O Festival de Woodstock

Greil Marcus foi até Woodstock - e relatou suas experiências na edição 42 da Rolling Stone EUA, em setembro de 1969

Por Greil Marcus Publicado em 16/05/2011, às 12h41

A capa da edição 42 da Rolling Stone EUA

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Relembre a atrações do primeiro dia de festival, 15 de agosto de 1969.

Relembre a atrações do segundo dia de festival, 16 de agosto de 1969.

"Era muita gente, todo este clima de nudismo", relembra Jorge Mautner, que passou poucas horas no festival.

Leia trecho do livro Woodstock, de Pete Fornatele, recém-lançado no Brasil.

Era uma tarde de domingo e Joe Cocker and the Grease Band haviam terminado seu show poderoso quando, de repente, o céu ficou preto e todos souberam que a chuva cairia novamente. E caiu. O chão onde 200 ou 300 mil jovens estavam sentados implorava para voltar a virar lama e teve seu desejo atendido, o que não fez a menor diferença para ninguém. O vento também começou a soprar; parecia vir de algum apocalipse bíblico meio esquecido, mas ninguém estava preparado para o Julgamento Final, então transformamos a calamidade em celebração.

"Cortem a energia, cortem a energia", gritavam no palco, e os jovens bradavam "Dane-se a chuva, dane-se a chuva", mas, na verdade, foi apenas outra chance para um novo tipo de diversão. Bênçãos incomuns dos elementos, nossos próprios santos dos últimos dias apareceram do nada. Em frente ao palco, um rapaz negro e outro branco tiraram a roupa e dançaram na lama e na chuva, girando em um círculo que ficava cada vez maior à medida que mais pessoas se juntavam a eles.

Moon Fire, um mago gentil, pregava para uma pequena multidão que se abrigava sob o palco. Um homem alto com barba castanho-avermelhada e olhos brilhantes, descalço e vestido apenas com um roupão, ele viajou até o festival com sua amante, uma ovelha ("chame-a de 'Sunshine' se você for vegetariano, 'Chops' se não for", pede). Em um canto estava seu cajado, com uma caveira humana no topo, e o bastão com a mensagem: "Don't Eat Animals, Love Them/the Killing of Animals Creates the Killing of Men" [Não coma os animais, ame-os/A matança de animais cria a matança dos homens]. Ele explicou detalhadamente como ovelhas foram abençoadas com a maior capacidade de amar entre todos os animais, como uma ovelha realmente pode ficar grávida de um humano, embora, tragicamente, talvez por causa de alguma maldição esquecida, os filhotes estavam condenados a morrer no nascimento. Albert Grossman, com o rabo de cavalo encharcado, estava parado ali perto. Moon Fire foi até ele para dar sua bênção e Grossman gostou disso. A chuva significava simplesmente que era um bom momento para conhecer novas pessoas.

Agora a chuva já está caindo há muito tempo, mas parecia seguro, e a equipe de palco colocou um disco para tocar. "Born On the Bayou" do Creedence Clearwater tocava no imenso sistema de som para a multidão enorme e, de repente, a Battle of the Bands [Batalha das Bandas, antigo programa de TV] da noite anterior se tornou o Palco Americano [American Bandstand, outro programa de TV]. Trezentas mil pessoas pularam na lama e começaram a dançar. Sacudindo o corpo e balançando a cabeça com a batida, saltando sobre e dentro de novas poças de lixo e lodo.

O impacto de mais de um quarto de milhão de pessoas sentadas tinha sido uma visão e tanto, mas isso era praticamente mais do que qualquer um conseguisse acreditar. Frisbees começaram a voar sobre a multidão em direção ao palco, e os técnicos de som pularam para frente para jogá-los de volta. Depois, houve uma bola de futebol americano, laranjas, sanduíches, o que estivesse mais à mão e pudesse ser jogado em outras pessoas sem machucar ninguém.

