Noel Gallagher se diverte e nega algumas músicas do Oasis em São Paulo

Músico inglês, contudo, brilhou com hits da carreira solo e, claro, com os clássicos Wonderwall e Don't Look Back in Anger

Pedro Antunes Publicado em 08/11/2018, às 23h41

None
Noel Gallagher se apresentou em São Paulo (Foto: Camila Cara / Divulgação)

Já com a apresentação em São Paulo, na Arena Anhembi, na noite desta quinta, 8, encaminhada, Noel Gallagher se aproxima do microfone a sua frente: “Uma pergunta idiota: algum fã do Oasis por aí?” Tão sincero, tão típico de um dos irmãos Gallagher, Noel e Liam, que formavam o coração da banda de Manchester, encerrada em 2009, após a milionésima (talvez) briga entre ambos.

Tão óbvia quanto a pergunta era também a resposta do público ali presente (10 mil, de acordo com a produtora do show). “Yeaaaaaaahhh”, gritaram do lado de cá.

Era claro, né, Noel

Essa é a sua benção e sua maldição, meu caro Gallagher. Seus filhos, e do seu irmão, caso se aventurem pela música, serão cobrados pela obra do grupo construída com sucesso, principalmente nos anos 1990. 

Mas Noel parece saber lidar com esse fantasma do passado. Zomba dele por vezes, é verdade, como se ouve em "Little by Little", a primeira da antiga banda executada na noite. Canta baixo, deixa que o público dê peso ao refrão.

Redime-se, é verdade, com "Wonderwall" e "Don’t Look Back In Anger", as suas principais músicas do catálogo do Oasis mostradas em São Paulo. 

O público, que no intervalo das sessões dedicadas ao atual projeto de Noel, os High Flying Birds, arriscou corajosamente alguns coros por Oasis, vibrou. Cantou junto. Fez sua festa nostálgica. 

Grande compositor de canções, um dos melhores da sua geração, Noel segue buscando o alvo. Trouxe sua banda em peso, com trio de metais e duas backing vocals (uma delas “tocou” uma tesoura, como uma espécie de percussão). Eram 11 pessoas no palco!  

Foram três discos lançados com os High Flying Birds. O mais irregular deles, Chasing Yesterday, foi pouco lembrado. Mas os bons singles dessa nova fase, como AKA... What I a Life!, If I Had a Gun e o recente Holy Mountain ganham um fôlego a mais ao vivo.

Mereciam também mais atenção de um público que se dispersou ao final do hit "Wonderwall". 

Mas a figura de Noel, sua famosa rabugice, também fazem parte do espetáculo. Para integrar a cultura pop é preciso ter mais do que um punhado boas músicas, afinal. Noel se diverte com isso, o mito criado em torno de si, e cria momentos de gargalhadas também.

“Choveu o dia inteiro! Uau! Ninguém me avisou que chovia no Brasil!” Talvez Noel tenha de fato esquecido que, em São Paulo, já enfrentou uma tempestade com o Oasis. Talvez fosse charminho. O que importa? 

O inglês, fã fervoroso de Fernandinho e Gabriel Jesus, jogadores brasileiros do seu time do coração Manchester City, ainda se deu ao trabalho de negar canções pedidas pelo público, em mais um divertido momento ao microfone. 

“Não. Eu não vou tocar essa música”, ele disse. “Também não vou tocar 'The Importance of Being Idle'”, responde, sobre outro clássico do Oasis. “Porque eu toco o que eu quero. Não o que você quer”, diz, jocoso. 

A seguir, o restante desse diálogo, que exprime perfeitamente quem é o Gallagher mais velho. 

“Se você tivesse vindo ao camarim e pedido, talvez.”

“Ah, você tentou...” 

“É seu aniversário? Sério? E daí?”

“Quantos anos você tem?”

“Vinte anos? Mentira. Parece ter 21!” 

Rabugento? Sim. De um jeito talvez adorável, talvez detestável. Inevitável. Mais uma herança dos tempos de Oasis. 

Esforçado, Foster The People tem dança de Michael Jackson e cover de Ramones 

“As coisas ficaram melhores se vivermos com amor”. Mark Foster, o nome e o rosto do Foster The People fala em amor - em português - para o público que, mesmo em um festival como o Summer Break Festival, era maioritariamente de Noel Gallagher.

Noel também pediu por isso. Tocou "All You Need Is Love", dos Beatles, ao final da sua apresentação, encerrando a noite. 

Foster poderia também ter citado “empatia”. Porque o público, debaixo de chuva por meio show, deixou-se levar pela entrega do grupo sobre o palco erguido da Arena Anhembi. 

Não fosse o tempo ruim em São Paulo, Foster teria sido capaz de mostrar o suor gotejando da sua franja longa como demonstração do seu esforço para conquistar aquela plateia para si. Eles suaram entrega, seja o suor metafórico ou não.  Embora pouco conversem musicalmente entre si, Gallagher e Foster, eles teriam que impressionar o mesmo grupo de pessoas. 

Segura em uma apresentação só atrapalhada pela água que caía do céu (e criava algumas cachoeiras nas laterais do palco) e por uma breve falha no som que fez o teclado de Foster gritar como se agonizasse, a banda dedicou sua performance ao álbum Torches, lançado em 2011 e com o qual eles foram catapultados para a cena indie pop cool mundial. 

Foi com "Pumped Up Kids" que o grupo se tornou blockbuster de uma cena e com a música praticamente encerraram a performance (a última canção foi "Sit Next to Me", do álbum Sacred Hearts Club, de 2017).

Era a jogada final de uma banda que não queria sair com um gosto amargo na boca, depois de duas outras passagens com brilho pelo Brasil - principalmente a primeira delas, quando eles surfavam no hype, em 2012. 

Desempenharam sua função de banda de abertura, mesmo com um show completo, com mais de 20 músicas. Foster, de camisa regata cavadinha, de início coberta de um blazer vermelho, dançou pelo palco, de uma ponta a outra, como um bom ídolo pop.

Possivelmente ele tentou repetir o moonwalking de Michael Jackson, o rei, mas faltou traquejo. Para evidenciar as raizes no rock, o grupo fez um cover de "Blitzkrieg Bop", do Ramones.

Atiraram para todos os lados. Acertaram em uma boa porção de pessoas.