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Motorhead e '1979': Como um ano transformou a banda em deuses do punk-metal

Durante o período de 365 dias, o grupo lançou Overkill e Bomber, dois álbuns que inspiraram todo mundo, do Metallica ao Mudhoney, a tocar acima de seus limites

Kory Grow, Rolling Stone EUA Publicado em 07/11/2019, às 18h11 - Atualizado às 19h08

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Motörhead Foto: (Estate Of Keith Morris/Redferns/Getty Images)

Em 1979, Motörhead se tornou a banda na qual headbangers e punks poderiam concordar. Os dois discos lançados no ano, Overkill e Bomber, contam com riffs impetuosos e imprevisíveis, acompanhados do vocal intenso de Lemmy Kilmister. É o melhor do metal e punk reunidos em fortes socos com meia hora de duração.

As letras variam de excitantes ("Damage Case") a ridículas ("Over the Top"), e ainda assim, Lemmy era o rei das máximas do metal: "A única maneira de sentir o barulho é quando é bom e alto" ("Overkill”), “A única prova do que você é, é a maneira como você vê a verdade” (“Stay Clean”). Em outra época e Terra, Lemmy teria sido um herói do campo fora da lei, uma lenda popular; mas em Londres, no início do Thatcherismo, ele era um profeta do heavy metal movido a drogas.

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Os destaques do Ano de Pensamento Radical de Motörhead agora incluem um novo conjunto, chamado 1979 - título inteligente, já que Lemmy gostaria de uma designação simples e crua. No box, está incluso Overkill, lançado em março de 1979 e o LP mais perfeito da banda em toda a sua glória desprezível, e seu irmão mais lento e assustador, Bomber, de outubro do mesmo ano.

O box também possui duas gravações ao vivo do Motörhead com a formação que os fãs chamam de "Three Amigos": o vocalista-baixista Ian “Lemmy” Kilmister, o guitarrista “Fast” Eddie Clarke e o baterista Phil “Philthy Animal” Taylor. Apesar de não ser uma visão 360 da banda naquele ano, é holístico o suficiente para mostrar como, e por que, eles se tornaram uma das forças mais importantes do hard rock, inspirando Metallica, Ramones, Mudhoney e o grupo de black metal Immortal, entre muitos outros.

Apesar de Overkill ser o segundo álbum da banda, Lemmy já era experiente. No final dos anos 60, o músico era roadie de Jimi Hendrix e membro do grupo fantasiado Rockin' Vickers. Juntou-se aos pioneiros do rock espacial, Hawkwind, em 1971, mas foi expulso em 1975,  depois de ser preso por posse de sulfato de anfetamina. "Usava as drogas erradas, veja", escreveu em sua autobiografia, "Se tivesse sido pego com ácido, esses caras teriam se unido ao meu redor." Lemmy formou o Motörhead no final daquele ano, e logo depois substituiu a primeira formação por Clarke e Taylor. Lemmy, originalmente, queria um quinteto, mas se contentou com o trio.

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Os outros dois músicos já se conheciam. Taylor teve aulas de bateria no Leeds College of Music e Clarke tocou com Curtis Knight, associado de Jimi Hendrix, no grupo Zeus. Motörhead lançou o primeiro álbum em 1977. O disco Motörhead não vendeu muito bem, mas em 1978 a banda gravou o hit “Louie, Louie”. Foi um sucesso, e fez com que a banda conseguisse um novo acordo com a gravadora e começasse a trabalhar nos dois álbuns de definição do grupo.

No começo de 1979, a banda estava a todo vapor. Talvez fossem todas as drogas que estavam tomando, mas o grupo estava funcionando em um nível mais alto quando gravaram "Overkill". A música é um monstro no qual eles recomeçam mais duas vezes antes de jogar a toalha depois de cinco minutos.

"Nunca ouvi algo que soasse daquele jeito," disse, uma vez, Lars Ulrich, do Metallica, sobre a bateria de Taylor em "Overkill". “Isso explodiu minha cabeça. E então, esse tipo de energia continuou - era tão crua. Nunca ouvi alguém cantar como Lemmy, foi essa fusão de punk, rock e metal, uma loucura. Isso apenas aumentou a energia, e foi completamente excessiva com essas letras quase exageradas e parecidas com desenhos animados.”