Country Joe and the Fish estavam agendados para tocar em seguida, e Barry Melton encurralou o organizador anunciando que a banda queria tocar. "Vocês não podem tocar agora, serão todos eletrocutados!" "Queremos tocar, bicho, queremos tocar agora, não precisamos de eletricidade." "Eles querem tocar", disse um membro da equipe para outro. "Diga você a eles que não podem. Eu não vou dizer". O Fish tocou. Na chuva torrencial, o bom e velho Country Joe and the Fish subiu ao palco e apresentou sua música para a plateia que havia atiçado a banda. Barry agarrou um microfone sem fio, Mark Kapner levantou seu pequeno ukelele e Joe lidou com as bolas de futebol que continuavam quicando no palco. Greg Dewey, o novo baterista, trouxe seu kit, sentou e fez um solo de bateria alto, rápido e dançante que manteve a audiência se mexendo e dançando. Com certeza foi o único solo de bateria que já curti e, quando três ou quatro outros músicos se juntaram a Dewey nos címbalos, ele estava totalmente imerso naquilo, um músico fazendo música para as pessoas à sua frente.

Um cara alto pulou no palco e começou a dançar na beira dele enquanto todos aplaudiam. Então, tirou as calças e dançou nu na chuva, sorrindo como um louco, de braços abertos em um amplo gesto de boas-vindas. Alguém passou uma garrafa de champanhe para a plateia e, depois, toda a comida que pudesse ser encontrada no palco, e o Fish continuou tocando e Joe continuou sorrindo. Eles me lembravam dos palhaços valentes de rodeio que correm para a arena quando um peão é ferido e o touro está pronto para pisoteá-lo. Eles vieram, mas ninguém estava com medo.

O último congestionamento

Sexta-feira, 15 de agosto de 1969, foi o primeiro dia da Feira de Música e Arte Woodstock, agora em White Lake, perto de Bethel, NY, a cerca de 160 km de Nova York e 80 km da Woodstock em si. A intrépida trupe da Rolling Stone pensou que livrar-se do trânsito era uma ideia brilhante, então saímos da cidade no início da manhã. Quando chegamos a Monticello, uma cidadezinha a 13 km do festival, o tráfego era pequeno. Então, chegou nossa vez: treze quilômetros de uma estrada de duas pistas congestionados com milhares de carros que mal se moviam. Os motores ferviam, as pessoas desmaiavam no acostamento da estrada e todos sorriam.

Automóveis quebrados pareciam esqueletos dos cavalos que morreram na Trilha do Oregon. As pessoas começaram a improvisar, dirigindo nos acostamentos de terra até chegarem aos milhares que haviam pensado a mesma coisa e pararem novamente. Finalmente, as duas pistas se transformaram em quatro, mas mesmo assim nada se movia. Turistas gordos e inchados (pois estas eram as montanhas Catskills, a terra dos judeus, cheia de fígado picado e maus comediantes) olhavam para os carros, os esquisitões e os bons moços, com o estômago aparecendo na estrada. Era uma combinação de Weekend e Goodbye Columbus. Aqui estávamos nós, tentando chegar à terra de Hendrix e do Grateful Dead, sob os olhares brilhantes dos fãs de Montovani.

Não havia nenhum controle de tráfego. Ficamos sentados no carro e pensamos todo tipo de solução genial para o problema do transporte, de estradas de pista única a aluguel de ônibus (um plano que falhou no último minuto), mas não havíamos ido a lugar nenhum e já haviam se passado quatro horas. Esta era a estrada no mapa, certo? Nenhum outro jeito de chegar lá? Muitos moleques estacionavam e começavam a andar pelos campos. Jovens que voltavam cansados nos disseram que nada andava mais adiante e que ainda havia 9,5 km para percorrer. Era um congestionamento cósmico, onde todos os carros se encaixam como peças de um quebra-cabeça e ficam ali para sempre.

A polícia estimava que havia um milhão de pessoas na estrada naquele dia tentando chegar ao festival. Um milhão de pessoas. 186 mil ingressos tinham sido vendidos e os promotores achavam que, no máximo, 200.000 pessoas compareceriam. Isso parecia de outro mundo, mas crível, só que ninguém estava preparado para o que aconteceu, nem poderia estar.

