Morte de Whitney Houston completa um ano

Em 1993, enquanto colhia os frutos do sucesso estrondoso do filme O Guarda-Costas, Whitney Houston se esforçava para ser aceita pela crítica – e buscava fugir dos holofotes se dedicando à família

Anthony DeCurtis Publicado em 11/02/2013, às 07h51

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Nesta segunda, 11, a morte trágica de Whitney Houston completa 1 ano. Relembre a cantora com o texto abaixo, que foi publicado na edição 66 da Rolling Stone Brasil. Trata-se de um Arquivo RS, originalmente de 1993.

Você espera que ela entre na sala flutuando delicadamente, mas Whitney Houston caminha com um ar decidido. Usa calça justa roxa e uma camisa de flanela estampada e, embora seu sorriso seja acolhedor, seu aperto de mão é firme, como o de um executivo. Ela não está aqui para brincadeira.

Desde que Whitney surgiu na cena musical aos 21 anos, em 1985, tem sido fácil para ela vender discos – e mais difícil conseguir respeito. Seus álbuns – Whitney Houston (1985), Whitney (1987), I’m Your Baby Tonight (1990) e a trilha Sonora do filme O Guarda-Costas, para a qual colaborou com seis músicas – venderam 26 milhões de cópias só nos Estados Unidos. Ela teve dez singles no número 1 das paradas e, por um momento este ano, chegou perto de ter três músicas – “I Will Always Love You”, “I’m Every Woman” e “I Have Nothing”, todas de O Guarda-Costas – simultaneamente no Top 10. Seu papel como a cantora Rachel Marron em O Guarda-Costas, que até o momento rendeu US$ 390 milhões no mundo todo, garante que ela terá uma carreira no cinema se assim desejar.

Só que as críticas sempre seguiram os sucessos comerciais de Whitney Houston. Filha de Cissy Houston, do Sweet Inspirations (que cantou com Aretha Franklin e Elvis Presley), e prima da grande Dionne Warwick, Whitney, agora com 29 anos, foi caracterizada como não tendo a profundidade soul da mãe nem a sensibilidade musical da prima. O mundo do cinema não ofereceu alívio. O Guarda-Costas foi detonado pela crítica e a estreia dela como atriz não foi poupada.

No âmbito pessoal, Whitney nega há anos boatos de um relacionamento lésbico com sua amiga de longa data Robyn Crawford, bem como especulações sobre seu casamento, em 1992, com o cantor Bobby Brown, que, embora cinco anos mais novo do que ela, tem três filhos com duas outras mulheres. Nem o nascimento da filha deles, Bobbi Kristina, em março, desacelerou o ritmo dos boatos.

Whitney e eu nos encontramos no andar térreo de sua mansão, no interior de Nova Jersey. Placas de ouro e platina cobrem uma parede de um porão roxo e preto, que tem vista para as matas ainda cobertas pela neve apesar do dia quente. Enquanto a gata Marilyn zanzava pela sala, a cantora falava animadamente e com uma força pessoal considerável – olhando bem nos meus olhos, gesticulando com as mãos, balançando as pernas do lado da cadeira em momentos mais relaxados. De certo modo, parece mais uma garota caseira do que uma diva.

Enquanto nós conversamos, a “tia” Bae – o título é honorário; é uma amiga de longa data da família de Whitney – cuidava de Bobbi, que acabou dormindo em um carrinho de bebê enquanto o game show Roda da Fortuna passava em uma TV gigante na igualmente gigante sala de estar do andar de cima. Tia Bae também preparou um prato de salada de frango para Whitney e eu comermos durante nossa conversa. Depois, quando notou que não tínhamos comido tudo, Bae montou uma quentinha para este repórter solteiro aqui, colocando-a em uma sacola azul e rosa que tinha guardado no armário da cozinha.


No caminho de volta para Nova York, o motorista passeava pelas rádios, e músicas de Whitney Houston tocaram três vezes em menos de 90 minutos. Sua voz está em todo lugar. No entanto, há uma mulher real de carne e osso por trás da voz, e em nossa entrevista ela parecia determinada a fazer essa mulher ser ouvida – em alto e bom som.

Você sempre quis ser cantora?

Não, queria ser professora. Amo crianças, então queria lidar com elas. Depois, quis ser veterinária, mas aos 10 ou 11 anos, quando abri a boca e disse: “Meu Deus, o que é isto?”, meio que soube que o ensino e a veterinária teriam de esperar. O que está em sua alma está em sua alma.

