Baixista do Kasabian fala à RS Brasil

Chris Edwards defende a cruzada antipirataria de Lily Allen e desmente boatos sobre Noel Gallagher na turnê da banda

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 04/10/2009, às 04h43

Corta para 1999: gênese de duas instituições prestes a pegar a cena indie pelo colarinho e sacudir dali muito do hype estabelecido nos anos seguintes.

Uma delas, o Napster, teve vida curta: em 2001, uma ordem judicial deu rasteira no site pioneiro em compartilhamento de arquivos. Pirataria 0 x 1 indústria fonográfica.

Outra cria de 1999 é o Kasabian, banda britânica que não decretou o fim da velha cena musical como antes a conhecíamos, mas tem lá seu cafofo garantido no coração de mãe que é a causa indie.

Corta para a época atual: dez anos depois, o Kasabian lança seu terceiro álbum, West Ryder Pauper Lunatic Asylum, que traz na capa todos os integrantes em fantasias dignas de ganhar ala na Unidos do Asilo dos Loucos do Motociclista Indigente do Oeste (a tradução do título dá algo por aí).

O sucesso não chegou de imediato. Antes de estourar com o single "Reason Is Treason", em 2004, os rapazes do condado de Leicestershire se valiam do mesmo método usado por você e seus amigos músicos: divulgação maciça na internet (inclusive em fóruns de discussão de grupos como o Libertines, já de paquera com as paradas de sucesso).

O baixista Chris Edwards conversou por telefone, de sua casa em Leicestershire, com a reportagem do site da Rolling Stone Brasil esta semana. Pelo ar de "eu não mexeria comigo se fosse você" que estampa na capa do novo disco, ele foi descrito pelo companheiro de banda Sergio Pizzorno (guitarra) como "este pequeno indigente (...) prestes a perder a sanidade, lendo a literatura dos loucos". Só que Edwards é bem mais prudente ao discutir a influência da internet, essa ferramenta que catapultou o Kasabian ao estrelato indie - nunca estratosférico, mas o suficiente para deixar um novo artista sem os pés no chão.

"Todo mundo que respeita música deveria apoiar o artista", o músico opinou sobre o debate que vem polarizando a opinião pública europeia.

Se você acabou de chegar de Marte, a história é a seguinte: há algumas semanas, Lily Allen se fez de promotora de uma espécie de inquisição contra os "hereges do torrent". Mais do que levar puxão de orelha, a pessoa que baixar um arquivo protegido por direitos autorais deve ser desconectada da internet, apoia a (ex?) cantora. A França já se muniu de arapucas legais para armar essa fogueira. Agora, o Reino Unido discute se faz ou não faz biquinho para dizer "não" à pirataria (a FAC - Featured Artists Coalition - já mudou de ideia e endossou a causa de Allen).

Uma das melhores memórias sobre a passagem pelo Planeta Terra, em 2007, foi, justamente, "a maravilhosa Lily", que também se apresentou no festival. Edwards reforça: "Definitivamente, estou do lado de Lily. Se você gosta de um artista, vai lá no MySpace e escuta umas duas músicas. Curtiu? Legal. Compre o álbum".

Edwards - que, junto a Pizzorno, Tom Meigham (vocalista) e Ian Matthews (bateria), forma uma das bandas mais resistentes ao vaivém roqueiro do século 21 - entende o poder da internet. Claro, sua fala, a princípio, parece uma bela cusparada no prato em que o Kasabian se fartou, até chegar ao cômodo ponto em que pode comer nos restaurantes mais bacanas da cidade sem se preocupar com a conta.

Só que a rede, vamos combinar, não é fácil. O problema é que boatos, na maré virtual, formam correnteza difícil de enfrentar. Um deles dava conta de que a banda teria DVD dirigido por Quentin Tarantino ("seria maravilhoso, isso ou tocar numa trilha dele, mas ninguém fez esse contato, cara").

Outro desconfortos do baixista foi ver o nome de Noel Gallagher - agora ex-Oasis - associado à turnê do Kasabian. "Olha, talvez um ou dois [shows], num futuro distante. Sim, isso seria legal", Edwards relativiza a presença de Gallagher nos planos da banda.

Nada contra o irmão de Liam. Ou qualquer membro da família Gallagher. Algumas faixas de West Ryder Pauper Lunatic Asylum levam, inclusive, muito da sonoridade dos manos de Manchester. Por falar nisso, veja só, o Kasabian teria recentemente se declarado sucessor natural do Oasis, segundo a mídia britânica.

Mas, ao passado recente da música britânica, ele reserva no máximo um tapinha nas costas. Ao falar dos dois grandes nomes do britpop que encharcou as rádios na década passada, Edwards mostra cortesia ("eles farão falta"). Dá, em compensação, veredicto mais cruel para responder se a paralisia do Blur e a dissolução do Oasis vão afetar a saúde da cena britânica. "Não, não. A indústria definitivamente vai ficar bem."

Com participação da atriz Rosario Dawson ("West Ryder Silver Bullet"), toques de psicodelia (Syd Barret teria sido influência) e produção de Dan the Automator (Gorillaz), West Ryder Pauper Lunatic Asylum faz referência ao "hospício do indigente". Já Edwards, ao telefone, mostra-se um camarada são. Tenha o controle, ele ensina. "Festejemos, bebemos - e sei lá mais o quê. Mas são duas caras. Há um lado do Kasabian que você provavelmente nunca irá conhecer."