Na cola de Madonna

Rich e Tone Talauega, coreógrafos da Sticky & Sweet Tour, falam sobre o processo criativo junto à Rainha do Pop

Por Patrícia Colombo Publicado em 18/06/2010, às 13h23

"Ela tem essa atitude de mulher alfa", diz o coreógrafo Tone Talauega sobre Madonna
Divulgação

Em dezembro de 2008, o público brasileiro pôde assistir àquela que posteriormente foi tida como a turnê mais rentável de todos os tempos para uma artista solo: a Sticky & Sweet Tour, de Madonna, que obteve lucro US$ 408 milhões. Em cinco shows realizados no país - dois no Rio de Janeiro e três em São Paulo -, a Rainha do Pop misturou no setlist faixas do então recém-lançado disco Hard Candy e clássicos de sua carreira, que, como nas turnês anteriores, ganharam uma espécie de roupagem nova, seguindo a postura da cantora de sempre se renovar.

Mais que apresentar somente Madonna cantando, suas turnês são verdadeiros espetáculos de efeitos tecnológicos, iluminação e linguagem corporal. Dois dos grandes responsáveis pela parte artística dos shows são os irmãos Rich e Tone Talauega. Ambos foram convocados pela cantora para trabalhar nas coreografias da Sticky & Sweet Tour, comandando um grande número de dançarinos de diversas nacionalidades, escolhidos criteriosamente por Madonna junto à dupla cerca de três meses antes do início da turnê. Os respeitados Talauega, que trazem no currículo trabalhos com nomes como Kylie Minogue e Backstreet Boys, são parceiros nas turnês de Madonna pelo mundo desde 2004, quando assumiram o processo criativo de coreografias para a Re-Invention Tour. A dupla foi descoberta nos anos 90 pelos coreógrafos de Michael Jackson, LaVelle Smith e Travis Payne, enquanto fazia um "freestyle" em um clube situado em Oakland, nos Estados Unidos.

Considerando todos os efeitos nas apresentações e a bagagem artística de Madonna, elaborar coreografias criativas e inéditas acaba sendo um grande desafio. "Você tem telões vindo do nada, o palco se move, há toda uma transformação naquilo", contou Rich, em entrevista coletiva, por telefone, a veículos de comunicação latino-americanos, entre eles a Rolling Stone Brasil. "O processo de criação é bastante pesado, já que Madonna espreme de você todo um suco criativo para que ela obtenha o melhor, não só para as músicas, mas para o show ao todo. Você acaba tendo que enfrentar os obstáculos para chegar ao melhor resultado."

Na hora da seleção dos dançarinos, um dos aspectos curiosos é que Madonna nem sempre opta pelos profissionais mais "técnicos", como ela mesma diz nos extras do DVD. "Dançarinos mais treinados lidam com referências de balé, jazz, e esses movimentos já foram realizados muitas e muitas vezes no passado", explica Rich. "É o oposto da dança de rua, que vem da emoção pura e primitiva. Sem regras." Segundo ele, a cantora, de certo modo, faz uma junção destes dois mundos. Ela não visa a ausência completa da técnica, mas prioriza a questão do sentimento nos dançarinos e da inovação dos passos. "Acredito que os melhores que já trabalharam com ela não tinham tanto conhecimento sobre a dança em si, mas havia algo de especial neles. Sabiam como sentir a batida. É isso que ela quer." O coreógrafo diz que não há dançarinos perfeitos e que procurar por eles é furada. "Não dá para ter isso, pois qual seria a definição de um?", questiona. "Não há. Cada dançarino tem o seu jeito, sua característica."

Tanto os irmãos quanto Madonna dividem a mesma opinião a respeito de que estes profissionais vão além de seus mais inusitados movimentos, assumindo também o cargo de atores. "Para ser um superstar, você deve ter três ingredientes: saber atuar, cantar e dançar", diz Rich. Mas o coreógrafo vai mais além. "Sabe aquele ditado 'ações valem mais do que palavras'? Então, com a dança você cria esse movimento que você não precisa explicar ou dizer o que é. Você simplesmente sente e se inspira com o que vê."

Sobre trabalhar com Madonna, os irmãos comentaram que, apesar de ser controladora e comandar tudo de perto, a diva tem seu lado carinhoso. "Ela é muito brincalhona, piadista, amorosa e protetora com relação à equipe", conta Tone. "É esperta, inteligente e compartilha muito do conhecimento que tem com todos. Ela cuida dos que cuidam dela no palco, sabe? Com relação à criatividade, às luzes. Ela faz questão de falar que se sente orgulhosa de trabalhar conosco, e dizemos o mesmo." Porém, eles ressaltam que, da mesma forma que há espaço para brincadeiras, há, claro, grandes cobranças. "Ela tem essa atitude de mulher alfa também. É na hora que ela quer e a grana é dela. Se você não estiver fazendo um bom trabalho, ficará sabendo - o que é ótimo, é a forma que deve ser. As pessoas gastam grandes fortunas com ela porque sabem que terão o melhor produto."

Michael Jackson

Entre os inúmeros trabalhos dos irmãos, está a coreografia para o clipe de "You Rock My World", lançada por Michael Jackson no álbum Invincible (2001). Tendo trabalhado junto à "realeza" do pop, os irmãos contam que, passando a barreira da imagem da celebridade, havia em Jackson e há em Madonna duas pessoas comuns. "Por trás de todo o glamour, percebemos o lado humano", revela Rich. "É você ter a oportunidade de sentar com eles e conversar numa boa, podendo apreciar o aspecto criativo, as ideias. No final das contas, um homem e uma mulher normais."

Na segunda parte da Sticky & Sweet Tour, iniciada no dia 4 julho de 2009, na O2 Arena (mesmo lugar onde Michael Jackson faria a série de 50 shows da temporada This Is It), em Londres, a equipe de Madonna prestou uma homenagem ao Rei do Pop, morto no dia 25 de junho daquele ano, durante a música "Holiday". Para ambos os coreógrafos, foi o momento mais emocionante de toda a turnê. "Todos ficaram arrasados com a morte e incluir algo dele no show foi uma decisão geral", conta Rich. "Pensamos juntos e criamos a homenagem ao Michael, que emocionou a todos." Tone acrescenta: "Celebrar o trabalho desse cara em um show da Madonna foi histórico." Reveja a homenagem abaixo: