Luísa Sonza e a busca pelo sentido dos 20 e poucos anos [ENTREVISTA]

Luísa Sonza fala sobre as conquistas e incertezas dos 20 poucos anos, potencializadas pela fama e pelo hate, as quais foram registradas no disco Doce 22

Julia Harumi Morita Publicado em 19/07/2021, às 07h00

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Luísa Sonza na capa do disco Doce 22 (Foto: Divulgação)

Aos 20 e poucos anos, o gosto da vida ganha novos sabores. Muitos se sentem mais próximos da adolescência do que da idade adulta ao experimentarem amargas desilusões, ácidas incertezas ou doces descobertas. Para Luísa Sonza, estas sensações foram potencializadas pela fama e o hate nas redes sociais.

No último domingo, 18, a cantora gaúcha completou 23 anos e celebrou a data com o lançamento do segundo disco da carreira, Doce 22, disponibilizado nas plataformas de streaming pela Universal Music.

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Sonza compôs as 14 canções do disco e, pela primeira vez, sentiu o gostinho de atuar como produtora musical ao lado de Doug Moda, além de assinar o roteiro, a direção criativa e a codireção de clipes do projeto.

 
 
 
 
 
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Produzido ao longo de 14 meses, o álbum originalmente seria lançado no dia 22 de junho, mas foi adiado por causa de uma onda de ataques virtuais contra Sonza e o atual namorado Vitão após a morte do bebê prematuro do ex-marido, Whindersson Nunes, com a noiva Maria Lina.

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Durante uma chamada de vídeo com a Rolling Stone Brasil, Sonza confessou que não está lidando bem com a situação e que não sabe de onde tirou forças para manter o lançamento depois de se afastar das redes sociais - o qual poderia muito bem ter sido adiado por mais tempo para a artista cuidar do bem-estar.

Mas a vontade de fazer música conseguiu vencer os mais cruéis haters da web. "Cantar é a única coisa que fiz na vida, desde o começo da minha vida, desde os 7 anos. Eu não sei ser outra coisa, não sei ser outra pessoa, não sei não fazer isso."

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A artista continuou: "Eu prefiro ir contra o mundo inteiro a ir contra mim, porque seria injusto comigo mesma não cantar [e] não continuar. Mas, o que me dá força? Eu não sei. Não sei nem se eu tenho força. Eu só to aqui."

"Não é disso que todo mundo me chama?"

O hate não é um novo sabor na vida de Sonza. Há seis anos, a cantora foi alvo de xingamentos de todos os tipos, os quais frequentemente incluíam as palavras "p*ta," "vagab*nda" e "interesseira."

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"As três palavras que mais escutei em cinco anos foi "p*ta," "vagab*nda" e "interesseira." E de uma maneira pejorativa, tá? Porque não acho que ser p*ta é um problema, mas [as pessoas falam] de uma maneira pejorativa, com intenção de me diminuir."

Cansada de tentar mudar o próprio comportamento para "tentar buscar uma maneira de não acharem as piores coisas possíveis" dela ou simplesmente fazer as pessoas pararem de falar sobre ela com tanta facilidade e certeza sem sequer conhecê-la, Sonza se reuniu com amigos e escreveu a primeira faixa do disco, estilizada como "INTERE$$EIRA."

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A artista recebeu a sugestão de suavizar o vocabulário da composição e mudar "p*ta" para "burra", por exemplo. "Não é disso que todo mundo me chama? Não é isso que eu sou para as pessoas? Então é isso que eu vou falar."

"Eu falei: 'Quer saber? Eu vou pegar essas três palavras e, agora, elas vão ser minhas e vão iniciar o álbum [...] vocês não vão poder falar de mim de uma maneira… e se falarem, eu vou me sentir dona dessas palavras, sabe?"

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Sem dúvidas, Doce 22  é um retrato das experiências pessoais de Sonza. Contudo, a cantora pop relacionou a própria história com a realidade coletiva das mulheres na indústria da música e na sociedade em geral.

"Esse álbum não é uma história minha, sabe? É uma história de todas nós, o que todas nós já passamos de alguma forma, em algum momento. Tudo isso que estou falando… eu não sou a única, o alecrim dourado que sofreu para caramba, todas nós sofremos no nosso meio de trabalho, na sociedade de um modo geral."

