Noite de cores e sons

Radiohead surpreende com show impecável e espetáculo visual em sua primeira apresentação em SP; festival Just a Fest ainda teve Los Hermanos e Kraftwerk

Por Bruna Veloso Publicado em 23/03/2009, às 20h18 - Atualizado em 22/03/2016, às 12h40

Thom Yorke, vocalista do Radiohead, comandou espetáculo musical - e visual - em apresentação na capital paulista

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O casamento perfeito entre música e imagem: foi isso que o Radiohead apresentou no festival Just a Fest neste domingo, 22, em São Paulo. A principal atração da maratona, que também contou com shows do Los Hermanos (reunidos especialmente para o evento) e dos alemães do Kraftwerk, entregou uma apresentação impecável - e mais do que um show de rock, um espetáculo de luzes e cores. Nem a má organização do evento - com filas intermináveis em bares e uma saída caótica (o estacionamento oficial, com três mil vagas, tinha apenas um portão) - conseguiu abalar os ânimos das 30 mil pessoas que lotaram a Chácara do Jockey.

O vocalista Thom Yorke é um inglês de poucas palavras - mas sua performance diante do microfone dispensa discursos. E para aumentar a viagem musical, uma estrutura de palco e um sistema de iluminação surpreendentes. Acima dos músicos, dezenas de cilindros brancos, que refletiam luzes de diversas tonalidades, pendiam do teto; na parte frontal do palco, uma bateria de luzes que mudavam de cor de acordo com os telões, que exibiam imagens individuais de cada um dos integrantes da banda. Durante as duas horas e vinte minutos de show, o som que saía dos instrumentos e dos microfones caminhou paralelamente a esses recursos visuais, promovendo uma apresentação única.

O show começou com "15 Step", que também abre o disco mais recente do quinteto - o mais que alardeado In Rainbows, de 2007, que caiu como uma bomba nas gravadoras e aqueceu a discussão sobre os rumos da indústria fonográfica (a versão digital do álbum foi lançada na internet, ao preço que o internauta quisesse pagar). Seguiram-se "There There" (Hail to Thief), "National Anthem" (Kid A) e a bela "All I Need", também do último disco - as dez faixas de In Rainbows foram tocadas na apresentação, somadas a outras 16, dos seis discos anteriores da banda.

O Radiohead, ao vivo, não foge ao seu trabalho em estúdio. Thom abusa de falsetes e canta como se estivesse sentindo cada uma das palavras que pronuncia ao microfone. Toda essa intensidade fica ainda mais interessante envolta na estrutura técnica: o público parecia embasbacado com a explosão de luzes à sua frente - a cada música, uma cor, um efeito, um ângulo diferente surgiam nos telões. Há momentos em que parece chover sobre o palco; em outros, os próprios músicos parecem estar dentro de uma grande tela.

A melancolia inerente às músicas da banda se fez presente de forma mais sutil. A calmaria sonora de "Faust Arp" (tocada apenas nos violões de Thom e do guitarrista Jonny Greenwood), por exemplo, foi seguida de "Jigsaw Falling Into Place" - que apesar dos ares etéreos, tem uma bateria quase dançante. A banda promoveu algumas mudanças entre as listas de músicas escolhidas para o Rio de Janeiro (lá, o Just a Fest aconteceu na última sexta, 20) e São Paulo. A mais marcante delas foi, para sorte do público paulista, "Fake Plastic Trees", que ficou de fora da apresentação no RJ. Apesar de ser uma das faixas mais conhecidas, o coro mais intenso veio em "Paranoid Android", quando o verso "rain down on me" preencheu todo o espaço do lugar, no momento em que Thom se calou diante do público.

A banda saiu do palco três vezes - na última, voltou para fechar a apresentação com "Creep", quase que um hino em repúdio ao sentimento de inadequação. O show terminou e a espera valeu: o Radiohead levou 15 anos para tocar em solo brasileiro, mas conseguiu fazer uma das apresentações mais marcantes dentre os últimos nomes internacionais que passaram por aqui.

Alegria indie

A noite começou pontualmente às 18h30 com a aguardada volta do Los Hermanos, reunidos depois de cerca de dois anos desde seus últimos shows. Com muita gente ainda fora do lugar (por escolha ou por conta do trânsito na região, que além do tráfego aumentado por conta do festival, ainda passa por obras), os cariocas se apresentaram para um público menor - mas cuja devoção compensa os números.

Conhecidos pela legião de fãs fervorosos, os Hermanos tocaram tudo que sua plateia queria ouvir: de "Todo Carnaval Tem seu Fim", logo no início, a "O Vencedor". Visivelmente felizes, os vocalistas Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante mostraram a interação de sempre, como se a banda ainda estivesse na estrada. Ao final de uma hora e quarenta minutos, Amarante deixou, sorridente como os garotos e garotas à sua frente, uma faísca de "esperança": disparou um "até qualquer dia", acenando de cima do palco.

Em seguida, foi a vez do Kraftwerk, em sua terceira passagem pelo país. O quarteto (que hoje conta apenas com Ralf Hütter como integrante original) lançou as bases da música eletrônica na década de 1970, tornando-se conhecido por apresentações de apelo visual. Mas o show de luzes do Kraftwerk, com seus quatro homens estáticos diante do telão, não surpreendeu. Talvez, em um lugar fechado, as imagens (números, robôs, carros, palavras) tivessem mais impacto. O som das caixas também não ajudou, mantendo-se baixo em diversos momentos. Os jovens acostumados às batidas aceleradas que imperam nas raves não se renderam ao minimalismo do grupo, mas mostraram alguma animação em faixas mais "cheias", como "Radioactivity", "Trans-Europe Express" e a clássica "Robots", quando os integrantes deixam o palco e postam bonecos motorizados em seus lugares.

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