Monkey Jhayam feat. Afrocidade: uma conversa sociopolítica entre São Paulo e Bahia

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Monkey Jhayam e MC DO conversaram sobre a trajetória deles na música e a consciência por meio da arte

Redação Publicado em 27/11/2020, às 15h09

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Cena do clipe "2020 Volts" (Foto: Divulgação)

No início do mês de novembro, Monkey Jhayam se uniu ao Afrocidade e ao DJ B8 para lançar o feat “2020 Volts”. Com críticas às fakes news, à manipulação de dados e ao fluxo de rede coletado por empresas mal intencionadas, a canção mistura o pagode baiano com ghettotech, rock e global bass de forma brilhante e envolvente. 

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, MC DO, vocalista do Afrocidade, conversou Monkey Jhayam sobre a resistência cultural por meio de diversos gêneros musicais, a descentralização da Virada Cultural em São Paulo e a conexão com o grupo baiano. 

Monkey Jhayam entrevistou com MC DO sobre as origens e iniciativas do Afrocidade, além de perguntar sobre o surgimento do axé music. Vem ver essa conversa:

MC DO entrevista Monkey Jhayam

Você já fez parte do movimento punk e hoje em dia é ativo no sound system, certo? Quais são as similaridades entre esses dois movimentos e qual importância deles para construção sociocultural nas periferias?

Sim, em 2003 trabalhei como voluntário na Cobain-Abc (Cooperativa de bandas independentes) que ficava no Sônia Maria - Mauá. Foi lá que tive meu primeiro contato com ativismo cultural, produção de eventos, agendamento de shows e oficinas culturais. Tudo na autogestão, sem fins lucrativos. Através da iniciativa da cooperativa, a comunidade local também teve acesso à aulas de inglês e espanhol, de bateria, guitarra, baixo, violão. A verba usada para bancar tudo isso vinha dos shows e atividades que organizávamos.

Já passaram Ratos de Porão, Cólera, Devotos do Ódio, Inocentes. E em um desses eventos, lembro que foi um 12 de outubro, dia das crianças, organizamos um show da banda de reggae Mato seco onde o ingresso era um brinquedo. Nesse dia eu lembro que eles tocaram um cover de um clássico chamado "Punk Reggae Party", que já era um reflexo da vivência de Bob Marley quando chegou em Londres e se deparou com o movimento punk na Inglaterra. 

Vale destacar aqui a lenda Don Letts que foi a peça primordial de conexão entre os dois movimentos rebeldes no Reino Unido. Ele tocava reggae nas festas de punk, punk nas festas de reggae e está até hoje na ativa como radialista da BBC, em Londres. A semelhança entre os dois movimentos, no meu ver, é a contestação, a autogestão, o "do it yourself", a vontade de fazer as coisas acontecerem mesmo sem apoio público ou financeiro. Essa parada de montar as caixas no gueto e levar o som ‘pra’ todos sem preconceito. Unir as pessoas que pensam da mesma forma para que elas possam juntas mudar vidas para melhor é uma atitude punk. A importância de ambos na periferia é trazer essa consciência sociopolítica de sempre lutar por uma vida justa e mais igualitária para todos.

O que você achou dessa "descentralização" na última virada cultural de São Paulo? Foi benéfico? Facilitou de alguma forma o acesso para as pessoas das periferias?

A Virada cultural sempre foi um evento que reuniu muitas pessoas no centro da cidade. Eu mesmo estava presente em várias edições, inclusive naquela edição da confusão na praça da Sé, que os policiais começaram durante o show do Racionais, foi uma loucura. Bala de borracha ‘pra’ todo lado, correria, o centro virou um caos. Essa ideia de descentralizar e dividir os eventos pela cidade foi uma tentativa de evitar esses conflitos e superlotações na região central, mas só dificultou mais o acesso, não achei tão benéfico assim não. Antes um metrô até o centro e você já estava ali perto de tudo. Na última[edição, já não houve essa facilidade na locomoção. Você tinha que escolher qual show assistir, levando em conta que não daria tempo de chegar a tempo de ver o outro [shows], como acontecia quando era tudo no centro.

O que você acha dessa conexão com Afrocidade?

Me sinto muito agradecido e agraciado por essa oportunidade, desde 2018 eu acompanho os shows, sempre que tem "Afrocity" em São Paulo, eu vou prestigiar. Os amigos mais próximos sabem muito bem o quanto o som deles batem em casa. Me identifico muito com as letras e ideias do grupo porque é algo muito próximo da minha vivência. Apesar da distância geográfica, somos elo de uma única corrente, a corrente que liberta. A juventude de São Mateus, Zona leste de São Paulo assim como a Juventude de Camaçari, Bahia, clama por mudança, justiça, reparação. É o momento do levante do nosso povo, da ressignificação da nossa história. Eu sinto essa força quando escuto o som do Afrocidade, e é essa mesma força e coragem que quero passar para as pessoas que escutam a música que eu faço. 