Você teve um modelo específico como cantora?

Minha mãe foi a primeira cantora com quem tive contato. Cantava constantemente para nós pela casa, na igreja. Eu a assistia e o sentimento... minha mãe sempre me dizia: “Se você não sente, não mexa com isso, porque é perda de tempo”. Quando eu a via cantar, o que normalmente era na igreja, aquele sentimento, aquela alma, aquela coisa – é como eletricidade percorrendo seu corpo. Se você já foi a uma igreja batista ou pentecostal, quando o Espírito Santo começa a descer e as pessoas começam a realmente sentir o que estão fazendo, é... é incrível. Era isso o que eu queria. Quando vi Aretha cantar, a forma como cantava e como fechava os olhos, aquela coisa fascinante simplesmente saía. As pessoas faziam... ooooh, aquilo podia te paralisar na hora. Então, minha mãe foi meu primeiro exemplo, para o qual olhei e falei: “Uau, essa voz”. E sou filha dela, então soo como minha mãe quando ela tinha minha idade, embora eu realmente ache que ela tem uma voz melhor do que a minha, porque é a professora, sou a aluna [risos]. Tem o alcance maior, o poder maior do que o meu.

Quando você decidiu iniciar sua carreira de cantora, como fez?

Fazia exibições e convidava executivos de gravadoras. As pessoas estavam interessadas em mim desde os 15 anos – era meio como se só estivessem me esperando crescer. Todos fizeram suas apostas. Então, sentei com meus empresários e meus pais, e me lembro de uma reunião longa e detalhada. “O que você vai fazer? Com quem vai trabalhar?” Lembro que interrompi a reunião e falei: “Tenho de dar um tempo”. Fui para outra sala, sentei em uma cadeira e minha mãe veio atrás de mim e falou: “Sabe, isto é muito difícil, mas vou te dizer a verdade: você deve ir para onde vai tirar o máximo proveito disso”. Ou seja, digamos que uma gravadora ofereça um contrato e fale: “Whitney, você pode escolher as músicas, produzi-las, fazer o que quiser com elas”. O contrário da [gravadora] Arista, com Clive Davis dizendo: “Daremos esta quantia, vamos nos sentar e, quanto às músicas que você quiser, vou te ajudar. Direi: ‘Whitney, esta música tem potencial. Esta, não’”. Minha mãe estava me dizendo: “Você tem 18 anos. Precisa de orientação”. Clive foi a pessoa que me orientou.

Você ficava incomodada por muitas pessoas verem Clive como um “Svengali” por trás do início de sua carreira?

Às vezes sim, quando os críticos diziam que Clive me dizia o que fazer e como fazer, porque isso é uma besteira. Não gosto quando me veem como essa pessoinha que não sabe o que fazer consigo mesma – como se eu não tivesse ideia do que quero, como se fosse uma marionete e Clive puxasse as cordas. É bobagem. Isso me diminui, porque não é assim, nunca foi nem será. Eu não estaria com alguém que não respeitasse minha opinião. Ninguém me faz fazer o que não quero. Não dá para me fazer cantar algo que não quero. Não é o que faz eu e Clive nos entendermos tão bem, porque se fosse, eu teria saído da Arista há muito tempo. Clive e eu trabalhamos bem juntos. Basicamente gostamos das mesmas coisas, o que, graças a Deus, permitiu que nos déssemos bem todos estes anos. Às vezes um irrita o outro, mas estamos juntos há dez anos. Qualquer um pode irritar o outro depois de tanto tempo.

Você ficou surpresa por seu primeiro disco ter feito tanto sucesso?

Sabe, chega ao ponto no qual, nos primeiros milhões, você diz: “Ai, obrigada, Jesus!” [risos] Quer dizer, vamos falar a verdade, você grava um disco, quer que as pessoas o comprem – ponto final. Qualquer um que lhe disser: “Estou gravando um disco porque quero ser criativo” é um tremendo mentiroso. Ele quer vender discos. À medida que foi indo – e demorou –, assumi uma atitude muito humilde. Não ia falar: “Ei, vendi 13 milhões de discos – dá uma conferida”. Minha mãe sempre me disse: “Antes da queda, caminhe com orgulho”. Ainda sou assim. Com “I Will Always Love You”, eu não tinha a menor ideia. Sabia que a música era incrível. Sabia que a tinha cantado tremendamente bem. Mas não tinha ideia de que o álbum venderia tanto tão rápido.


