Rock, baladas e a primeira apresentação de Mallu e Camelo

Rolling Stone Brasil comemora três anos com show exclusivo da dupla e setlist incendiário do trio-virtuose Macaco Bong

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 23/10/2009, às 23h30

Marcelo Camelo e Mallu Magalhães apresentaram, juntos, músicas de seus discos solo; à esquerda, Rob Mazurek, trompetista norte-americano

Ver Galeria
(2 imagens)

Março de 2008. Marcelo Camelo foi ao Cinemathèque, espaço noturno carioca, conferir pela primeira o show de uma tal guria de 15 anos que dava nomes engraçados aos instrumentos (como o violão Lobster Lebster) e estava na boca do povo. No mesmo mês, a Rolling Stone Brasil publicava a primeira matéria sobre Mallu Magalhães, paulistana que, entre uma aula de matemática e outra de história, estourou no MySpace, com as assobiáveis "Tchubaruba" e "J1".

Pouco mais de um ano e meio se passou até que os dois, agora namorados, fizessem o primeiro show completo juntos, na festa de três anos da RS Brasil, na quinta, 22, no Bourbon Street. À reportagem deste site, horas antes dos primeiros acordes na casa de shows em Moema, Marcelo Camelo contou que, para fazer seu primeiro disco solo, escutou basicamente três sons: a pianista Guiomar Novaes, Racionais e Mallu. "A influência veio da naturalidade dela. Nem todo mundo acha o caminho entre a palavra e o coração", disse o (ex?) Los Hermanos.

Não deixa de ser curioso: lido de ponta-cabeça, Sou, o solo de Camelo, vira, naquela grafia particular, Nós. Na noite de quinta, em particular, ele e ela, pela primeira vez no mesmo palco como "Marcelo e Mallu", depois de participações especiais em shows um do outro. Os dois não assinam composição em parceria: no repertório, músicas do álbum solo de Camelo ("Mais Tarde", "Tudo Passa", "Liberdade"), do Los Hermanos ("Morena") e do próximo trabalho de estúdio de Magalhães, entre elas "Nem Fé Nem Santo" e "You Ain't".

A dupla foi acompanhada por alguns integrantes do Hurtmold, que já tocavam com Camelo, e dois músicos de fora: Rob Mazurek, trompetista de Chicago, e o suíço Thomas Rohrer na rabeca (ambos com passagem pelo Hurtmold). Valeu a soma de todas as partes: com as competentes passagens instrumentais, canções ganharam novas texturas enquanto, no mesmo saco, vigor e delicadeza dividiam espaço sem se acotovelar. Uma sonoridade aparentada àquela do homem da dupla, em fase solo e com os Hermanos, e que deixa a pós-infância da garota cada vez mais para trás.

O maior estranhamento veio na faixa mais esperada da noite: "Janta", parceria com sobreposição de vocais, em inglês e português, que os dois prepararam para Sou. Poucos acordes depois e Camelo põe o violão de lado. As estrofes, na releitura dela, viram um sussurro incompreensível. Muito barulho. Marcelo reclama. Após "Morena", engatada na sequência, reitera o desabafo ("esta é a última. Tinha mais coisas, mas não dá assim"), mas quebra o gelo em seguida: "É um ambiente festivo, nós também vamos curtir depois, dançar". Com menos açúcar que afeto, os "cúmplices" fizeram uma apresentação que derramou em ternura sem respingar sentimentalismo barato.

Virtuosos, mas com personalidade

Quem já viu um show do Macaco Bong, sabe que a primeira impressão não se sustenta. Isso porque, de forma inspiradora para qualquer garoto que irritava os pais ao responder "estrela do rock" em vez de "médico" ou "advogado" sobre o que queria ser quando crescesse, os cuiabanos parecem se superar a cada apresentação.

Segunda atração do aniversário de três anos da revista, o trio instrumental formado por Bruno Kaypy (guitarra), Ney Hugo (baixo) e Ynaiã Betholdo (bateria) mostrou mais uma vez que técnica e paixão podem dividir a mesma calçada, em repertório que contou com covers de Nirvana, The Police, Morphine, The Presidents Of The USA (celebrando os grandes trios do rock, tema da festa) e jam em cima da trilha de Missão Impossível. Outra parte veio do álbum de estreia do Macaco Bong, Artista Igual Pedreiro, eleito o melhor disco nacional de 2008 pela RS Brasil.

Kayapy tem tatuado no braço esquerdo "69", que remete à guitarra Fender Stratocaster usada por Jimi Hendrix no Festival de Woodstock. Faz sentido. Afinal, se há uma lição a ser tirada da apresentação de quinta, é a de que o Macaco Bong faz parte da mesma escola que tem no guitarrista norte-americano seu mais reconhecido graduado: ser virtuoso, sim, ousado idem, careta jamais.