Mulheres de Guitarra e Rock Triste

Soccer Mommy, Phoebe Bridgers, Julien Baker e Lucy Dacus são algumas das vozes que os jovens buscam consolo na bravura que elas têm

Nicolle Cabral Publicado em 22/07/2020, às 07h00

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Soccer Mommy (Foto: Morgan Lieberman / Getty Images)

Quando Sophie Allison — como Soccer Mommy — aparece com o vocal seco e bem acompanhado pelas linhas de guitarra em Clean é como se você a conhecesse. O disco de estreia da cantora, lançado em 2018, soa como uma conversa que acontece no quarto de uma adolescente: íntimo, aconchegante e cheio de emoções.

O que faz sentido, afinal, ela faz parte dessa geração de jovens de 20 e poucos anos que enfrenta os próprios demônios emocionais e quer ser qualquer outra pessoa, exceto ela mesma. "Ela é o sol do seu mundo frio e eu sou só uma flor morrendo. Eu não carrego o verão nos meus olhos", canta em "Last Girl".

Soccer Mommy (Foto: Stephanie O'byrne @st3phascope)

Acompanhada por uma guitarra — instrumento que chegou a ela, pela primeira vez, aos seis anos —, Soccer Mommy narra o próprio reino de mal-entendidos e canta sobre um amor frustrado com um humor exato para cada um dos imaginários criados ao longo das 10 faixas do disco: às vezes ela aparece doce, triste, apaixonada ou completamente irritada. "Eu não quero ser o seu cachorro", exclama em "Your Dog". 

Assim como qualquer outra garota que cresceu nos anos 2000 ouvindo "Complicated" de Avril Lavigne, Allisson se junta a Phoebe Bridgers, Julien Baker, Lucy Dacus, Bea Kristi (Beabadoobee) e outras mulheres jovens com vozes doces que, destemidas, escrevem sobre as próprias imperfeições e tem guitarras como escudo. Em 2017, quando Allison liberou a coleção de canções que hospedava no Bandcamp, o New York Times já anunciava "o rock não morreu, ele agora é dominado por mulheres".

Em fevereiro de 2020, a cantora suíça, criada em Nashville, deu um salto grandioso com o lançamento do segundo disco de estúdio — pela Loma Vista Recordings — Color Theory. Enquanto a estreia lembra algo como sentir o colchão afundar no pequeno e aconchegante quarto, no segundo disco, Allison parece nos apresentar outros cômodos. Os synths, violinos e pianos apresentam uma roupagem mais colorida, porém, as composições se mantém sombrias. 

"Estou tentando parecer forte para o meu amor, minha família e amigos. Mas estou tão cansada de fingir que estou acorrentada na minha cama quando eles vão embora", canta "Circle the Drain". 

Nascidas em uma geração que viveu a banalização de temas como doenças mentais e suicídio na indústria do entretenimento simultaneamente à procura por informação e acompanhamento médico, essas artistas buscam por honestidade e identificação — e o público quer o mesmo. 

"Eu sei que essas melodias vem de um lugar com um pouco de escuridão. Mas se eu não fizesse assim, eu criaria músicas falsas e ninguém quer ouvir isso", explica Allison em entrevista à Rolling Stone EUA

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Phoebe Brigdes (Foto: OLOF GRIND) 

Por outro lado, dando ainda mais força a essa gama de mulheres que transformam as próprias anotações em canções viscerais, está Phoebe Bridgers.

No último e mais recente disco lançado, Punisher, Bridgers evolui como cantora, compositora e produtora e aparece muito à frente de tudo que registrou em Stranger in the Alpes (2018). Com as faixas produzidas por Tony Berg e Ethan Gruska, o disco é construído por cima por uma instrumentação abrasadora e composições honestas. "Eu sou uma mentirosa", canta em "Kyoto". 

Ainda que todo o imaginário do disco passeie entre fantasmas, astrologia e o apocalipse, a cantora de 25 anos está autoconsciente e transforma todas as verdades desconfortáveis sobre ela e ao redor em canções magnéticas e grandiosas. "I Know The End", faixa que encerra o disco, é um triunfo de emoções e a orquestra acompanha. "É também sobre um relacionamento que falhou. Quando você prefere abraçar e dançar com o cadáver, em vez de admitir que aquilo morreu", explica em entrevista à NME.

Cria da internet, Bridgers estende a própria obra para além ao se comunicar com o público pelas redes sociais. "Basicamente, eu tuíto sobre a minha bunda", conta na mesma entrevista à NME. "Mal termino de pensar e já tuíto", completa.

De acordo com um estudo realizado pela UCLA e divulgado pela NBC News, os nascidos a partir dos anos 1990 se sentem mais sozinhos do que todas as gerações anteriores do século XX. Esses mesmos jovens também têm tendência a experienciar mais sintomas de ansiedade, fear of missing out (medo de ficar de fora), pressões estéticas e outros, segundo uma pesquisa feita pela ONG Mind Share Partners.