Talvez um quarto de milhão nunca tenha conseguido chegar. Eles desistiram e voltaram, ou estacionaram na estrada, armaram barracas na faixa divisória e ficaram por lá. Caramba, eles vieram para acampar por três dias e era isso o que iam fazer. Muitos haviam andado 24 km na chuva e na lama para desistir apenas 1,5 km antes do festival e voltar para trás, mas estavam se divertindo. Acampados na estrada sem ter ideia de onde ficava White Lake ou o que estava acontecendo, eles estavam curtindo, fazendo amigos, dançando com o rádio do carro e fazendo sua própria música em suas próprias guitarras.

"Não é lindo aqui, todas as árvores e campinas? E sempre que fica quente demais, vem a chuva e refresca todo mundo. Uau." "É, claro, mas você pagou 18 dólares, dirigiu desde Ohio e nem consegue chegar ao festival. Está decepcionado? Ou com raiva?" "Não, bicho. Todos são tão simpáticos, é como ficar preso no elevador com alguém quando acaba a força, mas aqui é muito mais legal do que um elevador."

Era uma visão impressionante, a estrada para White Lake: parecia, como alguém disse, o exército de Napoleão se retirando de Moscou. Ficou assim por três dias. Por todos os lugares, havia barracas e fogueiras, carros presos em valas, pessoas andando, deitadas, bebendo, comendo, lendo, cantando. Os jovens estavam dormindo, fazendo amor, caminhando com dificuldade nos pântanos, tentando ordenhar as vacas locais e tentando cozinhar o milho local. O exército da estrada estadual de Nova York Quickway 17B estava em manobras.

Uma visão do segundo dia

Quando penso naquele sábado, uma imagem se fixa em minha mente, e duvido que ela seja compartilhada por muitas pessoas, mas nunca esquecerei. Música folk tocou na noite de sexta, com Joe Baez, Arlo Guthrie, Sweetwater e Ravi Shankar, mas na manhã seguinte, o futuro era incerto e os boatos de que a área havia sido declarada um desastre oficial pareciam bastante críveis. Muitos foram embora na manhã de sábado, sufocados pela falta de água, o calor de 32 graus, os 99% de umidade e a multidão de corpos.

"Amo todas essas pessoas", diz uma garota, "elas são lindas e nunca achei que fosse ficar incomodada com tantas pessoas lindas, mas estou, e vou para casa". Os rostos estavam caídos e cansados, olhares distantes, pernas se moviam lentamente em bolhas e pés doloridos. A falta de água, comida e banheiro estava se tornando difícil, embora todos dividissem e muitos simplesmente andavam pela área com mantimentos com o único objetivo de doá-los. Só que fazia cada vez mais calor e um garoto corria em pânico em direção ao lago, aninhando um cachorrinho nos braços. O animal estava inconsciente, com a língua para fora da boca, e não se movia. O garoto achou que o cão fosse morrer e estava com medo. Ele continuou correndo, eu o mirei e, então, saí do festival e decidi voltar para casa. Não consegui um voo e tive sorte de ficar, mas aquela cena assustadora era real e também fazia parte do festival em White Lake.

Crosby-Stills-Nash & Young

Todos nos EUA haviam visto fotos da multidão. Era maior do que parecia? Quem já tinha visto tanta gente no mesmo lugar com a mesma ideia? Bom, Hitler, o General MacArthur e Mao já tinham, mas esta era uma ocasião um tanto melhor. Elas vieram ouvir a música e ficaram para aproveitar a cena, as pessoas e o campo e, a qualquer momento, independentemente de quem estava tocando, era possível ver milhares se movendo em todas as direções, e mais gente acampada em cada colina e pelas matas. A música se tornou algo que estava acontecendo ali, e era maravilhosa, mas de nenhuma forma era todo o show. O sistema de som magnífico era claro e audível muito além do ponto de onde já não era mais possível ver as bandas, e alguns discutiam sobre o baixista na banda de Janis mesmo sem ter a menor ideia de como era fisicamente.

