No Novo Groove do R&B Brasileiro

A cantora Alt Niss fala sobre o coletivo Rimas & Melodias e os obstáculos que muitas mulheres enfrentam dentro da indústria fonográfica

Lorena Reis Publicado em 20/07/2020, às 07h00

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Alt Niss (Foto: Instagram / Reprodução)

Anteriormente, a Rolling Stone Brasil falou sobre a ascensão do R&B Contemporâneo no Brasil, trazendo alguns dos nomes que têm representado (e ressignificado) o gênero no país, como Fabriccio, Isadora, Wesley Camilo e o duo YOÙN

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Além de explicar a origem do R&B e como identificá-lo, cada um deles compartilhou um poquinho da própria história, abordou a falta de diversidade dentro do mercado fonográfico e explicou a verdadeira essência por trás do Rhythm N' Blues.

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Confesso que, desde o meio de junho, quando conversei com os artistas acima, passei a ouvir R&B com mais frequência e com muito, mas muito carinho. Agora, também como forma de me aprofundar mais no estilo, valorizar a arte nacional e conhecer novos sons, conversei com mais um nome conceituado dentro do movimento: Alt Niss.

 

Alt Niss (@altniss)

Os dias de quarentena e isolamento social para uma artista e mãe de dois filhos que trabalha e cuida das coisas em casa não é nada fácil, mas, desde que montou o próprio home studio, Alt Niss, nome artístico de Eunice Santiago Albertini, tem se virado bem. Afinal, talento é o que não falta.

"Eu comecei a fazer música super nova. Comecei a compor aos 11, 12 anos. E eu costumo dizer que, na verdade, o R&B veio antes disso, antes da minha caminhada na música", ela conta. "É um gênero que eu cresci ouvindo, porque o pessoal aqui de casa adorava, chamava de melodia, charme. Nomes que a gente redefine como R&B aqui no Brasil. Família preta, de São Paulo, Zona Sul. Periferia... Todo mundo conhece um pouco, né? Eu estava acostumada com a sonoridade e, depois, passei a frequentar a Igreja Batista. Hoje em dia eu não sou mais da religião, mas, dentro do gospel, eu ouvia muita música preta, principalmente R&B. Aí eu comecei a compor. Na verdade, eu comecei a escrever antes de fazer música, porque eu não tocava nenhum instrumento. Só depois de um tempo que eu entendi como poderia encaixar tudo aquilo numa música. Então, como eu não tinha recursos para fazer aulas ou aprender algum instrumento, meu aprendizado veio assim: ouvindo muita música e tentando reproduzir o que eu ouvia. Lá com 15, 16 anos, eu gravei minha primeira música e, consequentemente, comecei a trabalhar fazendo backing vocal e freelance com alguns artistas. Por volta de 2013, eu troquei de nome e trabalhei na minha carreira de forma mais sólida."

 


É possível viver de música mesmo fora do mainstream?

Desde o início de 2018, Alt Niss é representada pela produtora Boogie Naipe, que também trabalha com Mano Brown, Racionais, entre outros. Segundo ela, viver de música é possível, sim, mas "não é nem um pouco fácil."

"Às vezes a gente tem um mês super bom, sabe? De repente, pinta alguma coisa com marca, publicidade, edital. Mas também tem aquele mês que é muito ruim. A gente precisa se organizar direitinho com a grana, principalmente dentro do meu cenário. Eu não estou nem perto de um cenário mainstream. Então eu consigo viver - com as minhas dificuldades - mas estou trilhando um caminho legal. Trabalhando bastante também, né? Direitos autorais e tudo mais. Existem várias formas de renda. Se eu fizesse outro tipo de música, certamente já estaria rica", brinca ela. 

