Nelson Xavier deixa um legado de grandes atuações em todas as frentes da dramaturgia

Xavier era “o ator dos atores”: versátil, desaparecia dentro dos papéis que interpretava

Paulo Cavalcanti Publicado em 10/05/2017, às 16h02 - Atualizado em 02/06/2017, às 16h20

Nelson Xavier
Divulgação

No mundo artístico, há quem se preocupe com a fama; outros se fixam simplesmente na excelência do ofício e não se mostram interessados no suposto glamour atrelado à profissão. Era o caso de Nelson Xavier, que morreu em Uberlândia, Minas Gerais, no dia 10 de maio, aos 75 anos. Depois de passar por um tratamento contra um câncer na próstata, o ator sucumbiu a um tumor no pulmão.

Xavier era “o ator dos atores”: versátil, desaparecia dentro dos papéis que interpretava. Foi responsável por grandes momentos na televisão, no teatro e no cinema. Ele era um homem do povo e o modo como conduzia seu trabalho e sua vida pública era reflexo dessa postura.

Nelson Agostini Xavier nasceu em 30 de agosto de 1941, em São Paulo. Formado pela Escola de Arte Dramática da USP em 1957, começou a atuar no teatro no final daquela década. Na tela grande, participou de filmes importantes, como Os Fuzis (1964), Dois Perdidos Numa Noite Suja (1970), Vai Trabalhar, Vagabundo! (1973), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), A Queda (1978), Eles Não Usam Black-Tie (1981), Gabriela (1983) e O Rei do Rio (1985). Recentemente ele conquistou plateias na pele de Chico Xavier no filme homônimo de 2010 e em As Mães de Chico Xavier (2011), além de ter brilhado ao lado de Juliana Paes no tocante A Despedida (2015). Na televisão, a lista de aparições marcantes também foi extensa. Xavier esteve em novelas como Sangue e Areia (1967), Renascer (1993), Pedra sobre Pedra (1992), Irmãos Coragem (1995) e Salsa e Merengue (1996). Também trabalhou com direção de teatro e cinema.

O ator tinha um tipo físico reconhecido como brasileiro e por isso era muitas vezes convocado para interpretar figuras regionais. Isso o gabaritou para estrelar a série Lampião e Maria Bonita, exibida com grande sucesso pela Globo em 1982. Ele, na pele de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Tânia Alves (Maria Bonita) reviveram os tempos do cangaço de maneira crível e humana.

Ironicamente, Xavier se tornou campeão de bilheteria quando encarnou seu quase xará, o médium mais conhecido do Brasil. Em Chico Xavier, não era só a semelhança física e o gestual que chamavam atenção. No filme, ele também incorporou organicamente a essência benigna e transcendental do outro Xavier. Com o sucesso, atuou em mais produções relacionadas ao espiritismo: além de As Mães de Chico Xavier, foi escalado para O Filme dos Espíritos (2011).

A vida imitou a arte e a experiência de viver o médium mudou a existência do artista. Xavier antes se considerava ateu, mesmo se interessando pelo budismo. Depois das experiências cinematográficas envolvendo o espiritismo, passou a acreditar na vida após a morte. E foi justamente em Minas Gerais, terra de Chico Xavier, que ele morreu.

No final da década de 1980, o ator se casou com a atriz e cantora Via Negromonte. Tiveram três filhos (o casal se separou em 2010). Nos últimos anos, Xavier morava sozinho em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em uma casa com móveis rústicos e sem luxo. Mesmo com o sofrimento e as limitações impostas pela doença (passou os últimos meses sobre uma cadeira de rodas), ele fazia questão de continuar atuando. O derradeiro filme de Xavier foi Comeback – Um Matador Nunca Se Aposenta, dirigido por Erico Rassi, que estreou no final de maio.