Monkey Jhayam entrevista MC DO

O Afrocidade é fruto de algum projeto sociocultural ou algo semelhante? Qual?

O Afrocidade surge do encontro de percussionistas, encabeçado pelo maestro Eric Mazzone, diretor musical. Os integrantes tinham vivências de periferia com a música preta: samba de roda, soul, reggae, e a gente fez esse encontro, esse processo de ressignificação musical. Eu vim do movimento hip hop, de um coletivo chamado Representa CLAN que possuia b-boys, skatistas, MCs. A gente movimentava um projeto itinerante chamado "Hip hop nos bairros". Quando o coletivo acabou eu me encontrei com o Eric Mazzone e os demais integrantes da banda e pude contribuir com a minha linguagem mais afro urbana ao Afrocidade. Estamos nesse processo de criação coletiva para unificar essa potência, que é o Afrocidade.

O Afrobaile é uma iniciativa do Afrocidade certo? Fale um pouco sobre.

O Afrobaile é uma iniciativa da banda Afrocidade, de aquilombamento e de resgate ancestral para a comunidade de Camaçari, Bahia. Até porque Camaçari é uma cidade industrial, elitista e de extrema direita que não proporciona uma economia aos artistas da cidade. Não existe um mercado cultural independente que gera empreendimento através da arte. A cidade movimenta cerca de 200 milhões de reais por mês em orçamento participativo só no lado da cultura e a gente ainda convive com essa desigualdade, fruto desse desenvolvimento industrial. Por isso, muitos jovens vão para o crime, para a violência, e não conhecem sua história de mestres, seu lado ancestral. Dentro da região metropolitana de Salvador, a cidade de Camaçari tem o maior número de quilombos rurais e as culturas de matriz africanas são efervescentes. Essa juventude não consegue alcançar essa história pelo processo de apagamento que acontece. Esse resgate histórico presente nas letras do Afrocidade acontece no Afrobaile onde a gente se aquilomba e celebra nossa ancestralidade, fala de empoderamento. Ali, todo mundo se vê da mesma forma, reafirmando a potência das nossas raízes africanas. É nosso quilombo, nosso lugar de resistência.

O que você acha sobre o axé music e o que as pessoas vêm classificando hoje em dia como "Nova música Baiana"? Pode deixar sua visão sobre?

O Axé Music, pra mim, foi um movimento de apropriação cultural muito grande da verdadeira música afro baiana. Em todo o mundo, a indústria se apropriou da estética da música preta. E aqui não foi diferente: o axé music aqui na Bahia surge através do movimento da elite, de gravadoras e famílias que monopolizavam esse sistema. E é aí que vem o processo apropriação: desde a música do recôncavo baiano às músicas que já existiam nos guetos de Salvador.

Um reflexo disso são os blocos afro, de resistência, com seus grandes mestres e matriarcas e que são apagados até hoje. Mas acredito eu que hoje estamos vivendo uma nova era da comunicação, onde - através de documentários - é possível ter acesso a esse processo que o axé music causou na verdadeira música afro baiana.

O axé music também foi fundamental para o processo de violência e de exclusão social no nosso carnaval. Os carnavais que já existiam nos seus guetos, os blocos afro sempre existiram. E a elite da música baiana começa um processo de segregação com camarotes, blocos fechados, corda, trio elétrico. As periferias que movimentavam seus circuitos passam a deixar de receber renda de editais e cachês. Começa a surgir um monopólio econômico da indústria. A maior parte da população afetada é a preta e de periferia. Quando a gente começa a sair dos nossos quilombos e vai para uma área da elite, sofremos repressão policial e a segregação só aumenta a revolta.

Neste esquema, toda a história da África começa a se apagar. Os blocos afro falavam das histórias de Madagascar, Egito e demais povos do continente africano, que era algo que nos ensinava muito mais que a aula de história nas escolas. O axé music coloca tudo isso em apagamento. Sobre a "nova música baiana"... o que é o novo? A mídia coloca a gente numa armadilha de acreditar que o que está existindo hoje é o novo. Para que a gente caia em outra armadilha: a de não reverenciar quem veio antes, nossos mestres e referências. Tudo que o Afrocidade e outros artistas afro baianos fazem hoje é continuidade ao que grande mestres e matriarcas dos blocos afro contaram pra gente. O verdadeiro griot.

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