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Feats de estúdio, da vida e mais

Nas colaborações, Doce 22reúne um time variado de artistas, desde Pabllo Vittar e Lulu Santos até o rapper norte-americano 6LACK - as parcerias com Ludmilla, Mariah Angeliq e Jão serão disponibilizadas posteriormente, mas Rolling Stone Brasilpode adiantar que os fãs não vão se decepcionar.

Ao falar sobre os feats, Sonza lembrou de quando fez um cover de "Sua Cara," de Major Lazer, Pabllo Vittar e Anitta, e cantou um trecho de "De Repente, Califórnia," de Lulu Santos.

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"Tipo assim, é muito f*da. É muito incrível, de um respeito musical que eu busquei tanto para ter. Aí vem o Lulu Santos e fala: 'Sim.' Vira a cadeira para mim. É muito incrível."

A cantora continuou: "É a parte que você fala: 'Nossa, talvez eu esteja no caminho certo. Talvez eu não esteja tão doida assim. Talvez eu não seja tão mau como as pessoas acham, porque tem gente tão incrível me apoiando no segundo álbum de estúdio. Talvez eu seja uma pessoa legal."

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A artista fez questão de mencionar os "feats da vida", aqueles que acontecem nos bastidores, como a parceria com Moda, quem conheceu no início da produção do disco e ganhou tamanha intimidade ao ponto de ligar chorando ou se emocionar enquanto criava Doce 22.

"Não só o feat com os artistas, mas os feats com cada pessoa que participou desse álbum foi algo que mudou, de fato, a minha vida e minha cabeça. E me permitiu ser mais eu."

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Ao ser questionada sobre qual parceria trouxe mais lições profissionais, Sonza falou sobre a colaboração mais importante do disco: a com ela mesma.

"O feat que mais aprendi nesses 14 meses fazendo o álbum foi o feat comigo mesma. Eu mesma me conhecer e me permitir. Talvez, ano passado, várias músicas desse álbum, eu não teria coragem de lançar. Não que esteja com coragem. Eu estou com o c* na mão, mas [antes] eu não teria coragem de me permitir ser assim."

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O Lado B

A primeira parte do disco conta sete músicas pop vibrantes com títulos em caixa alta, as quais exploram do funk ao pop anos 2000 de Britney Spears. Depois de um interlúdio, as composições desaceleram, ganham títulos em caixa baixa e ficam mais experimentais: tem canção só voz e piano, sertanejo e até solo de gaita

"Eu tive que desaprender /A gostar tanto de você /Por que você faz assim? /Não fala isso de mim /E eu sei que chora /Não finge que não viveu nossa história /Meu Deus, eu pedi tanto pra não ir embora /Mas tenho que seguir meu caminho agora," canta Sonza na belíssima "penhasco."

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É como se o Lado A fosse a Luísa Sonza confiante, "super-heroína" e "f*dona," explicou a artista. É uma face mais consciente, enquanto o Lado B explora o inconsciente da cantora. Juntos, eles formam essa mistura agridoce de contradições de quem procura entender o sentido dos 20 e poucos anos.

"Eu sou canceriana com ascendente em áries, entendeu? (risos) Aí é uma bagunca do caramba. Às vezes, eu realmente aguento e f*da-se," contou a artista. "Eu crio uma casca, mas, na verdade, estou sofrendo para caramba. Sou uma confusão que não entendi."

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Sonza continuou: "O Lado B que eu ainda não entendi. Eu só tenho 22 anos e estou em um turbilhão de emoções desde os 17, vivendo coisas muito incríveis, mas também coisas muito difíceis para mim. Enfim, estou sendo só uma menina. Eu me sinto e prefiro me chamar de menina, porque ser mulher é uma grande responsabilidade. Eu deixo isso, sei lá, para Luísa Sonza em 'Braba.'"

Com o fim deste ciclo, a cantora quer aproveitar o sucesso conquistado nos anos anteriores para cuidar da vida pessoal. "Estou mais preocupada em estar bem, com minha cabeça no lugar, não ter que tomar remédio para ficar bem, não ter que ter tanta fuga, não ter que estar sempre em um turbilhão de sensações. Quero estar mais tranquila para continuar fazendo o que amo, que é cantar. Enfim, essa é minha meta para os 23 anos."

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