Pouparei o leitor de uma análise detalhada e crítica sobre apresentação de cada grupo e sobre a validade e o impacto de seu som, música, show no palco e atitude. O impressionante era o peso impensável dos grupos que tocaram. Tomemos como exemplo a noite de sábado e a manhã de domingo (a música deveria ter começado às 13h e continuado por doze horas, mas começou à 15h ou 16h e foi até o meio da manhã seguinte). Veja a programação: Joe Cocker, Country Joe and the Fish, Ten Years After, Band, Johnny Winter, Blood Sweat & Tears, Crosby-Stills-Nash & Young, a Butterfield Blues Band, Sha Na Na (uma banda arrasadora de Nova York que faz versões lindas de sucessos dos anos 50) e Jimi Hendrix. É como assistir Deus durante a Criação do mundo. "E para Meu próximo número..."

A cena no palco na noite de domingo era curiosa. Três bandas estavam ali se apresentando, montando os instrumentos, curtindo os outros músicos: Band, Blood Sweat & Tears e Paul Butterfield. Não havia dúvida nenhuma de que, em termos de prestígio, o Band era o rei da noite, se não para o público, para os outros músicos. Enquanto Helm, Danko e Robertson se sentavam nos amplificadores, ouvindo Johnny Winter, astros do passado e do presente vinham dizer um "oi", apresentar-se e prestar seus respeitos artísticos. David Clayton-Thomas, o jovem vocalista canadense o BS & T, dava um sorriso enorme e um aperto de mão vigoroso - um homem a caminho do topo, com seu grupo líder de vendas no país e impressionando a plateia muito mais do que o Band tinha conseguido naquela noite, mas ainda bastante à sombra dos homens do Big Pink, que tocam música real que vem de histórias verdadeiras.

E então, Paul Butterfield veio. Independentemente do que se pode pensar sobre a qualidade ou a relevância da música de Butterfield no ano de 1969, seu impacto sobre o rock é incalculável e ele é uma espécie de pai da cena moderna, tão crucial para o surgimento de San Francisco ou Bob Dylan quanto qualquer um nos EUA. A primeira banda de Butterfield e seus primeiros álbuns romperam barreiras e trouxeram centenas de músicos que agora são famosos e, se sua estrela está perdendo o brilho e seus álbuns têm vendas modestas, o respeito jovial que o grupo Band mostrou por ele naquela noite era simplesmente uma prova a mais de sua dignidade. Ele é um cara digno - sapatos finos, jaqueta amarrotada, cabelo cortado no estilo do gueto pobre de Chicago. Ele era, na verdade, o único blueseiro no palco, e a maneira como se portava dava uma noção do que essa palavra realmente significa.

Perto das quatro da manhã, a equipe de palco começou a montar o aparato para a banda mais desconhecida do festival, Crosby, Stills, Nash & Young. Esta não era exatamente sua estreia - eles haviam tocado uma ou duas vezes antes, mas esta era uma plateia nacional, em termos de composição factual da multidão e da imprensa e graças à concorrência musical impressionante que enfrentavam. Eles seguiram Band, Winter, e Blood Sweat & Tears.

Demorou muito para que tudo ficasse pronto, e as pessoas no palco se juntavam em volta dos amplificadores, das nove ou dez guitarras, das cadeiras, dos microfones e do órgão, mais empolgadas com a expectativa do que tinham ficado com qualquer outra banda naquela noite. Um semicírculo largo de equipamentos protegia os músicos do restante das pessoas. A banda estava muito nervosa - Neil Young andava a esmo, beijava a esposa, tentava afinar a guitarra em um canto, beijava a esposa de novo, com o olhar perdido, distante da plateia. Stills e Nash andavam para lá e para cá testando o órgão e os microfones e o baterista Dallas Taylor brincava com seu kit e tentava deixá-lo mais que perfeito. Finalmente, começaram.

Crosby Stills e Nash abriram com "Judy Blue Eyes", esticando-a por bastante tempo, explorando as figuras da música para a multidão, fazendo sua música tranquila e fazendo caretas um para o outro quando algo dava errado. Eles desafinavam e retomavam seu caminho pelas outras músicas e começaram a trocar de lugar, Crosby cantando com Stills, depois Nash e Crosby, para um lado e para outro. Eles tinham a plateia nas mãos o tempo inteiro. Muitos comentaram que sua música era perfeita, mas estéril - naquela noite não foi tão perfeita e foi tudo, menos estéril. Eles pareciam ser várias bandas em vez de uma só.