Com isso, ter artistas e músicas que discutem sobre temáticas corriqueiras à questões mais complexas, cria uma identificação com as garotas jovens e diminui essa sensação de despertencimento da sociedade.

Em uma entrevista para a Vulture, quando questionada sobre estar relacionada com as outras artistas como Soccer Mommy, Julien Baker e mais, Bridgers pontua: "Não acho que [o que estamos fazendo] esteja salvando o mundo ou algo assim, mas sempre fico aliviada em saber que a arte é real e diz a verdade sobre coisas que significam muito para mim e vem de perspectivas que nunca ouvi antes". 

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Julien Baker (Foto: Matt Winkelmeyer / Getty Images)

Um piano pesado pulsa em "Over", faixa de abertura do segundo disco de estúdio de Julien Baker, Turn On The Lights. Na sequência, a voz gentil e melódia de Baker salta aos ouvidos. Aclamada pela crítica, a cantora de 24 anos, escreve sobre amores, sexualidade, autossabotagem, dúvidas e saúde física e mental frágeis. "Mas você nem consegue imaginar o quanto dói — apenas pare para pensar às vezes — como eu penso quase o tempo todo", canta em "Shadowboxing". Ela, porém, enfrenta tudo isso.  

Baker usa da música para refletir sobre as próprias questões, ainda que se permita cantar sobre comportamentos destrutivos, como em "Hurt Less". "Sei que como artista tenho a responsabilidade de pensar além de mim, por isso, é saudável validar a tristeza, não podemos reprimir-lá. Mas mergulhar nela também é algo ruim", explica em uma entrevista concedida à Huck Mack

A artista insiste muito que a música pode ser ressignificada e ter valor positivo para que o ouvinte obtenha conforto com as canções. "Se eles ouvem e entendem o quão difícil foi para mim e veem como estou feliz pessoalmente, isso é um testemunho da resiliência contra a dor", explica na mesma entrevista. 

Com um intervalo de três anos desde o último disco, Baker esteve bem acompanhada. Ao lado de Lucy Dacus e Phoebe Bridgers deram origem ao boygenius e lançaram, em 2018, um EP. A cantora também participou de Punisher, novo disco de Bridgers, com Conor Oberst, do Bright Eyes. A relação entre eles, inclusive, é bem próxima. 

"Julien [Baker] me ensinou sobre o amor, Lucy [Dacus] me ensinou a ter paciência e Conor [Oberst] me ensinou sobre a dor. Não porque ele é difícil, apenas porque ele é a pessoa mais emo que eu já conheci", contou Bridgers ao NewStatesman

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Lucy Dacus (Foto: Jason Kempin / Getty Images)

Desde o primeiro single, "I Don't Wanna Be Funny Anymore", lançado em 2015, o dedo pesado sob a guitarra e provocação ao cantar "eu não quero mais ser engraçada" fez a figura de Lucy Dacus ser intrigante. Não é por menos que, logo no começo da carreira, mais de 20 gravadoras queriam assinar um contrato com ela. 

Após o barulho da estreia, a cantora continuou interessante. Quando em 2017  — ano não tão generoso para Dacus —, ela acordou de um relacionamento abusivo e alguns familiares sofreram com problemas graves de saúde. Para além do campo pessoal, os meses seguintes foram os primeiros que marcaram a presidência de Donald Trump nos Estados Unidos. 

Porém, ainda assim, a artista conseguiu caminhar e dar luz ao segundo disco de estúdio, Historian, lançado em 2018. Musicalmente, a artista se aproximou de Angel Olsen e Julien Baker, e, apesar dos temas sombrios nas composições, a irreverência e charme da cantora dá luz aos versos cantados. "Acho que escrevo de um lugar de confusão", confessa em entrevista ao Sungenre.

Para ela, a música é a principal saída para conseguir processar todas as coisas que estão nela e das pessoas que estão ao redor. "É bom saber que isso [a música] pode ser útil para outras pessoas", esclarece na mesma entrevista. 

No final do dia, todas essas garotas carregam — além dos dois elementos comuns a elas: a guitarra e o "rock triste" — um público fiel que as consideram como melhores amigas para compartilhar as angústias da vida. 

O que ouvir? 

Soccer Mommy: "Cool", "Your Dog", "Last Girl" e "yellow is the color of her eyes".

Phoebe Bridgers: "Kyoto", "Halloween", "ICU" e "I Know The End".

Julien Baker: "Turn Out the Lights", "Shadowboxing", "Bite My Hand" (boygenuius) e "Appointments".

Lucy Dacus: "I Don't Wanna Be Funny Anymore", "Dream State...", "Map On A Wall" e "Night Shift".


Lembrando que, no Brasil, há o Centro de Valorização da Vida (CVV) para ajudar pessoas com pensamentos suicidas. Ligue para o telefone 188 ou entre no site https://www.cvv.org.br