grupo em criar um clima sólido e envolvente no show. No entanto, é também o motivo pelo qual ele se torna cansativo, com uma capacidade de variação muito limitada. Não que as faixas não sejam indistinguíveis, mas a sensação é de comer a sua sobremesa favorita muitas vezes seguidas.

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Nos raros momentos de aproximação com o público, o grupo tocou “Every Other Freckle”e “Breezeblocks” com uma bandeira do Brasil sobre os ombros. “Breezeblocks”, sucesso do álbum de estreia, foi escolhida pelo grupo para fechar o setlist. Com o refrão “Please don`t go/ Babe, I love you so”, o trio teve de despedir de uma plateia anestesiada. A banda poderia ir além criativamente, mas o talento musical do Alt-J é inegável.