Depois de cerca de meia hora, Neil Young abriu caminho na banda e se sentou com Steve Stills, e os dois se uniram para uma versão acústica extraordinária de "Mr. Soul". Stills tirava um blues pungente de sua guitarra e a voz de Young estava perturbadora e atraente como nunca. A partir daquele ponto, eles simplesmente decolaram, mudaram para o rock e uma eletricidade grata - Nash, Stills, Crosby e/ou Young na guitarra, Young e Stills se revezando no órgão e dois coadjuvantes incríveis, Dallas Taylor na bateria e Greg Reeves no baixo.

Visualmente, é uma das bandas mais empolgantes que já vi, todos os seis membros. David Crosby finalmente se parece exatamente com Buffalo Bill, seu cabelo esvoaçante e bigode torcido brincando com a luz. Steve Stills, do Canadá (era a noite dos canadenses), parecia tão californiano quanto um rato de praia, com cabelo loiro em estilo pajem, usando um poncho mexicano com as ondas Baja Peninsula de que gosta tanto. Graham Nash parecia um desses garotos ingleses vindos de uma infância mal-nutrida, pesando talvez 34 kg, e Neil Young, como sempre, parecia uma foto do livro Let Us Now Praise Famous Men, de Agee, meio gótico, pele e osso, tudo moldado por aqueles olhos esquisitos e penetrantes que têm calor embora mostrem medo. E Taylor! Este sim é um baterista. Ele toca como P. J. Proby canta, balançando a cabeça violentamente, o baterista mais cataclísmico que já vi. Bom, eles conseguiram. Bem em "Long Time Gone", uma música para uma estação, se houvesse uma, com Stills no órgão, gritando os refrãos, Neil mandando ver na guitarra solo, Crosby apontando sua guitarra elétrica de 12 cordas para a beira do palco, mordendo as palavras e as esticando, as letras tão fortes quanto qualquer uma que ouvimos:

There's something, something,

something

Goin' on arrrround here

That surely, surely, surely

Won't stand

The light of day

Oooohhhh!

And it appears to be a long

time...

[Há alguma coisa/Acontecendo aqui/Que com certeza/Não suportará/A luz do dia/oh/E parece ser muito tempo...]

Nunca vi um músico tão envolvido com sua música. Em um momento, Crosby quase caiu do palco em sua empolgação.

Eles estavam no meio da noite de Nova York, na madrugada de domingo, no escuro após três dias de caos e ordem, e parecia ser a última das mil e uma noites americanas. Duzentas mil pessoas cobriam as colinas de um grande anfiteatro natural, fogueiras queimando à distância, as luzes brilhando das enormes torres nos rostos da banda. Crosby Stills Nash & Young foi apenas uma de muitas neste festival e, talvez, não chegaria ao topo se comparada com Hendrix ou Airplane ou Creedence Clearwater ou Who ou a Band, mas esta foi sua noite. Sua apresentação foi uma prova brilhante e assustadora da magnificência da música, e não acho que poderia ter acontecido com tanta potência em nenhum outro lugar. Este foi um festival que triunfou sobre si mesmo, enquanto Crosby e sua banda conduziam o caminho em direção a seu final.

A transfiguração de Blind Joe Woodstock

O grande clichê do festival, ouvido mais antes de seu início do que depois, era este: se Monterey era o começo, Woodstock era o fim. Al Aronowitz, escrevendo no New York Post, falou por muitos quando chamou o festival de "uma vigília". Mas Woodstock/White Lake não foi uma vigília, e sim uma descoberta caótica e confusa de algo novo, algo com o qual nosso mundo agora deve achar um jeito de lidar. Os limites mudaram, foram expandidos, as prioridades foram reorganizadas e ideias novas e "impraticáveis" devem ser levadas a sério. É muito para a cabeça.

