Na primeira compilação da carreira, Marisa Monte grava duas inéditas e abre parceria com Silva

Mauro Ferreira Publicado em 29/04/2016, às 16h16 - Atualizado às 18h07

A cantora Marisa Monte
Leo Aversa/Divulgação
“Nos últimos dois anos, eu me dediquei a digitalizar e a guardar toda a minha obra em HDs. Nesse processo, encontrei 40 gravações que faziam parte do meu trabalho, mas que não estavam na minha obra. Coleção traz para minha obra 13 dessas gravações”, explica a cantora

Quando Sylvia Marques de Azevedo Monte, mãe de Marisa Monte, ouviu recentemente “Nu com a Minha Música” na voz da filha, pensou que escutava uma gravação inédita. Marisa teve que informar à mãe que o fonograma já tinha sido lançado há cinco anos. Composição de Caetano Veloso, apresentada pelo autor em disco de 1981, a faixa foi gravada pela cantora carioca 30 anos depois, em 2011, com Rodrigo Amarante e Devendra Banhart para o segundo volume do projeto beneficente Red Hot + Rio. O registro agora abre e é o single inicial de Coleção, a primeira compilação da seleta discografia de Marisa Monte.

Lançada nesta sexta, 29, nas plataformas digitais e em edição física em CD, Coleção agrega 13 fonogramas até então dispersos na discografia da artista. São gravações feitas entre 1993 e 2014. Há duetos com Paulinho da Viola (“Carinhoso”), Carminho (“Chuva no mar”, música que Marisa e o parceiro Arnaldo Antunes cederam para a cantora portuguesa lançar em 2014 no álbum Canto) e Cesária Évora (“É doce Morrer no Mar”), entre números de shows e músicas gravadas para trilhas de filmes. A partir desta sexta, 29, minidocs e lyric vídeos sobre cada gravação vão ser progressivamente disponibilizados na página oficial de Marisa no Facebook. Dora Jobim dirigiu o conteúdo audiovisual que reforça o requinte com que a cantora trata a primeira coletânea de uma carreira que já caminha para os 30 anos, a serem completados em 2017, se contabilizados os seminais e cultuados shows na extinta casa carioca Jazzmania.

“Um best of não faz muito sentido em tempos digitais”, avalia a cantora. Marisa conceitua o papel que teve na produção de Coleção como curadoria. Reiterando a conexão da artista com as artes visuais, a capa do trabalho expõe uma pintura que retrata a artista. De 2010, a tela foi pintada por Francesco Clemente, italiano radicado em Nova York. “Nos últimos dois anos, eu me dediquei a digitalizar e a guardar toda a minha obra em HDs. Nesse processo, encontrei 40 gravações que faziam parte do meu trabalho, mas que não estavam na minha obra. Coleção traz para minha obra 13 dessas gravações”, explica Marisa.

Editada pelo selo da cantora, Phonomotor Records, a compilação é o último disco previsto no contrato assinado por Marisa em 2000 com a EMI Music, gravadora que, desde 2013, teve o acervo comprado pela Universal Music. Coleção chega ao mercado com distribuição da Universal, encerrando por ora o vínculo de Marisa com a indústria multinacional do disco. “Esse contrato de 2000 acabou se estendendo por 15 anos. Era um contrato de quatro discos que, depois, viraram sete e que já previa um best of no fim. Mas eu propus a troca desse best of por um projeto autoral com curadoria minha”, revela a cantora.

Quanto às faixas inéditas, uma delas é “Cama”, gravada com o título de “Uma Palavra” para a trilha sonora do filme Era uma Vez (2008), com direção do cineasta Breno Silveira. A trilha nunca foi editada em CD, o que justifica o ineditismo da música. “Lembro de o Arnaldo tirar um poema da gaveta que a gente conseguiu aproveitar quase inteiro na letra da música e que se encaixou na melodia que eu e Carlinhos Brown já tínhamos feito. Não é sempre que isso acontece, mas aconteceu”, conta Marisa, que pôs nova voz na faixa.

A outra novidade do disco é um registro ao vivo, sobre a qual Marisa também adicionou nova voz, de “Fumando Espero”, tango de 1922 revivido pela cantora em show feito em 2009 com o grupo argentino Café de los Maestros. Ela canta o tango na versão em português escrita por Eugênio Paes e lançada em 1955 na voz de Dalva de Oliveira, de cujo repertório Marisa reviveu outro tango, “Lencinho Querido”, no mais recente álbum de estúdio, O que Você Quer Saber de Verdade (2011).

Mesmo sem lançar disco de músicas inéditas há cinco anos, Marisa continua a compor cotidianamente com diversos parceiros. Abriu recentemente parceria com o cantor e compositor capixaba Silva, com quem já fez três canções. Contudo, a cantora já não pensa necessariamente em reunir este material inédito em um álbum. A cogitação de lançar singles avulsos na web, desvinculados de discos, soa tão natural como surpreendente. Afinal, é feita por uma artista que cultua o formato físico e que adora folhear encartes de discos para ler letras e ficha técnica, mas que também ouve músicas em plataformas de streaming no dia a dia.

“O consumo digital de música libertou o cantor do formato de um álbum. O formato físico vai ter sempre um nicho do mercado. O futuro é esse formato físico ser reorganizado em um tamanho que não vai mais crescer. Só que os serviços de streaming precisam se aperfeiçoar para oferecer mais informações sobre as músicas. Sinto falta de ler a letra quando escuto uma música em streaming. Mas acho interessante que o mundo tenha menos matéria, menos plástico”, contrapõe Marisa. Ela concebe um mundo em que ferramentas antigas de divulgação coexistam com plataformas atuais. “Há os padrões antigos e os novos. Você pode ter uma música na novela e ter views no YouTube”, argumenta.

Cantora projetada nacionalmente em 1989, quando a indústria fonográfica ainda dava as cartas, Marisa Monte parece à vontade com a evolução do mundo da música “A gente tem novos caminhos. A tecnologia democratizou os meios de produção. O estúdio atualmente pode ser somente um computador. O desafio de hoje é você ser ouvido no meio do ruído, no meio de tanta informação que há no mundo”, pondera. Tanto ontem como hoje, Marisa Monte ainda se faz ouvir no universo pop.