Mesmo por fora do mainstream, Alt Niss acredita que o R&B encontrou uma porta de entrada para se estabelecer no Brasil: "Talvez muitos estejam esperando algo mais sólido quanto ao gênero, mas o R&B está crescendo e se fundindo com outros gêneros - e as pessoas estão ignorando isso. A gente vê a galera do R&B misturando funk, pagode, música eletrônica, trap, sabe? Tem muita gente fazendo um rolê legal não só de midstream, mas de mainstream mesmo, e que não leva necessariamente a nomenclatura para o público, que, muitas vezes, só quer ouvir música boa. E as coisas estão caminhando. alvez não como a gente queria, mas é importante entender que esse rolê de mesclas e tal é uma forma de ver que o R&B está rolando por aqui. Além disso, de uns quatro anos para cá, eu também senti que as gravadoras e produtoras renomadas estão fechando contrato com artistas que se projetam como artistas de R&B. A gente está caminhando. Claro, eu sonho com um palco de R&B num festival, ou sei lá, mas a gente não sabe se isso vai acontecer. A gente precisa trabalhar com o que tem. Às vezes até deixar esse lance da fidelidade com a nomenclatura um pouco de lado para simplesmente entrar e fazer e pronto. E poucas pessoas vão entender que aquilo ali é R&B, mas isso talvez nem seja o mais importante."

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Sobre o coletivo Rimas & Melodias

Além de tocar a carreira solo, Alt Niss também integra o Rimas & Melodias, um coletivo de rap, R&B e neo soul formado única e exclusivamente por mulheres - Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie, Tássia Reis e Tatiana Bispo.

"[O Rimas & Melodias] surgiu no finalzinho de 2015 e início de 2016 e foi um momento em que eu também estava pensando em solidificar minha carreira. Foi tudo muito junto, parecia que tudo tinha que acontecer daquela forma, sabe?" relembra Alt Niss. "Eu conhecia algumas meninas, tipo a Drik, a Tati e a Stefanie. As outras eu fui conhecendo ou conhecia de longe e admirava o trampo delas. Por exemplo, a Mayra eu conhecia porque ela tinha feito uma entrevista comigo para a Folha de S.Paulo para falar justamente sobre R&B. Então a gente se aproximou nessa época e ela já entrou nesse lance de construir o Rimas & Melodias. Eu também conhecia a Tássia de longe, a Karol, enfim. A gente se juntou para criar conteúdo para a Internet, mas virou uma coisa muito maior. Em 2017, veio o convite de fazer o EP [Rimas & Melodias], fizemos uma turnê, passamos por vários festivais legais. Foi muito massa. Só que a gente precisou entender o prazo de validade daquilo, porque é impossível conciliar a agenda de sete meninas, cada uma com seu trampo. A gente já sabia que seria assim, mas a gente sempre se encontra, sempre se fala, então a gente tem ensaiado um novo retorno, de forma mais pontual, e o nosso público entende isso super bem. É um projeto bem massa e a gente consegue se organizar muito bem, de forma totalmente independente. Eu aprendi muito com o Rimas & Melodias. Só aula!"

 


Quais obstáculos as mulheres enfrentam no cenário musical?

Por último, ao ser questionada sobre os possíveis obstáculos que uma mulher pode vir a enfrentar no mercado musical, Alt Niss desabafa: "É diferente. Tem coisa que a gente sente no tom, na conversa, no olhar. Muitos caras já entenderam que isso é errado, mas muitos nem se cobram ou tentam se desconstruir. Então é muito louco, mas algumas coisas a gente sente no olhar. Parece que a mina tem que fazer 3x melhor para ter metade do respeito que um cara tem. E o cara pode fazer qualquer coisa que está tudo ok também. Mas o que mais me mata de raiva é o público. É surreal. A galera fala sem peso na consciência, tipo 'Ah, eu não tô vendo nenhuma mina fazendo o suficiente para merecer esse tipo de respeito.' Então é foda. A gente ler isso na Internet em pleno 2020."

Felizmente, Alt Niss conta que o número de produtoras mulheres também tem aumentado nos últimos tempos. "Eu trabalho com mais homens, mas eu percebo que estão surgindo muitas minas no backstage. Eu conheço algumas, já trabalhei com a Atlanta, com a Badista. Tem muitas outras que eu ouvi, mas não tive a oportunidade de conhecer. Eu percebi que a gente tem mais acesso às coisas, Claro, para algumas pessoas ainda é muito difícil, mas, por exemplo, eu vejo muita mina montando o computador, tentando aprender como faz para produzir. Assim, o mercado ainda tem que melhorar muito, sabe? Precisamos encontrar maneiras de incentivar isso. É um aprendizado diário, de entender como a gente pode ter mais espaço, acessar mais espaços, o que é difícil, porque, no Brasil, a gente sabe que a indústria fonográfica em geral não é muito democrática e nem muito aberta."

 


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