Nostalgia direto da Ilha de Wight

Festival Isle of Wight abriu a temporada de shows do verão britânico trazendo de volta bandas do passado, como Blondie e Spandau Ballet, e reapresentando o Strokes

Por Pedro Caiado, da Ilha de Wight, Inglaterra Publicado em 19/06/2010, às 13h34

Jay-Z levantou o público com hits de seu último disco, The Blueprint 3

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Bons festivais de música ficam para a história, seja por seus triunfos ou fracassos. O Festival da Isle of Wight 2010 pode não ser lembrado daqui a dez anos - mas deve ficar marcado por um bom tempo de forma positiva, principalmente por sua diversidade.

O evento musical, realizado na Ilha de Wight, no sul da Inglaterra, é um acontecimento anual que abre oficialmente a temporada de concertos e eventos de musica do verão britânico. Conhecido pelo perfil nostálgico, o evento hoje costuma reunir bandas de sucesso do passado e artistas atuais - sempre com apresentações memoráveis, característica mantida desde as primeiras edições, realizadas entre 1968 e 1970. Em 1969, Bob Dylan retornava aos palcos após o um grave acidente de moto, que o deixou de molho por dois anos; Jimi Hendrix se apresentou em 1970, realizando um show histórico, apenas três semanas antes de morrer. Ainda naquele ano a seleção incluía The Doors, The Who e Gilberto Gil e Caetano Veloso, os únicos brasileiros a se apresentarem no festival até hoje.

A mágica Ilha voltou a sediar a maratona artística em 2002, sempre seguindo a exaltação ao passado. David Bowie, Iggy Pop, Paul Weller, The Police, Simple Minds e Sex Pistols são algumas das bandas recuperadas pelo evento.

Nesta edição, foram três dias de shows, realizados entre os últimos dias 11 e 13. Três palcos trouxeram uma seleção variada, de Jay-Z a Paul McCartney. Além disso, havia telões para a transmissão da estreia da Inglaterra na Copa do Mundo (e muitos pararam para assistir).

Florence and The Machine, a banda da exótica vocalista Florence Welch, trouxe uma apresentação performática, delicada e cheia de mistério; a plateia, porém, parece não ter compreendido o show. Logo depois, Jay-Z apresentou os hits de The Blueprint 3, levantando o público em uma apresentação com a participação de Kanye West na canção "Run This Town". O rapper ainda fez barulho com a balada "Empire State of Mind" (que na versão de estúdio conta com a participação da cantora Alicia Keys) e o hino punk "99 Problems".

No sábado, 12, os jovens nova-iorquinos do Vampire Weekend mostraram no palco principal que suas canções indie "A-Punk" e "Oxford Comma" funcionam, sim, para um grande público. Porém, o Blondie era a estrela do segundo dia, afinal era a volta do mito Debbie Harry e sua banda após anos de separação. Infelizmente, o que se viu foi uma vocalista sem voz em canções como "Call Me" e que pouco fez para elevar o entusiasmo da plateia, deixando o show sob o comando da banda. Mesmo assim, é incrível constatar que o Blondie ainda é cool: clássicos como "One Way Or Another" e "Heart of Glass" continuam soando atuais. O grupo aproveitou também para apresentar a inédita "What I Heard", que deve estar em álbum de estúdio prometido para setembro.

O The Strokes encerrou a noite com um show muito à frente da apresentação que fez em São Paul, em 2005. Julian Casablancas e banda mostraram que estão de volta à boa forma, em uma apresentação curta e estática. Ele não parecia sóbrio, tropeçando e murmurando entre uma canção e outra e repetindo como era bom estar de volta. A plateia parecia concordar. O show não trouxe material novo, mas animou com faixas como "Reptilia", "Last Night", "Someday" e "You Only Live Once".

O domingo, 13, terceiro e último dia da maratona, trouxe uma combinação inusitada no palco principal: o marcante grupo dos anos 80 Spandau Ballet, os roqueiros do Editors, a cantora pop norte-americana Pink e Paul McCartney no encerramento.

Spandau Ballet celebrou os tempos dourados de uma década com hits como "Gold" e "True". Os vocais do líder Tony Hadley foram o ponto forte. Impecavelmente bem vestido e com boa presença de palco, ele animou os presentes a todo instante, fazendo da apresentação o revival mais marcante do Isle of Wight.

A estrela pop Pink não tinha canções inesquecíveis no repertório, mas certamente fez o show mais irreverente e comentado do domingo. Sua entrada triunfal partiu de uma caixa pendurada de um enorme guindaste, metros acima do público, de onde a cantora despencou presa a um cabo. O palco era montado como uma arena de circo, um centro de entretenimento. A cantora mostrou energia de sobra em acrobacias e danças, e ainda arriscou covers de "Roxanne" (The Police) e "Basket Case" (Green Day). Por fim, ajudada por cabos, a artista voou por cima da plateia realizando acrobacias, uma maneira nada convencional de encerrar um espectáculo. Puro entretenimento: um show solto e sem vergonha de ser pop. Assista a um trecho abaixo:

Sir Paul McCartney encerrou a noite alegrando a multidão com uma seleção que contou, em boa parte, com repertório dos Beatles. Uma noite de tributos a John Lennon, Ringo Starr e George Harrison. A todo instante o ex-beatle conversava com os ingleses, contando histórias - como quando Jimi Hendrix o homenageou em um concerto dois dias após o lançamento de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, em Londres. A mudança de guitarras era frequente - algumas eram originais da época da gravação dos álbuns, como explicou Sir Paul. Foram 27 músicas, entre elas "Yesterday", "Hey Jude", "Let It Be", "Helter Skelter", "Ob-La-Di, Ob-La-Da" e "Paperback Writer", entre outros sucessos. "Blackbird" foi o momento acústico da noite, com imagens dos Beatles projetadas no telão. O cantor retornou várias vezes para o bis. Uma apresentação emocionante que fechou o Festival da Ilha de Wight em grande estilo.