Música Sagrada: Síntese chega ao grande público com personalidade forte e fé no som

Conheça a trajetória de uma das grandes revelações do hip-hop nacional, que lançou o segundo disco, Amem, no fim do ano passado

Lucas Brêda Publicado em 23/02/2017, às 15h39 - Atualizado às 16h31

Bom filho
Mais maduro, Síntese retorna com segundo álbum
Divulgação

Com Neto, não há assunto que seja banal. “Quero falar para as pessoas que estão se preocupando em respeitar a vida”, diz a mente por trás do projeto Síntese, destaque do hip-hop no ano passado, em um papo matutino ao telefone. Começar uma conversa com Neto é como iniciar uma audição do segundo disco dele, Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem (2016): é preciso abandonar o mundo profano por alguns minutos.

Com o trabalho – segundo na discografia, mas “primeiro de verdade” –, o Síntese se firmou como uma das maiores revelações do gênero no país. O álbum anterior, o duplo Sem Cortesia, saiu em 2012, como uma coleção de faixas lo-fi e sentimentais, quando o Síntese ainda era um duo formado por Neto e o amigo Leonardo Iran, o Léo.

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Sem Cortesia, publicado no SoundCloud, saiu como produto final deles. “Estávamos passando uma tribulação espiritual muito grande”, recorda o rapper. “Muita descoberta e muito pouca idade. Problemas de saúde mental, saúde espiritual. Tudo que estávamos recebendo, decodificando, não sabíamos lidar muito bem.”

Neto trata a decisão de pausar as atividades do Síntese como uma “aversão a uma vida artística”. “Era um bagulho muito íntimo, uma terapia”, analisa. “Era a gente se curando, se entendendo. Colocamos tudo que tínhamos vivido. Decidimos só soltar e parar com o rap. Queríamos purificar a mente e a alma de uma fase difícil que vínhamos passando.”

Em 2012, contudo, a união de batidas rústicas – de conotação vintage, resultado das experimentações de Neto no programa Fruity Loops – e poesias compassivas de Sem Cortesia despretensiosamente começou a fazer a cabeça de muita gente.

“Nós dois estávamos, cada um de um jeito, montando igual um touro em cima dos nossos pensamentos, do que acreditávamos”, conta Neto. “Era tudo produzido entre a gente, nesse ambiente hermético. Eu vi a voz se espalhando, a galera ouvindo. O Sem Cortesia puxou as pessoas. o povo queria muito sentir aquela energia.”

O álbum sequer ganhou show de divulgação, mas cerca de seis meses depois, no ano seguinte, Neto estava de volta – e sozinho – com o Síntese. “Em 2013 eu tomei coragem, me senti apto”, revela. “Meus irmão do [selo] Matrero deram muita força e eu voltei a fazer o show do Síntese do zero.”

De volta aos palcos, Neto reencontrou uma figura que já conhecia dos eventos de hip-hop em São José dos Campos – cidade natal do rapper –, por meio do produtor Daniel Ganjaman. “Falei para o Ganja: ‘Estou com metade do [meu] disco pronto, vamos fazer?”, recorda. Na ocasião, Ganjaman e Criolo estavam gravando Convoque Seu Buda (2014), sucessor de Nó Na Orelha (2011).

“Ele falou que curtiu, mas estava gravando com o Criolo, estava corrido”, narra Neto. “Um mês depois ele disse: ‘Manda o seu telefone que o Criolo quer falar com você’. Ele [Criolo] me tratou muito bem, como sempre. Fui no outro dia a São Paulo, ouvi a música, nós escrevemos na hora e gravamos. No dia seguinte, já gravei a oficialzona e saiu”. Em diversos shows da turnê Convoque Seu Buda, Criolo contou com o Síntese nas performances de “Plano de Voo”, a faixa em parceria entre eles.

“Foi muito forte essa participação”, confessa. “Todo mundo viu, tá ligado? Viu que eu era alguma coisa, uma energia que estava ficando madura. Se o louco dos locos [Criolo] falou que é isso [tudo] mesmo...” A visibilidade também rendeu ao Síntese uma colaboração em shows e gravações com o grupo Projetonave, incluindo apresentações em festivais espalhados pelo Brasil.

Com as faixas praticamente prontas – também “caseiras”, ainda que mais rebuscadas –, Neto entrou em estúdio (o El Rocha) com Ganjaman por duas semanas no fim de 2015, acrescentando instrumentos orgânicos – baixos, sopros, guitarras –, o que acabou gerando participações de nomes como Marcelo Cabral, Guilherme Held e Thiago França, entre outros.

Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amem saiu no fim de 2016 como um convite ao universo espiritual de Neto. Já em “Ritual”, segunda e mais mundana na tracklist, ele rima sobre a criação de uma espécie de ritualística sonora: “Espirito em harmonia, corpo em sintonia/ Audição atenta pra se captar magia”. Neto trata de superação, respeito e busca pela paz com versos de cunho psicológico e que demandam transcendência. “Queria fazer um disco solo que fosse meu pronunciamento oficial à humanidade: é música sagrada”, crava.

Com samples proeminentes de Racionais e Black Alien – duas maiores influências do joseense –, as melodias de Amem também são apuradas, tanto pelos arranjos de Ganjaman quanto pelo acréscimo de refrãos (praticamente inexistentes em Sem Cortesia). O álbum também se esquiva de sonoridades da moda.

“Uma base rolando é uma banda tocando, para mim, e eu sou muito fã dessa linguagem”, explica o rapper. “Não vou falar para você que eu odeio trap, acho um bagulho interessante. Os caras da gringa estão muito na frente na sonoridade. [Mas] Eu ainda espero ouvir um trap que seja mais uma [outra] linguagem. Ainda estou entendendo essa revolução.”

“De São José, para reacender sua fé”, como enuncia em suas músicas, Síntese chega ao grande público com uma personalidade forte e correndo paralelamente às tendências. Ele se relaciona com a fé, mas sem se alinhar à religião – ao contrário da sensação norte-americana Chance the Rapper, por exemplo –, ao mesmo tempo em que fala de liberdade e autoconhecimento. Síntese é música de elevação, que pode soar banal para os “infiéis”, mas que reacende a fé em um hip-hop particular e atemporal.

O Síntese lança o Amem com show no Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 18 de março, com ingressos a R$ 20 (há meia-entrada).