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Noel Gallagher exalta último disco de David Bowie e pede para Miley Cyrus "escrever uma música boa, em vez de ser provocativa"

"Acho que há uma tendência, infelizmente, de garotas que tentam desesperadamente ser escandalosas", diz o músico

SIMON VOZICK-LEVINSON Publicado em 06/12/2013, às 17h31 - Atualizado às 17h51

Noel Gallagher
Mark Allan/AP

Noel Gallagher não gostou muito do ano de 2013. “Tive uma merda de ano”, diz o guitarrista e compositor britânico, ex-Oasis, quando a Rolling Stone EUA fala com ele ao telefone. “Tudo que fiz foi ficar sentado em casa, e me tornei uma porra de um hipocondríaco. Ano de merda. Mal posso esperar que acabe.”

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Sim, foi um ano e tanto para Gallagher, se é que alguém como ele consegue ter um ano realmente tranquilo. Mas ele continua cheio de opiniões contundentes sobre a música feita por qualquer que seja o artista nos últimos 12 meses.

Você acha que 2013 foi um ano bom para a música em geral?

Foi OK. Teve algumas faixas que pegaram, claro. Acho que qualquer ano em que o David Bowie lança um disco tem de ser considerado um bom ano, certo?

Então o disco do Bowie superou suas expectativas?

Na época, eu pensei, e ainda penso hoje, que é uma obra-prima. Amo o disco. Ninguém tem o direito de ser tão bom a essa altura da carreira. Fora o Neil Young, todo mundo da época dele é basicamente uma merda. Entende?

Como quem?

Bem, não vou começar a dar nomes! Todos sabemos quem eles são. Mas “Valentine’s Day”, do Bowie, é ultrajante [de tão boa]. Tem pelo menos três músicas no disco que você ouve e imediatamente pega a guitarra e pensa: “Filho da mãe! Por que eu nunca escrevi algo assim?”. Eu acho que é uma das melhores coisas que ele já lançou. Eu daria nota 10. Eu daria nota 11, se pudesse.

De quem mais você gostou esse ano?

Metade do disco do Arctic Monkeys é boa. A outra metade é meio “hum, ok” – mas metade é boa pra caralho. E, pela primeira vez na vida, eu escutei um disco do Kanye West.

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E o que você achou?

Não sou fã dele nem nada. Eu não gosto daquele tipo de hip-hop moderno, ou seja lá o nome que vocês dão para isso. Mas alguém me disse para assistir a uma entrevista que ele fez na Inglaterra [com o DJ Zane Lowe, da BBC], então eu assisti, e achei que foi uma das melhores entrevistas que vi na vida. Achei foda! Especialmente a parte sobre o tipo de calça de couro, ou sei lá o que, que ele diz ter inventado.

Fui a uma festa pouco tempo depois, e aquela música “Black Skinhead” tocou. Eu não sabia quem era – como eu disse, não conheço essas coisas. “Que porra é essa?”, pensei. E é do disco novo. Então comprei o álbum, e é bom pra caralho. Gostei mesmo. Principalmente dessa faixa. Tem uma ótima vibração low-fi e punk.

Por que você acha que não há muitas bandas de guitarra tocando nas rádios?

Bem, não acho que faltam novas bandas de guitarra. Não acho que as músicas baseadas em guitarras estão melhores ou piores do que já estiveram. Só falta mais exposição. O jogo virou para pop ensolarado, urbano, sabe? Tipo, nos anos 1990, na minha época, músicas com guitarra eram a principal coisa na Inglaterra. Agora o foco mudou para outra coisa. Mas tudo bem. Você tem de se encontrar. É como voltar ao que a música alternativa era antes de o Oasis arruinar tudo ao ter se tornado gigante.

E que tal a Miley Cyrus? Você é fã?

Acho que há uma tendência, infelizmente, nesse momento, de garotas que tentam desesperadamente ser provocativas ou desesperadamente “começar um debate” sobre algo que já passou ou outra coisa. Porque, sério, elas não são muito boas. Entende? Acontece na Inglaterra com regularidade, e também nos Estados Unidos. Me sinto mal por elas. Tipo: “Escreva uma boa música. Não faça um vídeo provocativo – escreva uma música boa, porra. Vai ser melhor pra você, acho”. Ela esteve recentemente na TV, a Miley Ray Cyrus, e pensei: “Pra que essa porra?”. Eu não sei. É uma pena, porque deixa as outras artistas mulheres para trás em uns cinco anos. Agora, Adele e Emeli Sandé – esse tipo de música, para mim, é para vovós, mas pelo menos tem alguma credibilidade.

É simplesmente embaraçoso. Seja boa. Não seja escandalosa. Qualquer um pode ser escandaloso, ultrajante. Eu poderia ir ao escritório da Rolling Stone e simplesmente cagar em cima de um ovo cozido, certo? E as pessoas diriam: “Nossa, caramba, isso é ultrajante!” Mas isso é bom? Não, porque, essencialmente, é apenas merda em cima de um ovo cozido. É isso que é. Se eu fosse ao escritório da revista e tocasse uma música que acabei de escrever, e ela fosse maravilhosa, seria melhor, não seria?

O que você acha da Lady Gaga?

Para mim a Lady Gaga é o primeiro disco, porque minha filha e minha esposa amavam. Não ouvi nada desde então. O que isso significa? Para mim, isso diz muito. Ela é outra dessas. Na verdade, ela provavelmente está cagando em cima de um ovo cozido neste exato momento. E alguém vai congelar e chamar de arte.

Você mencionou que esteve trabalhando em algumas músicas novas ultimamente. Como está indo?

Está ótimo. A única coisa que salvou 2013 foi que eu escrevi muita coisa. Fora isso, tem sido uma merda, para ser honesto.

Você acha que lançará um disco de inéditas no ano que vem?

Não. Não comecei a gravar ainda, então meio que passaria a maior parte do ano em estúdio. Espero gravar algo em Nova York, porque nunca fiz isso antes, e talvez eu esbarre com o David Bowie por aí, e o leve para o estúdio, vestido de elfo, e ele faça umas mímicas enquanto eu coloco uma base de violão para tocar.

Suas novas músicas continuariam sendo lançadas sob o nome High Flying Birds?

Não sei se vou manter esse nome ou não. Provavelmente sim, é um nome tão bom. Talvez eu mude um pouco a parte do “Noel Gallagher” – talvez chame de “Paul McCartney’s High Flying Birds”, para ver se vendo mais ingressos nos Estados Unidos [risos].