Em uma semana ele vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos.

Caramba, foi: “O que está acontecendo?” Realmente acho que as pessoas estavam famintas por algo que simplesmente tivesse uma melodia e letra boa. Falei com Dolly Parton pelo telefone há pouco tempo. Ela me disse [imita o sotaque de Parton]: “Whitney, só quero te falar uma coisa. Estou tão honrada que você gravou minha música. Não sei o que te dizer, garota”. Respondi: “Bom, Dolly, você escreveu uma música linda”. E ela falou: “É, mas nunca fiz muito sucesso com ela. Você fez porque colocou todas aquelas coisas nela”.

Você arrasou.

Acho a Dolly Parton uma tremenda compositora e uma cantora incrível. Fiquei tão preocupada quando cantei sua música, sobre como ela se sentiria, em termos de arranjo, minha inflexão, meu sabor. Quando ela disse que ficou boquiaberta, significou muito para mim.

Como seu imenso sucesso mudou sua vida?

É muito estranho. Michael Jackson disse muito bem: você se torna uma personalidade em vez de uma pessoa. Isso é que é estranho nessa coisa de imagem – quanto mais popular você fica, mais esquisito querem te tornar. Li algumas coisas sobre mim no ano passado. É como: “De quem diabos estão falando?” Quer dizer, falam sobre meu marido... nem conhecem ele. Não têm ideia de quem é. Não sabem como somos quando estamos nesta casa.Só que a mídia sempre distorce as coisas. Nunca, nunca é o que digo; nunca é como digo; nunca é como achei que a pessoa me percebeu. É sempre alguma outra loucura – e é por isso que não gosto de dar entrevistas. Porque mentem. Mentem na caradura.

Você está se referindo aos boatos de que tinha um relacionamento com Robyn Crawford?

Sabe de uma coisa? Estou muito cansada disso. Estou cheia disso. As pessoas querem saber se há um relacionamento: nossa relação é de amizade. Somos amigas desde crianças. Agora ela é minha funcionária. Sou a patroa dela. É isso. Você quer me dizer que, se tenho uma amiga, tenho uma relação lésbica com ela? É besteira. Há tantas, tantas artistas que confidenciam com outras mulheres e ninguém questiona isso. Então, percebo que é algo do tipo: “Whitney Houston – ela é famosa, vamos acabar com ela”. Neguei isso várias vezes e ninguém aceitou. Pelo menos a mídia não. As pessoas sabem que sou uma mulher casada. Que tipo de pessoa sou – ser casada e ter outra vida? Em primeiro lugar, meu marido não aceitaria – vamos deixar isso bem claro, ok? Ele é muito machão e não vai aceitar, ok? Só que estou muito cansada dessa pergunta e estou cansada de respondê-la.

Então, como você e Bobby se conheceram?

Bobby e eu nos conhecemos na premiação do Soul Train>. Ele estava lançando “Don’t Be Cruel” – era quente, estava pegando fogo. Eu e umas amigas nos sentamos atrás dele. Eu as abraçava, nós ríamos, e ficávamos batendo na cabeça do Bobby. A Robyn disse: “Whitney, se você continuar batendo no Bobby ele vai ficar bravo com você”. Cheguei perto e falei: “Bobby, sinto muito”. E ele se virou, olhou para mim, como se dissesse “Bem, só não deixe isso acontecer de novo”, e pensei: “Uuuuuuui, esse cara não gosta de mim”. Bom, sempre fico curiosa quando alguém não gosta de mim. Quero saber o porquê. Então falei: “Vou convidar o Bobby para uma festa”. Foi o que fiz. E ele me ligou dizendo: “Adoraria ir”, o que foi uma surpresa. Foi o primeiro homem que conheci na indústria com quem podia conversar e ser verdadeira. Ele era tão tranquilo e tão simples que pensei: “Gosto dele”. Nós nos encontramos de novo quatro meses depois, em um show de BeBe e CeCe Winans. Depois do show, CeCe deu uma festa, e todos fomos jantar. No final, Bobby veio até mim e disse: “Se eu te chamasse para sair comigo, você sairia?” Na época eu tinha namorado, mas ele era meio sem graça. Então, respondi: “Sairia”. E ele: “É sério?” – ele é tão legal – “Te pego amanhã às 8”. E somos amigos desde então. Sabe, nosso relacionamento começou com a amizade. Jantávamos, ríamos, conversávamos e íamos para casa. Não era nada íntimo. Um dia, meio que nos demos conta: “O que está acontecendo aqui?”


