Misfits e D.R.I. foram os destaques da primeira noite do Abril Pro Rock

Fusão de metal, hardcore e punk fez a noite dos recifenses na última sexta, 15

Por Stella Rodrigues, de Recife Publicado em 19/04/2011, às 18h41

O Misfits, a banda que fechou a primeira noite do Abril Pro Rock

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Este ano, o Abril Pro Rock, um dos festivais mais aclamados do Brasil, chega aos 19 anos. Realizado na calorenta cidade de Recife, o evento vem desde 1993 ajudando a lançar artistas brasileiros que se tornaram grandes representantes da música nacional - coloque nessa conta Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, entre muitos outros. A atual edição do evento conta com shows de artistas independentes, bandas de metal e ícones da música internacional, como o Misfits, considerado o fundador do horror punk, e o Skatalites, tido como o "pai do ska".

Na última sexta, 15, o Abril Pro Rock teve como lar o Chevrolet Hall, no Complexo de Salgadinho, em Olinda. Na barulhenta ocasião, a partir das 21h30, aconteceu a já tradicional noite do metal, que este ano contou com as atrações Cangaço, Facada, Desalma, Musica Diablo (projeto que conta com Derrick Green, do Sepultura, nos vocais), o já citado Misfits, entre outros. Segundo a organização do festival, 5 mil pessoas passaram pelo Chevrolet Hall que, contudo, aparentou estar longe de sua capacidade máxima. Leia abaixo como foram esses e os demais shows realizados na noite que inaugurou oficialmente o festival em 2011 com muitos urros guturais, guitarras escandalosas e em ritmo acelerado, passeando entre metal, punk e hardcore. Ao fim da matéria, assista aos vídeos de entrevistas com o Musica Diablo, Misfits e D.R.I. Para mais entrevistas e imagens de trechos dos shows do Abril Pro Rock, clique aqui.

Cangaço (PE)

A banda pernambucana de metal Cangaço foi a escolhida para dar o pontapé inicial na edição de 2011 do Abril Pro Rock. A seleção foi bastante apropriada, visto que o grupo é conhecido por equilibrar bem as doses de música regional, que consagrou o Abril Pro Rock, e metal, o tema da ocasião. A atração ajudou a esquentar o público que já estava a postos - ele era escasso, mas estava no clima e ensaiando versões mais tímidas das populares rodinhas, que se fariam bastante presentes mais tarde. O repertório contou com "Positivo", "Sete Orelhas" e "Devices of Astral" dentre as seis canções que couberam na meia hora de performance.

Facada (CE)

O metal continuou sonorizando a pesada noite com o Facada, trio de Fortaleza que mistura o gênero ao grindcore, fazendo um som direto, cru e, como era de se esperar, bem pesado. O show deles realmente foi uma facada nos ouvidos presentes. Com temas apocalípticos permeando as músicas e o discurso do vocalista James (que fala constantemente em "o início do fim"), parecia mesmo que tinham fãs aproveitando aquele momento como se fosse o derradeiro. James provou que está em dia com o médico, com ótimos pulmões e nenhum medo de perder a voz. Entre gritos e uma cantoria durante a qual é impossível compreender mais do que duas palavras por música, o Facada fez começar a abrir o grande clarão que se formou na segunda camada da plateia: o gargarejo se deliciava com o som de maneira mais comportada em umas cinco fileiras iniciais; logo atrás, a roda cada vez maior de roqueiros com disposição para ganhar um belo tom arroxeado em diversos lugares da pele aproveitava a apresentação de forma mais intensa. Posteriormente, uma porção mais sossegada de batedores de cabelo curtia o som até ficar de pescoço mole, mas não participava da turma do hematoma do dia seguinte. O repertório do Facada se focou no lançamento mais recente, O Joio (2010), contando com a faixa que dá nome ao álbum, além de "Podem Vir", "Tu Vai Cair" e outras. A curta duração de cada música garantiu que, apesar de ter apenas 30 minutos para mostrar a que veio, o Facada pudesse apresentar duas dezenas de faixas para o público que já era cativo e para os que estavam conhecendo ali o som dos cearenses.

