Nick Cave faz show catártico em SP

O cantor e compositor australiano voltou a se apresentar no Brasil após 30 anos

Paulo Cavalcanti Publicado em 15/10/2018, às 16h42

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Fabricio Vianna

Nos anos 1990, cantor e compositor australiano Nick Cave chegou a morar por alguns anos na região do centro de São Paulo. Na época, passeava pela cidade sem que ninguém o importunasse pois, durante essemperíodo, para ficar claro que queria ser considerado apenas um cidadão e não um artista, não fez sequer uma apresentação em território nacional. Eventualmente, Cave partiu do Brasil, e a vontade de vê-lo ao vivo ficou represada. O desejo dos fãs foi saciado no último domingo, 14, no Espaço das Américas, em São Paulo. Foi uma apresentação única no Brasil.

Ao lado da sempre afiada banda The Bad Seeds, Cave ostentou sua habitual e incansável voz grave e cavernosa, além de atuar de forma brilhante e catártica. O show fez parte da turnê Skeleton Tree, nome também do álbum lançado em 2016, que Cave gravou após a trágica morte do filho de 15 anos Arthur, que caiu de um penhasco. A performance, que durou cerca de duas horas, teve momentos de minimalismo, delicadeza e barulho extremo. O ícone do rock gótico e seus músicos entraram no palco por voltas das 20h10 e, a partir daí, o enorme público que lotou o Espaço das Américas ficou mesmerizado ao sentir na pele as canções altamente pessoais e cheias de sofrimento escritas pelo astro.  

Cave abriu com “Jesus Alone” e, a partir deste instante, seguiu intenso e forte, sem demonstrar sinais de fraqueza. Entoou faixas como “Magneto”, “Higgs Boson Blues” e “Do You Love Me?” interagindo intensamente com a plateia, apertando a mão de quem estava na frente do palco e também regendo o coral de vozes dos seus admiradores. “From Her To Eternity” (faixa título do disco de estreia dele, de 1984), “Red Right Hand” e “Loverman” foram outros pontos altos desta sequência.

Depois de tanta agressividade sonora, veio a parte mais calma da apresentação, que contou com diversos momentos em que a voz de Cave era acompanhada apenas pelo piano que ele mesmo tocava.  Vieram “The Ship Song” e a deslumbrante “Into My Arms”, que o cantor dedicou ao Brasil, evocando uma plateia inteira que cantou junto, deixando Cave fascinado. “Shoot Me Down” e “The Girl In Amber” foram complementos perfeitos a este momento mais plácido. 

A fúria retornou com “Tupelo”, homenagem a Elvis Presley. Depois de “Jubillee Street”, veio “The Weeping Song” durante a qual o músico se arriscou a andar no meio do público. No geral, Cave não falou muito, e esclareceu que não fala português há tempos e não queria arriscar, mas desejou boa sorte ao nosso país. Os fãs então começaram a puxar de forma feroz o coro de “ele não”, posicionamento de afronta ao candidato à presidente Jair Bolsonaro. 

A animação se mostrava tão unânime que, para a perfomance de canções como “Stagger Lee” e “Push the Sky Away”, o compositor convidou alguns fãs para subir ao palco. Em seguida, despediu-se momentaneamente, mas logo voltou para uma continução de beleza incandescente, que reuniu as faixas “City of Refugee”, “The Mercy City (executada após pedidos dos fãs), “Jack The Ripper” e finalmente, a conclusão com a etérea “Ring of Saturn”, outra faixa de destaque de Skeleton Tree. Nick Cave & the Bad Seeds deixaram o palco de forma triunfal, enquanto os fãs permaneciam em transe. 

A espera de 30 anos valeu muito a pena. Cave foi recebido com tanta paixão e fúria, que pareceu um filho pródigo finalmente retornando ao lar. Agora só resta aos fãs esperar que ele não leve mais três décadas para retornar.