Você deve ter recebido muitos convites para cinema. O que a fez se decidir por O Guarda-Costas?

[Longo silêncio] Hmmmmm... quero dizer outra coisa sobre o que estávamos falando. Sabe, o Bobby... essas pessoas... quero esclarecer algo. Ouvi muito sobre meu marido ser mulherengo. Sabe: “Ele é um mulherengo, tem três filhos ilegítimos, blá-blá-blá” – sabe isso tudo? Só quero que as pessoas entendam algo: meu marido nunca, jamais desrespeitou mulher alguma. Qualquer uma que ele quis também o quis. E quero que as pessoas saibam que meu marido é uma pessoa boa. É um ser humano respeitável. Foi criado com respeito. Eu só queria que parassem de tentar pintá-lo como esse homem que sai por aí e diz arbitrariamente: “Quero esta e vou dormir com ela”. Ele ama ser casado e respeita o casamento. Ele me respeita e eu o respeito. Estou cansada de as pessoas falarem dele como se fosse essa pessoa ruim, que não tem respeito por mim nem por nosso casamento. É besteira. Ele respeita. E qualquer um que o conheça sabe que isso é verdade. Ok, agora podemos falar de O Guarda-Costas. Me ligaram dizendo que Kevin Costner tinha um roteiro chamado O Guarda-Costas e queria que eu filmasse com ele. Falei: “Tá, claro”. Liguei para minha agente, que disse: “É verdade”. Li o roteiro e gostei, mas no começo achei a Rachel muito dura, áspera – uma vaca.

Como você vê outras artistas que podem ser consideradas suas concorrentes?

As pessoas que me aceitam, elas me aceitam como sou. Além disso, de qualquer jeito, fui a primeira [risos] – e qualquer uma que vier definitivamente virá atrás. Não dizem que soo como a Mariah Carey, dizem que a Mariah Carey soa como eu, está me entendendo? Não sinto que estou em competição com elas. Madonna e eu certamente não estamos competindo. Mary J. Blige – ela é diferente. É a rainha do hip-hop, é a primeira garota a aparecer que é realmente simples, muito legal, mas sabe cantar. Então, todos tentam seguir. Só que estou nesta desde 1985, quem vier terá de vir atrás de mim.

Você tem outro disco de sucesso agora. Sente muita pressão em manter este nível?

Sabe o que sinto? Eu me sinto velha. Na maior parte do tempo, desde que tinha 11 anos, estou trabalhando. Trabalhei em boates, fui modelo, tudo isso. Conversei sobre isso com meu marido outra noite. Ele está na indústria desde os 12 anos – agora tem 24. Só não quero ficar exausta. Não é tão divertido quanto antes. Quando comecei, eu me divertia muito, mas parou de ser divertido. Gosto do que faço e me dá muita alegria saber que outras pessoas gostam do que faço, mas não é divertido. Sabe o que é divertido para mim? Estar com meu marido. Estar com minha família, sair e rir, passar momentos bons. Esta é minha diversão. Mas a diversão no trabalho, a empolgação, como no começo? Acabou.

O que quer para si mesma neste momento?

Na verdade, não tem nada a ver com o trabalho. É minha família. Criar filhos, criar seres humanos decentes. Manter meu marido feliz. Mantê-lo forte. Coisas assim. São coisas muito simples. Bobby e eu estávamos conversando outro dia. Ele me faz rir. Diz: “Você acha que está tão bem agora” – porque perdi peso – “mas sabe de uma coisa? Bam, vou te engravidar de novo”. Falei: “O quê? Você está de brincadeira, acabei de ter um bebê!” Ele respondeu: “Vamos ter mais filhos, amor”. Estávamos brincando sobre isso – falando sobre ter mais filhos. Não há nada que eu queira fazer individualmente no momento. Sou uma mãe, e esta é minha preocupação na maior parte do tempo agora. Vou fazer uma turnê, vou fazer outro filme – o que estou ansiosa para fazer, não me entenda mal. Mas não é minha principal prioridade. Não é meu foco. Agora, esta garotinha é meu foco, ponto final.