Desalma (PE)

Desalma, um ícone da geração que atualmente frequenta shows de death e thrash metal em Recife, era um dos grupos mais aguardados. A banda veterana de festivais da região subiu ao palco às 22h10, quando a massa de camisetas pretas - grande parte delas estampando o nome do D.R.I. e do Misfits, atrações internacionais da noite - ficou um pouco mais encorpada. O repertório contou com duas músicas novas, ainda sem título, que empolgaram muito o público. A grande vantagem de um show de metal é que são raríssimos os momentos em que a catarse do público se dá cantando, fazendo coro no refrão. A atitude mais voltada para a idolatria da porrada nos tímpanos garante que uma música com guitarras de qualidade e levada rápida seja garantia de que o público vibrará, mesmo que nunca tenha ouvido aquela melodia ou letra antes. Além das inéditas, "Mais um Templo", "Fragmentos" e outras fizeram parte do setlist, encerrado com "Corpo Seco".

Violator (DF)

O esquadrão de cabeludos do Violator foi uma das bandas que mais mostrou energia no palco. Eles não apenas tocaram/cantaram seu thrash nervoso, mas bateram mais cabelo do que qualquer fã ali, pulando e girando para lá e para cá, em um balé de cabeleiras bem tratadas. Logo no início, o vocalista e baixista Poney, cheio de presença de palco, deu o tom da performance. Explicando que, apesar do palco alto e de eles estarem em um outro patamar, fisicamente, em um show deles "não tem essa de herói, ídolo, fã, Deus, não tem porra nenhuma, aqui é tudo uma coisa só, não tem divisão, somos todos do mesmo underground". Entre as 22h45 e 23h25, o grupo oriundo de Brasília cantou uma dezena de músicas, entre elas "Futurephobia", "Atomic Nightmare", "The Plague Never Dies", que encerrou a performance, "UxFxTx" e "Ordered to Thrash", que iniciou os trabalhos.

Torture Squad (SP)

Primeiros representantes paulistas do heavy metal, na ocasião, o Torture Squad, fez um show de acordo com os nomes de algumas de suas canções, como "Pandemonium". A atitude do vocalista Vitor Rodrigues parece ser voltada para gerar pequenos incêndios, com sua música fazendo as vezes de fósforo. O frontman mais boca suja da noite empolgou com suas ordens de "vamos bater cabeça" e gritos de "viva o rock!", comandando o clima de baderna organizada em volta da música. Assim que desceu o pano de fundo do palco com o nome da banda (a única decoração em todos os shows era uma tela com o nome e uma imagem da banda - símbolo, capa de CD, etc), o público recifense se mostrou mais do que ansioso para ver como seria a performance. Não se decepcionaram. Em 45 minutos de apresentação (das 23h30 à 0h15), "Horror And Torture", a anteriormente citada "Pandemonium", as mais novas "Storms" e "Raise Your Horns" (do disco mais recente do grupo, Aequilibrium) e "Chaos Corporation" fizeram a alegria da plateia.

Musica Diablo (SP)

Musica Diablo, banda que conta com Derrick Green, vocalista do Sepultura, e integrantes do Nitrominds e Threat em sua formação, foi a última atração nacional da noite. O grupo, formado em 2008 a partir de jam sessions durante as quais eles se debruçavam sobre covers, apresentou um thrash metal de primeira que empolgou o público na capital pernambucana. Quando as luzes avermelhadas, dando o tom diabólico, foram acesas no palco, o público soube na hora que havia chegado a vez de Derrick e companhia - e vibrou. O jeito como o vocalista se porta no palco é aquele já conhecido de cor pelos seguidores do metal. Com um gingado todo particular na hora de cantar e simpatia infinita, Derrick parou entre várias faixas para um verdadeiro bate-papo com os ocupantes das primeiras filas. Donos de um único álbum, que saiu ano passado e foi batizado com o nome da banda, puderam tocar o trabalho na íntegra, durante os 45 minutos de show que a organização do festival separou para eles. Variando a ordem das faixas, em relação ao CD, o Musica Diablo levantou mais o público com "Sweet Revenge", que ficou encarregada da abertura, "Live to Buy", "Work Out" e "In The Name Of Greed". Derrick Green e o guitarrista André NM deram entrevista ao site da Rolling Stone Brasil para contar do papel deste projeto paralelo em suas carreiras, de novos materiais e de seus respectivos históricos com o Abril Pro Rock. Para ver os vídeos, clique aqui.

