Maria vai com os outros?

Após show na São Paulo Fashion Week, Maria Gadú, a cantora que teve cinco músicas emplacadas em atrações globais, fala com a Rolling Stone Brasil sobre o pulo ao mainstream

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 21/01/2010, às 18h57

"O pessoal já vai falando, 'ah, esta aí tá dando para alguém'", acha graça Maria Gadú, a sensação da MPB que meio mundo adora, e a outra metade gosta de avacalhar. O problema desses 50% que têm a pá virada para a moça loura das curtas madeixas arrepiadas, com um quê de Cássia Eller, é elementar: atualmente, Gadú é a mais potente usina de hits globais. De 2009 para cá, emplacou cinco músicas na arca de Noé fonográfica que é a Rede Globo - nas novelas Viver a Vida e Cama de Gato e nas minisséries Cinquentinha e Maysa. E, no meio indie, ninguém sai impune a uma repercussão dessas.

Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, após show no lounge da Seda, na São Paulo Fashion Week, na quarta, 20, Gadú deixa transparecer que o famigerado pulo ao mainstream não é exatamente seu assunto preferido. Não parece muito confortável ao proferir as próximas palavras: "Não teve estratégia, nunca planejei nada".

Mas a paulistana de 23 anos, que ri bastante para disfarçar a autoproclamada timidez ("não sou muito de falar, tenho vergonha"), dá um olé no próprio desconforto. "Aí já vão falando: 'ah, está aí ta dando para alguém".

Em 45 minutos de cantoria na SPFW, Gadú sacou 12 músicas já batidas de seu repertório. De sua autoria, estavam lá, por exemplo, seu grande hit, "Shimbalaiê", uma espécie de "Tchubaruba" para maiores de idade, e "Bela Flor". Alguns dos "empréstimos" foram "A História de Lily Braun" (Edu Lobo e Chico Buarque), "Trem das Onze" (Adorinan Barbosa) e "Ne Me Quitte Pas" (Jacques Brel).

"Se alguém canta 'vai tomar no cu', está querendo dizer algo com isso", ela continuou a respeito do que cada artista deseja passar com o seu setlist. No caso dela, não é fama de menina má, mas o cover de "Baba Baby", o monstro sagrado de Kelly Key, que ativa o falatório. A artista se joga na previsível discussão de peito aberto: "Kelly é tão música quanto Chico Buarque. Um sol [nota musical] é um sol, com Kelly ou com Chico".

Maria na moda

Gadú é, de certo, estilosa (estava com um tênis branco moderninho, calça cinza de pescador, camisa multicolorida e emaranhado de escapulários). Mas se complica na hora de explicar sua relação com a SPFW. "Moda e música têm tudo a ver, lance totalmente cultural. A partir do momento em que você entra no shopping, já está fazendo moda", arrisca esta "compradora compulsiva de tênis", que, por seu estilo, chegou a ser chamada de novo Chico Science na sempre cruel internet.

A cantora ainda tateia atrás de seu lugar na cena musical. Elogios já vieram de Caetano Veloso e Milton Nascimento. Há alguns dias, ela cantou "Alone" junto com Eagle-Eye Cherry no carioca Circo Voador, em show que vai virar o primeiro DVD do músico sueco-americano. Tem contato com pelo menos dois globais poderosos, Jayme Monjardim e Wolf Maya. Ela é amiga de Dado Dolabella e, durante o miniconcerto na SPFW, teve dois selinhos arrancados por Monique Evans, que fazia reportagem para a Rede TV!.

No camarim, são nove e meia da noite. Maria Gadú não pode circular pelo Pavilhão da Bienal, onde se concentra a maioria dos desfiles da semana de moda - "o contrato não deixa", explica seu empresário. Uma coisa é certa para essa baixinha do sorriso fácil, uma antiestrela que lotou o lounge onde tocava minutos antes de a top model nº 1 do mundo (segundo prestigiado ranking do Models.com), Raquel Zimmerman, entrar na passarela da Animale. Maria Gadú atravessa neste momento a frágil ponte que separa indie de popular. Sob seus pés, o abismo que engole tantas que tentaram, mas derraparam rumo ao ostracismo. Ela pode tentar completar a marcha. Há ainda a opção de dar marcha a ré e continuar com seus shimbalaiês para um público menor e supostamente mais cool.

Quando uma fã, na frente da fila, fica a ponto de desmaiar pelo simples fato de Gadú ter aceitado um gole de seu guaraná, parece claro o caminho que a cantora escolherá seguir.