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O restante do álbum Overkill mostra a amplitude artística do Motörhead na época. “Stay Clean” é uma das letras letras mais filosóficas de Lemmy (“No final, você está por sua conta / E não há ninguém que possa impedi-lo de estar sozinho”) colado sobre um riff rock & roll elástico.

Quando a Rolling Stone entrevistou Lemmy pouco antes de sua morte, em 2015, para a franquia "My Life Songs", ele escolheu "Overkill" e "Stay Clean" entre as favoritas da carreira. "Sei que muitas bandas de metal fizeram covers de 'Overkill', mas não penso muito em nossa influência", explicou. "Somos apenas mais velhos. É bom receber uma homenagem, mas não é o fim do mundo para mim. Estamos ocupados escrevendo coisas novas. ”Quanto à “Stay Clean”, ele disse: “Não se trata de drogas ou álcool; é apenas 'stay clean' [...]"

Meio ano depois, Motörhead retornou com Bomber, que, de alguma forma, soa mais pesado que Overkill. As primeiras palavras escutadas no disco são Lemmy rosnando "É isso aí!" na música anti-heroína "Dead Men Tell No Tales". Os solos de guitarra de Clarke ressoam como se fizesse chover fogo do inferno por cima, apontando os amplificadores para baixo enquanto ele sobrevoa o estúdio de gravação e os ritmos de Taylor oscilam por todo o lugar.

"All the Aces", do Bomber, prenunciou o maior hit da banda, “Ace of Spades”, que saiu no outro ano. Na grande tradição do Motörhead, a melhor música do álbum foi o título "Bomber", que mexe e explode. Estranhamente, a banda deixou uma de suas melhores músicas, "Over the Top", fora do disco, lançada como o lado B de Bomber. No entanto, é um rock cativante que pode ter tornado o álbum nota 10, perfeito como seu antecessor, se o incluísse.

"'Bomber' foi a primeira música que escrevi sobre guerra", disse Lemmy na entrevista "My Life in 15 Snarls": “Eu estava lendo o livro de Len Deighton, Bomber, na época em que escrevi. É sobre um bombardeio na Alemanha quando os britânicos atingiram a cidade errada, e é o que acontece, no chão e no ar de ambos os lados. É um livro muito bom," disse.

O som das duas gravações ao vivo presentes no box 1979 é uma loucura. A qualidade não é muito boa em nenhuma delas, mas a dureza as faz parecer mais autênticas. A primeira, Good ‘n’ Loud, apresenta a banda tocando no Aylesbury Friars, e foi gravada em 31 de março de 1979. A segunda, Sharpshooter, foi gravada na turnê de Bomber em Le Mans, perto de Paris, em 3 de novembro de 1979. 

Quase um ano depois, a formação dos "Three Amigos" esteve em estúdio para gravar o álbum que realmente os levaria acima do topo, Ace of Spades. Essa formação faria mais um disco, o Iron Fist, de 1982, antes de Clarke deixar o grupo, seguido por um trabalho que ainda apresentava Philthy Animal. Taylor voltou à banda depois, mas Clarke, não. Lemmy lutou e liderou novas formações na gravação de mais clássicos como "Killed by Death", além de um novo álbum a cada dois anos até a morte do músico. 

Embora existam muitos lançamentos essenciais no catálogo do Motörhead, a lenda da banda realmente começou em 1979. E agora eles são indicados ao Hall da Fama do Rock and Roll. A razão pela qual o grupo foi tão influente foi porque Lemmy estava atrasado: ele já havia passado anos no ramo da música quando a banda lançou Overkill e teve uma ideia privilegiada de que as pessoas queriam de uma banda como a dele.

Além das gravações e discos, o box contém um zine do Motörhead, intitulado Melödy Breaker. Ele possui entrevistas com com quase todas as pessoas vivas que entraram em contato com a banda, do ex-baixista do Joy Division, Peter Hook, ao engenheiro de gravação. O que está faltando, no entanto, são novas entrevistas com os membros da banda, o que é triste, porque neste momento todos eles morreram, e como Lemmy cantou uma vez: "Homens mortos não contam histórias". 

Apesar disso, está incluso no box um artigo vintage, de 1979, que captura perfeitamente a visão de Lemmy sobre o mundo naquela época: "Se você pode dar aos jovens diversão, é isso que basta", disse o músico. "Esqueça a arte e tudo isso - é besteira. Se você pode enviar esse arrepio pelas costas de um jovem, é disso que se trata. Todo o resto é besteira".