D.R.I. (EUA)

Uma das atrações mais aguardadas da noite eram os imbecis sujos e podres do D.R.I. (a sigla que compõe o nome da banda quer dizer isso, em português; ou, em inglês, eles são o Dirty Rotten Imbeciles). Com seu "crossover thrash", misturando thrash metal, punk e hardcore, o grupo estava em casa, resumindo e aglutinando os estilos que fizeram a noite dos recifenses. O show dos texanos foi um dos mais trabalhosos para os seguranças, que tentavam dominar os fãs ávidos para invadir o palco, de onde eram devolvidos à plateia em mosh. Foi curioso notar que, em certo momento, parecia haver uma quantidade menor de pessoas com as mãos erguidas, em relação àquelas com os pés esticados para cima, balançando as pernas para o alto - estes estavam sendo jogados de um lado para outro, como é tradição em festivais desse gênero, e devem ter passado mais tempo de cabeça para baixo do que olhando para o palco, de fato. Se tinha mais gente sendo jogada do que gente segurando a queda, essa é uma matemática de favorece a gravidade, certo? Claro que um ou outro foi ao chão, teve até um rapaz menos sortudo que perdeu os shorts ao ser transportado pelas mãos pouco precisas dos companheiros de show. Mas nada que fugisse do clima festivo de celebração do metal. Mais uma das bandas de canções com curta duração, o D.R.I. também fez o tempo render. Em cerca de uma hora, mostrou mais de 20 das músicas de seus quase 30 anos de carreira. Algumas delas foram "Acid Rain" (de Full Speed Ahead), "Thrashard" (de Thrash Zone ), "Slumlord" (de 4 of a Kind), "Commuter Man" e "I Don't Need Society", esta introduzida por um discurso anarquista inflamado. Aliás, curiosamente, as falas do vocalista Kurt Brecht variaram do politizado nervoso ao manjado "aqui tem as mulheres mais bonitas que já vi. Vocês, caras, têm muita sorte". Brecht, logo após o show e ainda com dificuldade de ouvir, depois de tanta barulheira, concedeu entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, falando sobre o já folclórico novo álbum do grupo, prometido há tempos, entre outros assuntos. Para ver os vídeos, clique aqui.

The Misftis (EUA)

Dos "imbecis" aos "desajustados". A grande atração da primeira data do Abril pro Rock, que subiu ao palco aproximadamente às 2h, para fechar a noite, foi o Misfits - ou pelo menos uma de suas muitas formações. Conhecidos por criar o gênero "horror punk", misturando filmes de terror e ficção científica com música pesada, o Misfits, que atualmente conta apenas com um membro original, Jerry Only, trouxe toda sua história para o Abril Pro Rock. Ainda valendo-se de maquiagem pesada e muito couro preto, contrastando com as feições multicoloridas, fizeram o show sem qualquer planejamento de setlist, usando a fórmula da performance que realizam há anos e parando entre uma canção e outra para combinar o próximo passo. "Hollywood Babylon", "American Psycho", "Dig Up Her Bones", "Saturday Night" e "Die, Die My Darling" foram algumas das faixas presentes ao longo da apresentação. Se houve algo que incomodou os fãs, não foi por culpa da banda. O som do Chevrolet Hall, que até então estava bastante claro, passou a soar meio embolado, de forma de os instrumentos e a voz de Only terminaram por se misturar em uma só sopa sonora. Em entrevista ao site da Rolling Stone Brasil, os músicos do Misfits falaram sobre música, maquiagem, filmes de terror, claro, da iniciativa de financiamento coletivo do MobSocial, que os leva ao Rio de Janeiro no próximo domingo, 17, e do novo disco, intitulado The Devil's Rain. Para ver os vídeos, clique aqui.