“Nos EUA, aprendemos mais sobre o holocausto do que sobre os movimentos de direitos civis", diz o diretor de Preciosa

Lee Daniels passou pelo Brasil para divulgar seu novo filme, O Mordomo da Casa Branca

Paulo Gadioli, do Rio de Janeiro Publicado em 12/10/2013, às 11h08 - Atualizado às 11h14

Lee Daniels
Lionel Cironneau/AP

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Em cartaz nos cinemas brasileiros com Obsessão, o diretor norte-americano Lee Daniels desembarcou no Rio de Janeiro há duas semanas para apresentar seu novo filme, O Mordomo da Casa Branca. O longa conta a história de um mordomo que serve a vários presidentes enquanto luta com seu filho, cada vez mais ligado aos movimentos sociais e de direitos civis. “Entrei a bordo por se tratar de uma história de pai e filho em sua essência”, conta Daniels em entrevista à Rolling Stone Brasil.

Antes dele ser confirmado como diretor, no entanto, teve um concorrente de peso. “Logo após Preciosa – Uma História de Esperança, recebi uma ligação da produtora de Homem-Aranha e Uma Linda Mulher, a falecida Laura Ziskin, e descobri que ela estava entre eu e Steven Spielberg para dirigir este filme”, relembra. “Ainda bem que ele desistiu. Obrigado, Steven, pela oportunidade de trabalho”, brinca o bem-humorado diretor.

Para Daniels, o lado familiar, da relação entre pai e filho, e o que trata sobre os movimentos civis são igualmente importantes. “Eu e meu pai não me dávamos bem, e tenho um filho de 17 anos. Nesse longa eles acabam juntos e é uma história de amor, então por isso fiz”, afirma o cineasta, que diz ter se emocionado especialmente nas reconstituições do intenso racismo presente no sul norte-americano.

“Estávamos filmando e os jovens estavam no ônibus, falei ‘ação’ e do nada vieram os neonazistas, o pessoal da KKK e pessoas brancas gritando palavras ofensivas, balançando o ônibus, tacando tijolos. Eu gritei ‘corta’ e eles continuaram, porque não podiam me ouvir”, analisa. “ Eles lutavam para salvar a alma de nosso país e eu percebi que posso tomar uma bala por meus filhos, mas não sei se sou homem o suficiente para pular na frente de uma arma pelo direito de votar”, afirma Daniels.

Embora enxergue com otimismo a situação atual nos Estados Unidos, Lee admite que ainda há muito a ser feito. “A situação melhorou. Com certeza está melhor do que era antes, mas ainda quando escrevemos aquele diálogo [do filme] ‘um homem branco pode matar um negro e sair ileso’, o caso Trayvon Martin ainda não tinha acontecido”, relembra, pensativo.

A questão racial é o mote do filme e, assim, a percepção dos diferentes públicos ao redor do mundo varia. “É internacional, pois todos gostam da história do azarão, mas as nuances são muito específicas da comunidade afro-americana. As plateias reagem de um jeito diferente, até se o público for negro ou branco. Quando exibi Preciosa no teatro Magic Johnson, no Harlem, foi como uma comédia. De repente fui para Sundance e todas essas pessoas brancas reagiram diferente”, conta.

“Nos Estados Unidos, aprendemos mais sobre o holocausto do que sobre os movimentos de direitos civis. Por isso, foi importante contar essa história”, finaliza Lee Daniels.

O Mordomo da Casa Branca chega aos cinemas brasileiros em 1º de novembro.