Macaco Bong pretende relançar emblemático Artista Igual Pedreiro em vinil

Trio cuiabano faz campanha para dar versão física ao melhor disco nacional de 2008, pioneiro em lançamentos digitais

Lucas Brêda Publicado em 18/09/2015, às 16h43

Bruno Kayapy, do Macaco Bong

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Em 2008, o álbum Artista Igual Pedreiro, do trio cuiabano Macaco Bong, foi eleito o melhor disco nacional do ano, pela Rolling Stone Brasil. Na história da versão brasileira da revista, ele é o único trabalho instrumental a conseguir alcançar tal feito. Por este, entre outros motivos, a banda planeja relançar o disco pela primeira vez em versão física, em vinil de edição limitada.

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“O Artista Igual Pedreiro, em vinil, nunca existiu”, conta o líder do grupo, Bruno Kayapy. “Na época, o lançamento digital era bem pioneiro ainda. E nós apostamos totalmente na versão digital. Agora, já vai fazer alguns anos que foi lançado e não tem uma versão física para encontrar. Então eu pensei: ‘Em vez de refazer em CD, vou fazer uma edição limitada em LP’.”

Assim surgiu o projeto de financiamento coletivo (acesse aqui) para viabilizar o relançamento do trabalho de estreia do Macaco Bong. O crowdfunding já está disponível no Kickante, onde fica online até o próximo dia 24 de outubro, quando Kayapy espera atingir a meta de R$ 50.392. As recompensas são poucas e variam entre apenas um dos LPs (Artista Igual Pedreiro é um álbum duplo), por R$ 130, ou colocar uma logomarca no disco, site e YouTube da banda, por R$ 30 mil.

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“Hoje em dia, com a quantidade de coisas que tem, é meio difícil alguém parar para ouvir esse disco, eu acho”, comenta o guitarrista – atualmente tocando também baixo – do trio. “Posso estar bem equivocado, mas são 300 discos, e eu pensei: ‘Pô, 300 malucos, para ter esse vinil na mão?’ Acho que vale a pena”. No total, se viabilizado, o projeto renderá 900 cópias, sendo 300 do LP 1, 300 do LP 2 e mais 300 do álbum duplo, completo, com os dois LPs.

A reedição em vinil de Artista Igual Pedreiro, entretanto, não traz apenas as faixas originais – lançadas na internet – prensadas no acetato. “Mudei um pouco a ordem das músicas”, explica Kayapy, único remanescente da formação original. “Também peguei trechos de sessões gravadas – meio à surdina – com a formação original da banda, em 2011, quando já estávamos mais maduros na execução das músicas, e misturei com as [fitas] master originais do disco.”

Resenha: Macaco Bong – Macumba Afrocimética (2015).

Gravado com Ynaiã Benthroldo (baterista, atualmente o dono das baquetas no Boogarins) e Ney Hugo (baixo), Artista Igual Pedreiro foi lançado em 2008 pela extinta gravadora Trama, no serviço ÁlbumVirtual, que já havia disponibilizado os álbuns Danc-Êh-Sá Ao Vivo, de Tom Zé, e Donkey, do Cansei de Ser Sexy. O ÁlbumVirtual funcionava oferecendo downloads gratuitos dos discos inteiros – prática que ainda engatinhava na época, mas que hoje é praticamente uma regra entre artistas fora do maisntream.

“Naquele momento, o Macaco Bong estava numa fase em que não era só a questão do som [que importava]”, confessa o líder da banda. “Acho que estávamos no lugar certo e no momento certo, sabe? Estava tudo apontando para a questão digital, mas todo mundo falava: ‘Não, mas dar música de graça é furada’. Mas a gente veio com a ideia de que é ‘tudo free, mano’, vamos soltar na internet. Daí a Trama se interessou, fez a proposta.”

Resenha: Macaco Bong – Artista Igual Pedreiro

Com faixas longas e sonoridade não convencional, Artista Igual Pedreiro não só alavancou a carreira do Macaco Bong, como se tornou um marco para a música independente – e instrumental – brasileira. Muito disso, também, graças ao emblemático título do trabalho, quase uma premonição do funcionamento da indústria fonográfica atual, em que as gravadoras perderam espaço, e os artistas, além de criar, têm de trabalhar na gravação e distribuição do produto.

“Esse título foi criado pela galera lá em Cuiabá”, lembra Kayapy. “Tínhamos uma produtora e volta e meia tínhamos que fazer obra, por que é caro pagar pedreiro [risos]. Era uma zuação e resolvemos colocar ‘Artista Igual Pedreiro’. No dia a gente ficou pensando no que colocar, e nos acabamos de rir. Não foi uma coisa muito pensada, foi um negócio mais irônico.”

Posted by Macaco Bong on Sábado, 18 de abril de 2015

“Toda a associação do nome, com o estilo da banda, todo o ‘rala’, o fato de ser instrumental, era a gente indo para um outro lado” Kayapy analisa. “Enquanto o pessoal investia pesado em estrutura e coisa do tipo, nós estávamos enxugando as coisas. Isso na época foi um pouco provocativo, ver a gente saindo de Cuiabá e tocando pelo Brasil todo. Não que o Macaco Bong propriamente tenha desbravado algo novo, só acho que talvez o Artista Igual Pedreiro mostrou que não é preciso ter um estilo de música específico para ter público.”

Com Ynaiã na bateria, o Macaco Bong lançou mais um disco, This Is Rolê, em 2012 (com Gabriel Murilo assumindo o baixo). Depois, Bruno Kayapy ainda soltou um single, “Black Marroca”, em 2013, já com uma nova formação e, este ano, refez o grupo novamente para o terceiro álbum completo, Macumba Afrocimética. No novo disco, Kayapy abandona a guitarra e toca baixo, transformando a escalação do trio em baixo, baixo e bateria.

Ouça a íntegra de Macumba Afrocimética.