O festival constituiu a terceira maior cidade do Estado de Nova York. Declarar seu fim foi como dizer que toda a população de Minneapolis tinha de fazer as malas e ir embora, agora mesmo. Para transmitir seu significado, é necessário buscar metáforas essencialmente inúteis sobre estrelas no céu ou pessoas na China. Bom, se você colocasse todos em uma fila, eles iriam e voltariam da linha do Equador cinco vezes. Entendeu? Mas todos ali eram fãs de rock, sabiam dançar, tinham suas bandas favoritas e pediam suas músicas preferidas. Todos andam com pessoas como essas, mas, desta vez, parecia que todas elas estavam em um só lugar ao mesmo tempo. Só que não estavam - ainda não.

Os problemas logísticos que teremos de enfrentar nos próximos anos do rock são, essencialmente, emocionais. Havia centenas de milhares de pessoas, privadas entupidas, lixo e comida insuficiente principalmente porque a música é emocionante e porque o estilo de vida que alguém pode ter por alguns dias nas montanhas Catskills é mais atraente para uma quantidade imensa de jovens e adultos em retiro do que qualquer outra forma de existência.

Janis Joplin e Creedence Clearwater são mais importantes do que se pode pensar não porque defendem alguma mensagem política misteriosa, e sim porque, quando as pessoas os ouvem, ficam empolgadas e extasiadas e se sentem mais vivas. Esta sensação é uma que as pessoas devem ter, e para chegar a isso, centenas de milhares delas aguentarão todo tipo de provação e sofrimento que considerariam intolerável nas circunstâncias normais da cidade ou de bairros afluentes. E a música e aqueles que a tocam para platéias enormes agora são tão bem estabelecidos, tão impressionantes e tão magníficos que quem vem ver e ouvir não precisa mais descontar suas raivas e frustrações nos outros - agora as pessoas podem levar as estrelas como referência, fechar fronteiras e construir suas comunidades instantâneas. Por um fim de semana, ou alguns dias, elas podem viver sob suas próprias regras sem pensar em rebelião.

Acho que este é um ponto importante. No festival, milhares podiam fazer coisas que normalmente seriam consideradas rebeldes, nos termos de alguma teoria sociológica absurda que alguém pode querer adotar. Vender e usar todo tipo de droga, dançar aqui, ali e em todo lugar, nadar, fazer canoagem ou correr por aí nu e, acredite se quiser, ficar acordado a noite toda - era possível fazer tudo isso simplesmente porque era divertido, não porque esses atos representam pontos ganhos contra os pais, Richard Nixon ou o Seleções do Readers' Digest.

O festival de Woodstock ofereceu um ambiente e um contexto nos quais todas essas coisas e muitas mais eram naturais, sedutoras e óbvias. O agora famoso Dope Supermarket é um exemplo disso. No meio da mata, na encruzilhada entre a "Groovy Way" e a "Gentle Path", ao lado de uma cara loja de contas, vários comerciantes de drogas chamam a atenção para sua mercadoria. "Haxixe? Ácido? Mescalina realmente boa?" "Quem tem ópio?" "Ele tem, ele, o cara de jaqueta vermelha." "Quem tem erva?" "Só resta uma, bicho, vem pegar." E assim por diante, o sonho de Robert Crumb realizado. Era um espetáculo impressionante simplesmente porque fazia muito sentido - muitas pessoas queriam aquilo, então um ponto central de negociação foi montado onde tudo estava disponível.

Um fotógrafo chegou. "Ei", gritou o homem com o ópio, "tire uma foto minha". Não havia uma sensação de tirar de policiais a chance de uma apreensão. Garotos que tiveram seu primeiro gosto de drogas, sexo ou nudez em Woodstock podem se lembrar, mais tarde, de que pelo menos alguém acharia que esses atos eram errados, mas no festival era algo tão natural quanto atravessar a Main Street ou pegar o metrô.

Isso não é dizer que a repressão sumiu da noite para o dia, totalmente, e sim que o festival criou e ofereceu um lugar de liberdade. Os promotores abriam o caminho, levaram a música, construíram um sistema de som do jardim suspenso da Babilônia e os jovens fizeram o resto. O problema agora é encontrar uma forma de esses festivais continuarem, com um conhecimento claro de que o público não pode ser limitado por vendas de ingressos ou algo assim.

