Making a Murderer versus O.J. Simpson: como se comparam a série da Netflix e o “julgamento do século” produzido pelo FX

Fama, justiça e o sucesso do gênero batizado de “True Crime” na televisão

SAM ADAMS Publicado em 07/02/2016, às 11h28

Making a Murderer e O.J. Simpson
Reprodução

“Os jurados acreditam na narrativa que tem sentido”, explica Johnnie Cochran (Courtney B. Vance) para o resto do “Dream Team” de advogados na produção do canal FX The People v. O.J. Simpson: American Crime Story , um dos capítulos da série antológica American Crime Story. "Nosso trabalho é contar uma história." Esse também é o trabalho dessa minissérie de dez episódios escrita por Scott Alexander e Larry Karaszewski e produzida por Ryan Murphy (Glee, American Horror Story), dentre outros. Mas a história narrada aqui não é se o adorado ex-jogador de futebol americano e ator iniciante assassinou cruelmente a ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e um ator/garçom de 25 anos chamado Ronald Goldman. Também não é sobre o departamento de polícia de Los Angeles – cujo racismo institucionalizado ficou exposto com o caso de perseguição e violência contra o taxista Rodney King – ter armado para Simpson. E nem mesmo a respeito de o possível motivo para o atleta ter sido exonerado ser a cor da pele dele.

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No fundo, The People v. O.J. Simpson (que estreou na última quinta, 4) é uma história a respeito da fama e como em um julgamento conduzido em prol de uma audiência nacional a justiça não só é impossível, mas também irrelevante. A primeira cena (depois de um preâmbulo que lembra o espancamento de Rodney King, o veredito de “inocente” e as manifestações que tomaram conta de Los Angeles durante os seis dias que se seguiram) explicita a sobreposição de estrelato e homicídio: o motorista da limusine que busca Simpson em frente à casa que em breve se tornaria a cena de um crime comemora: “É a primeira vez que eu conheço uma celebridade!”

Alexander e Karaszeswski são mais conhecidos por terem feito cinebiografias como Ed Wood (1994) e O Povo Contra Larry Flynt (1996), mas se há um protagonista aqui, ele não é O.J., mas sim “o povo”. Os roteiristas enquadram o julgamento de Simpson, da perseguição ao Ford Bronco dele até o veredito final, como uma história de origem para a era moderna, um ponto de mutação na forma como julgamentos passaram a ser vistos como um espetáculo público. Um produtor da NBC resume a questão quando dá a ordem para que seja interrompida a transmissão da final da NBA para mostrar Simpson fugindo em seu Bronco branco: "O O.J. é notícia, entretenimento e esporte”. Conforme o julgamento vai esquentando, o amigo Simpson Robert Kardashian (David Schwimmer) – sim, o hoje falecido patriarca daquele clã – leva os filhos para comer e o novo status de celebridade permite que ele e a família furem a fila. Dá até para ver os olhos da pequena Kim brilhando com a inspiração que ela tem nesse momento.

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Coincidentemente, The People v. O.J. Simpson chegou com outra série de dez horas sobre um veredito de assassinato questionável e que também ganhou a atenção do público: Making a Murderer. Steven Avery e seu sobrinho Brendan Dassey, que foram julgados pelo assassinato, em 2005, de Teresa Halbach, não tinham nada de celebridade, apesar de Avery ser bastante conhecido no Condado de Manitowoc, Wisconsin, como o homem que passou 18 preso antes de ser exonerado graças a uma prova nova. E mesmo que a mídia de âmbito nacional, nos Estados Unidos, tenha dado alguma atenção ao caso, ele nunca se tornou uma sensação, como foi o caso dos julgamentos de Casey Anthony e Jodi Arias.

O lado vencedor tem sido aquele que tem mais sucesso em julgar o caso no tribunal da opinião pública, jogando xadrez com a mídia enquanto seus oponentes jogam damas. Cochran decide logo de cara que a base de sua defesa será que a polícia racista aproveitou a oportunidade de acabar com um ícone afro-americano. Em Making a Murderer, o promotor Ken Kratz envenena os jurados com uma coletiva em que reconta sua teoria a respeito do crime como se ela fosse um fato, dando atenção especial a detalhes sombrios que pareciam tanto terem sido tirados da literatura pulp que, conforme descobriu-se, realmente tinham sido tirados de um livro pulp: O Beijo da Morte , de James Patterson.

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As duas séries dão ao público a oportunidade de saborear os detalhes de cada caso, mas de maneiras diferentes. Making a Murderer devota uma hora inteira à política da falsa confissão quando Dassey, adolescente tímido e com QI bem abaixo da media, é importunado até aceitar a versão da polícia que diz que ele é culpado; Simpson, também, é interrogado de forma descarada, sem o acompanhamento de um advogado. Mas esta cena dura um ou dois minutos, já que os detalhes da lei não são exatamente o que interessa para o The People v. O.J. Simpson. Os programas de TV conseguem empacotar os julgamentos em uma série que dura o suficiente para dar a sensação de que a história toda foi contada, mas ainda assim deixando muita coisa de fora. A diferença é que enquanto Murderer é acusado de ser tendencioso, People é cuidadoso em manter uma posição agnóstica, sendo que a visão a respeito da inocência ou culpa de Simpson muda de acordo com o foco de cada cena.

Os julgamentos têm resultados opostos, mas em ambos temos a sensação de que a justiça não foi feita. Quanto mais detalhes recebemos a respeito das maquinações que acontecem nos bastidores, menos parece importar se o acusado é culpado ou inocente. Mesmo que você concorde com a resolução, é difícil concordar que o sistema funcionou – na verdade, é mais como se a parte com mais dinheiro tenha vencido. A docu-série da Netflix é cheia de realidade e cria uma boa briga, enquanto a minissérie do FX é elegante e cheia de celebridades. Mas ambas são igualmente desesperadoras quanto à forma como o sistema judicial funciona e para quem ele funciona.