“Nunca nada tinha me falado de uma forma tão direta”, diz Walter Salles sobre o livro Pé na Estrada

O diretor e a atriz Alice Braga falaram em coletiva sobre a importância da obra, adaptada por ele no filme Na Estrada

Stella Rodrigues Publicado em 02/07/2012, às 16h09 - Atualizado às 16h21

Walter Salles
AP

O cineasta Walter Salles e a atriz Alice Braga se reuniram com a imprensa na tarde desta segunda, 2, para falar sobre Na Estrada, filme dirigido por ele e com atuação dela que estreia no Brasil em 13 de julho. Ambos leram o livro que baseou a produção, Pé na Estrada mais ou menos aos 18 anos e são muito fãs da publicação de Jack Kerouac de 1957. Porém, o diretor quis ressaltar que “ser fã não era necessariamente um passaporte para saber adaptar”.

"É sobre experimentar cada momento como se fosse o último. Foi um antes e depois na minha vida quando li o livro. Nunca nada tinha me falado de uma forma tão direta. Aqueles personagens tinham a mesma idade que eu tinha quando li e eram sedentos pela liberdade de todas as formas. Tudo aquilo parecia me dizer a respeito e, no entanto, era de uma cultura que não era minha", disse Salles sobre o livro.

Na Estrada tem no time de atores, além de Braga, um grande elenco, com performances invejáveis de Sam Riley, Garrett Hedlund e Kristen Stewart. A brasileira, que aparece bem pouco, vive Terry, camponesa que tem um rápido romance dom Sal.

O diretor foi escolhido para esse trabalho por Frances Ford Coppola, detentor dos direitos de adaptação do livro, após seu trabalho em Diários de Motocicleta, filme de estrada para o qual também buscou muita inspiração em Pé na Estrada. Porém, para transformar este livro em longa, foi além: refez duas vezes o trajeto percorrido pelos protagonistas Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e, no processo, rodou um documentário, entrevistando diversas personalidades ligadas de várias formas à cultura beat (a qual o livro pertence), como Diane di Prima e Eduardo Bueno.“Reencontrei pessoas que viveram essa época e pessoas influenciadas pelos livro, como Wim Wenders. Foi incrível. Conheci pessoas de 80 anos ainda jovens. É um documentário sobre tornar um filme possível", definiu. Salles citou em diversos momentos pílulas de aprendizado adquiridas nessas entrevistas e afirmou ter vontade de terminar de montar o doc até o fim do ano. Um brasileiro adaptando uma história tão tipicamente norte-americana levantou sobrancelhas, mas Salles garantiu que estudou e bastante para fazer jus ao livro. “Eu já tinha vivido isso em Diários de Motocicleta. Como vocês sabem, eu não sou argentino, nem cubano. Por isso, pesquisei e viajei muito antes de fazer o Diários. Agora foi a mesma coisa."

Sobre Alice, ele contou que realizou um desejo de ambos com essa parceria, definindo a presença dela no set como “luminosa”. "Ela transmitiu muito bem a questão da independência dessa mulher, Terry, que tinha um filho em uma sociedade ainda conservadora, dos anos 40, e que leva o personagem Sal para a tenda dela para fazer amor com o menino lá dentro. Ela não sente essa culpa católica da qual o autor queria se desfazer.”

Alice contou que a parte mais difícil da preparação foi aprender a colher algodão manualmente, prática tão antiga que a produção teve dificuldade para encontrar locações nos Estados Unidos onde pudessem rodar as cenas. No mais, acrescentou que realizou um sonho ao trabalhar com Walter. “Ele coloca seus personagens em verdadeiras jornadas, que não são só físicas, também são emocionais. Quando ele me mandou o e-mail eu quase comecei a chorar. Ele é alguém que faz uma diferença no nosso cinema", afirmou a atriz.