Poderíamos reduzir o tamanho, fazer festivais com uma ou duas "atrações principais" em vez de festivais onde todo mundo e ninguém é o artista principal. Poderíamos categorizá-lo, com "festivais folk" e "festivais de jazz" e "festivais de blues" e festivais locais. Todas essas possibilidades são boas e acontecerão, mas, depois de Woodstock, devem ser vistas, pelo menos até certo ponto, como meros dispositivos para conter o número de pessoas que queremos que estejam ali. O real desafio é reconhecer que Woodstock foi verdadeiramente a Terra de Oz, que quem estava lá desejará encontrar uma maneira de voltar e que quem ouviu sobre ela desejará ir para lá.

Woodstock iniciou a série de concertos que duram a noite inteira com uma sequência impressionante de bandas - um festival verdadeiramente nacional, hemisférico, na verdade, pois o Canadá contribuiu com muito do que houve de melhor. Ótima música da tarde até a manhã, como os concertos na Índia, só que aqui era possível ver praticamente todos de uma só vez. Alguém podia se sentar e curtir os melhores grupos do mundo, e se Ike e Tina, B.B. King, Aretha, Sam, Dave e Blind Faith não estiveram ali, estarão, e se Bob Dylan, Stones e Beatles não estavam ali, estarão, se um festival desses puder ser realizado várias e várias vezes.

Os problemas logísticos são os menores. Todos sabem agora que as pessoas devem ser levadas de ônibus desde estacionamentos-satélite, que o festival dever durar uma semana - talvez dois ou três dias antes e depois de cada show principal, que tem de haver dois ou três palcos em vez de um, com entretenimento simultâneo em cada um deles. Além de lixo, água, comida, etc. Esses problemas são pequenos não porque não será necessário um esforço tremendo para lidar com eles, e sim porque eles são essencialmente simples. O problema real é o público.

Nos Estados Unidos e no mundo, os jovens curtem rock 'n' roll. É a coisa mais importante de suas vidas - o novo álbum de Janis Joplin é mais importante do que a chegada à Lua. Se dois terços dos EUA podem assistir à aterrissagem na Lua, alguma produção equivalente deve ocorrer para permitir que os roqueiros ouçam rock 'n' roll. Planeje um festival como Woodstock para 150 mil pessoas e você atrairá quase um milhão. Planeje o ano seguinte para um milhão e você conseguirá dez milhões. Continue planejando e você vai se afundar cada vez mais no buraco. As vendas de ingressos não serão suficientes. Conseguir que as bandas toquem de graça não será suficiente. Para o bem ou para o mal, estamos além desses tipos de soluções. Também não podemos recorrer a cercas eletrificadas, cães policiais, gás lacrimogêneo e o restante da parafernália norte-americana contemporânea para manter o público "legítimo" separado do restante da população rock 'n' roll.

Provavelmente, uma tentativa terá de ser feita para conseguir que as gravadoras financiem o próximo festival nacional, seja ele realizado em Woodstock, Mill Valley ou Toronto. Ele deve ser considerado com a mesma atenção dada aos Jogos Olímpicos, o que é exatamente o que este festival foi, só que mais parecido com os Jogos de 2500 anos atrás do que com os atuais. Se diminuirmos o tamanho, para um festival que consiste de pouco mais de três atrações do Fillmore East ensanduichadas, também reduziremos as maiores possibilidades do rock 'n' roll.

Trezentas mil pessoas absorvendo o que acontecesse em volta delas e um novo desafio a suas entranhas e sua ingenuidade, sentadas em uma montanha a noite inteira para ouvir seus artistas favoritos tocarem, trabalhando para eles, fazendo novas descobertas sobre os outros e a terra dia após dia, curtindo, agora Janis! Sly Stone! O Airplane! O Dead! The Who! A Band! Hendrix - este é só o começo - ou o final - e agora temos de sentar e descobrir como fazer isso funcionar.

Tradução: Ligia Fonseca