Padrinho para poucos

"A Alinne é uma atriz de extrema sensibilidade", afirma Manoel Carlos, autor de Viver a Vida e protetor informal da ex-modelo

Por Paulo Terron Publicado em 14/11/2009, às 13h28

O autor de novelas Manoel Carlos é um padrinho não declarado para a Alinne Moraes. Foi em novelas escritas por ele que a atriz conseguiu atingir - e ultrapassar - seus limites: em Mulheres Apaixonadas, ainda inexperiente, ela interpretou uma jovem lésbica e foi atirada ao estrelato. Agora, com a modelo Luciana de Viver a Vida, Alinne tem o desafio físico de levar à telinha as experiências de uma tetraplégica.

Em entrevista por e-mail (o escritor diz ter "horror a telefone"), Manoel Carlos falou sobre a carreira de Alinne Moraes.

Confira um trecho de nossa matéria de capa com Alinne Moraes e assista ao making of das fotos da atriz.

A Luciana de Viver a Vida é bastante agressiva e intensa. O que fez com que você pensasse na Alinne para o papel?

A Alinne é uma atriz de extrema sensibilidade. Apesar de tão nova, já teve oportunidade de viver papéis de grande intensidade dramática, saindo-se muito bem em todos eles. Ao lado das muitas qualidades como atriz, é uma excelente companheira de elenco, generosa e disciplinada.

Aliás, em Mulheres Apaixonadas a personagem da Alinne já tinha uma complexidade: o papel de lésbica, no horário mais nobre da TV brasileira, é um peso que nem todo ator conseguiria (ou gostaria de) encarar. Na época ela ainda era novata. O que foi que inspirou essa confiança nela para um papel que certamente seria amplamente discutido nacionalmente?

Intuição, talvez. Ela me pareceu adequada e preparada para o papel. Para mim, uma personagem complexa pede justamente uma atriz novata, desarmada, que não faça o papel mais complexo do que ele já é. Tudo na Alinne, à época de Mulheres Apaixonadas, conspirava a favor dela. E ela jogou-se na tarefa, sem preconceito. Esteve irrepreensível.

No caso de Mulheres Apaixonadas, a Alinne já disse que não sabia - pelo menos no início - que a personagem dela teria um romance com a da Paula Picarelli. Para Viver a Vida vocês conversaram antes sobre os possíveis desenvolvimentos da Luciana?

Eu realmente nunca falo aos atores sobre os diversos caminhos que eu tenho pela frente para os papéis que vão fazer. A rigor, nem sinopse eu entrego a eles. E quando entrego, são sinopses reduzidas aos traços essenciais do personagem. Para fazer Luciana, eu nem sequer estive com a Alinne antes de escalá-la. Só fui encontrá-la na primeira reunião de elenco, quando estive com todos. Meu elenco fica sabendo como será o papel, lendo os capítulos - e principalmente as rubricas. Gosto dessa surpresa que os atores e atrizes sentem quando lêem o capítulo.

O tão esperado beijo do casal gay de Mulheres Apaixonadas foi recebido com certa decepção, já que foi extremamente discreto (e dentro de uma peça de teatro). Olhando para trás, como você vê isso? Faria diferente hoje?

Achei que foi uma solução engenhosa, sutil e - fundamentalmente - bonita. Eram duas estudantes adolescentes, que ainda mantinham dúvidas sobre a própria sexualidade. Não eram lésbicas consumadas. Padeciam da vigilância dos pais, dos professores e dos colegas de escola. Fazendo daquela maneira, elas riam da sociedade e dos costumes conservadores. Enganavam com inteligência, criatividade e bom humor, os pais, os professores e todos os colegas.

No primeiro capítulo da novela atual a Luciana faz uma piadinha, dizendo que fazer novela é fácil - "é só chegar lá e decorar as falas". A Alinne é ex-modelo e, apesar desse preconceito estar quase extinto, durante certo tempo era comum associar essa passagem para a atuação como algo exclusivamente ligado à beleza, não ao talento. Partindo disso, como você vê a evolução da Alinne como atriz, de Mulheres Apaixonadas a Viver a Vida?

A evolução dela é visível em tudo que ela fez depois de Mulheres Apaixonadas. Cresceu porque estudou, aplicou-se. Agora, para fazer a Luciana, ela conviveu com uma tetraplégica durante muito tempo. Aprendeu com ela como comportar-se nas mais diversas situações. E, principalmente, como reagir a essa fatalidade. A moça que a ensinou a viver uma tetraplégica sofreu o acidente aos 18 anos e agora está com 36. Era uma jovem que sonhava ser modelo e viu esse sonho ser sabotado pelo destino. Tudo a ver com a Luciana.

Você acompanhou a performance da Alinne como protagonista em Como Uma Onda? Foi cedo demais para ela assumir a responsabilidade de "liderar" uma novela? Hoje ela está pronta?

Nunca assisti a um capítulo dessa novela, que no Google eu vejo agora ter sido exibida em 2004. Mulheres Apaixonadas é de um ano antes. Mesmo não tendo visto, acredito que ela tenha evoluído bastante, pois é da natureza de atrizes e atores de talento trilharem um caminho evolutivo.