Mark Arm deixa guitarra de lado

No Brasil, vocalista do Mudhoney não tocará o instrumento nas faixas do mais recente CD, The Lucky Ones; músico falou ao site da RS

Por Bruna Veloso Publicado em 09/10/2008, às 16h16

Mark Arm não economiza palavras para defender guitarristas de bandas punk, mostra-se contente em voltar ao Brasil e satisfeito com o oitavo disco da carreira do Mudhoney. Prestes a desembarcar no país para uma turnê que começa nesta sexta-feira, em Londrina, o vocalista conversou por telefone com a reportagem do site da Rolling Stone.

Acostumado a dividir as responsabilidades na guitarra com Steve Turner, Arm preferiu manter o foco nos vocais durante a gravação de The Lucky Ones. Depois de experimentar a sensação de liberdade ao largar o instrumento nos shows que fez com os remanescentes do MC5 (o grupo se apresentou em São Paulo em 2005), Arm foi incentivado pelos outros integrantes do Mudhoney a se desvencilhar das seis cordas.

"Normalmente, quando compomos nossas músicas, nós todos começamos a tocar um riff, fazemos uma jam, e eu fico mais centrado no que estou fazendo na guitarra do que nos vocais. Dessa vez, comecei a criar uma melodia vocal e muitas letras surgiram bem espontaneamente", conta.

Foi a primeira vez desde o surgimento do Mudhoney em que Mark optou por esse processo de composição. Nos sete shows (veja as datas ao final desta matéria) que fará no Brasil, ele não tocará guitarra em nenhuma faixa do novo disco, The Lucky Ones.

A cada final de frase, Mark faz uma longa pausa - quando parece estar pronto para a próxima pergunta, retoma o assunto anterior. Mas quando é questionado sobre o estigma que coloca em dúvida a habilidade de guitarristas de punk rock ou estilos musicalmente semelhantes (ele incluso), a resposta vem sem paradas. E com direito a analogia artística. "Steve Turner [do Mudhoney] é um dos meus guitarristas favoritos. Quando ele toca, para mim é mais como uma pintura expressionista abstrata, é tipo o [pintor] Jackson Pollock, em vez de alguém que faz um retrato bonitinho, entende?", exalta, citando ainda como seus favoritos Brian James, do The Damned, e Philo Cramer, que tocou guitarra no primeiro álbum do FEAR.

A evolução técnica veio aos poucos, desde os tempos de Superfuzz Bigmuff, EP de estréia da banda, e um dos primeiros lançamentos da Sub Pop, o "selo do grunge" (Bleach, do Nirvana, saiu pela SP). "Eu era definitivamente o elo fraco da banda (risos). Mas não sei se isso é muito importante. Às vezes, as melhores coisas vêm de pessoas que não sabem o jeito correto de tocar. As coisas mais interessantes vêm de gente assim". Superfuzz... ficou quase um ano na parada indie européia, e serviu como referência para muitas bandas que buscavam o Seattle sound.

Para quem começou há 20 anos, sendo conhecido por meio de troca de discos entre amigos, a internet é bem vinda: "No caso de uma banda que não é do tamanho do Metallica, o compartilhamento de arquivos é na verdade uma coisa boa. Não acho que as pessoas que pegam a nossa música de graça estejam nos roubando", acredita.

Ainda vivendo em Seattle, Mark segue a mesma opinião de boa parte da classe artística norte-americana. Torce para que Barack Obama seja eleito, mesmo acreditando que ele fará menos do que gostaria ao chegar ao comando. "Infelizmente, acho que a crise e a presença na guerra do Iraque têm esgotado o orçamento federal, e por isso Obama não vai poder implementar os programas sociais necessários. Mas espero que com o fim da guerra do Iraque um pouco desse dinheiro seja liberado".

Arm acredita, ainda, que a produção cultural em meio à descrença e a crises deveria ser mais intensa, como "o tropicalismo no Brasil, em uma época de luta, e a ótima música dos anos 1960, feita durante a guerra do Vietnã. Fico meio surpreso que nos últimos oito anos um monte de bandas não tenha tomado partido. Mas os jovens não estão nas ruas, porque não existe nenhuma ameaça, como eles serem forçados a ir para a guerra, por exemplo. As pessoas não estão sentindo a luta", teoriza.

Volta ao Brasil

Entre uma passagem e outra por aqui, o músico conseguiu ir além do trajeto aeroporto-hotel-casa de shows. Na primeira estadia, em 2001, o Mudhoney conheceu o carnaval brasileiro, com direito a festas tradicionais em Olinda, Recife, e comemorações em São Paulo. Depois da turnê do grupo com o Pearl Jam ("foi ótimo tocar nesses shows enormes em que a platéia realmente parecia interessada na banda de abertura"), Mark ainda aproveitou para tirar férias com a mulher em Itacaré, na Bahia. Veio surfar - mas só por diversão. "Não surfo com muita freqüência, nem muito bem, mas gosto de tentar", ri.

Diferentemente de artistas que nem mesmo sabem onde vão tocar no dia seguinte, conhece bem sua agenda - lembra de cada cidade em que vai se apresentar e das que visitou nas turnês anteriores. Desta vez, tocará em dois locais "inéditos": Londrina e Salvador. Suas experiências no Nordeste o fazem sentir-se "ansioso" pela apresentação na capital baiana.

Mudhoney no Brasil

Londrina (PR)

Sexta-feira, 10/10 - Festival Demo Sul

Rio de Janeiro

Sábado, 11/10 - Circo Voador

São Carlos (SP)

Domingo, 12/10 - Festival Contato

Salvador (BA)

Quarta-feira, 15/10 - Boombahia Music Fest

São Paulo

Quinta, 16, e sexta, 17/10 - Clash Club

Goiânia

Sábado, 18/10 - Centro Cultural Martim Cererê