Mulamba fala sobre a necessidade do ativismo musical e prepara show de lançamento do álbum

"A música, por ser um movimento por si, possui direções que transbordam qualquer delimitação", diz Fernanda Koppe, violoncelista da banda

Igor Brunaldi Publicado em 04/12/2018, às 10h05

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Mulamba (Foto:Luciana Petrelli)

A banda Mulamba chamou a atenção do público lá em 2016, com a faixa P.U.T.A., música que carrega um instrumental que habita entre o erudito e a MPB, além de toda a sinceridade poética da letra com a qual as ideias são transmitidas na música. 

A força do sexteto curitibano, formado por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão), não se limitou a apenas um single. Elas lançaram em novembro o álbum homônimo de estreia, colocando em nove faixas verdades sobre o estado atual da sociedade, que precisam ser ditas, ouvidas e, neste caso, cantadas em alto e bom som.

Desde seu nascimento, em dezembro de 2015, a banda já fez parte do line up de grandes festivais nacionais como o Psicodália, Soma Sonora, SIM São Paulo e Festival Vento. Além do vídeo da música P.U.T.A. (que já chega a quase 3 milhões de visualizações), elas também lançaram, em outubro deste ano, o clipe de "Desses Nadas", faixa que conta com a participação de Lio Soares, integrante do trio Tuyo.

A Mulamba vai comemorar a estreia do disco fazendo um show especial no Espaço Fantástico das Artes, em Curitiba, no próximo dia 10. Em 2019 elas vêm para São Paulo, e tocam no Sesc Pompéia dia 18 de janeiro. 

Leia abaixo nossa entrevista com a violoncelista Fernanda Koppe, que falou sobre a necessidade do ativismo musical, progresso social e as carências do cenário atual.

Qual é a sensação de ganhar destaque com um tapa na cara como a música P.U.T.A?  
Um tabefe simbólico através de uma música para lembrar a sociedade que todos dias um tapa real é dado na cara de muitas manas, que se repete pelo menos 15 vezes ao dia e muitas vezes acaba em feminicídio.
Estupros acontecem todos os dias, em todos os lugares e se é algo tão chocante ao ser falado, imagina ao ser vivido.
Que esse tapa na cara sirva de alerta e desperte mais diálogo sobre a cultura do estupro que na maioria das vezes vira "só" mais um caso.

O que está faltando no cenário musical atual?  
Atenção, valorização e reconhecimento aos projetos e talentos que estão circulando e fazendo sua arte maravilhosamente bem e muitas vezes fora das grandes mídias de maneira totalmente independente.

Todas as áreas da cultura têm sofrido rupturas, reformas e renovações. Qual é o papel da música em meio a esse turbilhão de mudanças?  
A arte como um todo pode ser usada como um meio de desalienação, de desconstrução e informação, ou não, depende da intenção de quem a propõe.  Ela é capaz de romper, reformar e renovar e se torna um argumento muito forte quando usada pra comunicar algo.

Como a música pode contribuir para um movimento em direção ao progresso?  
Costumamos pensar sempre no futuro sendo que o progresso de uns pode ser o regresso de outros, é construir impérios para se marginalizar pessoas e formas de vida. A música, por ser um movimento por si, possui direções que transbordam qualquer delimitação. 

E como o som da Mulamba pode contribuir para isso?  
O som transborda, o som é intangível e viaja longe, ele é democrático. Mulamba traz vivências, não só nossas como pessoas físicas mas também das pessoas que nos cercam, nos envolvem, compartilham conosco suas histórias e talvez seja essa uma das nossas possíveis contribuições, continuar atentas ao presente, ao nosso redor,  fazendo aquilo que acreditamos e dizendo sobre aquilo que nos toca. 
Somos só mais uma de tantas bandas, entre tantas outras formas de manifestação de arte discutindo, divagando sobre as mesmas questões, cada um a sua maneira.