O adeus de Little Richard, o pai do rock 'n' roll

Menos música e mais tempo para criar roupas: a primeira força indomável do rock completa 80 anos

Rolling Stone EUA / Neil Strauss Publicado em 09/05/2020, às 12h40

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Little Richard (Foto: Patrick SemanskyAP)

"Simplesmente agradeço a Deus por estar vivo", diz Little Richard. "Nunca imaginei que viveria até os 80. Sou o único da minha família a chegar a essa idade". Anos atrás, não parecia que ele, um dos primeiros e mais influentes – se não o mais influente –cantores/compositores/pianistas da história do rock, completaria 80 anos.

Richard estava no Howard Theatre, em Washington, para um dos poucos shows que fez nos últimos cinco anos. Levado ao palco em uma espécie de cruzamento entre um trono, um banco de piano e um móvel de jardim, ele foi colocado à frente do piano, usando um terno de paetês azul que não lhe servia mais.

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"Tudo bem, senhoras e senhores", proclamou, iniciando a apresentação que abre os shows há mais de meio século. "Sou o lindo Little Richard, de Macon, Georgia".  Só que, naquele momento, a introdução foi de grandiosa a mortal, quando ele passou a falar sobre a operação de substituição do quadril que fez em 2009 e sobre como os cirurgiões não conseguiram remover o osso quebrado.

"Sinto dores 24 horas por dia", ele concluiu e, em seguida, começou a tocar "Blueberry Hill", que ficou mais conhecida na voz de um amigo que ainda o visita, Fats Domino. Cada música que apresentou naquela noite vinha de um lugar mais profundo de dor – não emocional, mas física – até que, finalmente, no meio de "Tutti Frutti", bem depois do primeiro “aw-rooty”, Richard implorou: “Jesus, por favor me ajude. Mal consigo respirar”. No entanto, ele seguiu, determinado a dar ao público o que esse queria ver, lutando para cantar "Long Tall Sally". Por um momento, parecia que Little Richard cantaria até morrer – e finalmente foi carregado para fora do palco.

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Quinze minutos depois, estava sentado em uma cadeira de rodas, sozinho. "Estou doente", disse como um pedido de desculpas, como se estivesse decepcionado com o próprio corpo de não conseguir mais acompanhar o espírito. "Fiquem próximos de Jesus", aconselhou, limpando sangue que saía do nariz e da boca com um lenço. "O mundo está chegando perto do fim. Preciso de um copo".  Enquanto cuspia mais sangue dentro do copo, dois fãs entraram, esperando tirar uma foto com ele. Apesar da condição, Richard aceitou, olhou para a imagem e comentou: "Fiquei com a cabeça grande – tire outra".

Há 70 anos, quando ele era simplesmente Richard Penniman, as crianças o chamavam de Cabeção, e evidentemente o eco dessas provocações continua. Desde a infância, fosse insistindo para ser a mãe nas brincadeiras de casinha ou ganhando uns trocados como curandeiro espiritual, Penniman vive em uma realidade própria, com os elementos de uma personalidade extravagante intocável. Ele se proclama “o Arquiteto e Originador do rock”, embora, na verdade, seja um dos vários fundadores do gênero; quando lhe perguntam, responde que também é chamado de “Quasar do Rock” e reflete: “Havia outro rapaz em Atlanta, Billy Wright, mas eu que comecei”.

Quase um ano depois daquele fatídico show, Little Richard telefona do nada para continuar a conversa. Com energia e otimismo renovados, anuncia que o plano é “continuar vivendo o máximo que conseguir e garantir que meu legado seja o que deveria ser”. 

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"Acho que meu legado deve ser tal que, quando comecei no show business, não havia o rock", afirma Richard. “Era ‘balance com Sammy Kaye’. Era John Lee Hooker, Elmore James – e então, depois de um tempo, vem Chuck Berry. Quando comecei com ‘Tutti Frutti’, foi quando o rock realmente começou a sacudir, com ‘wop-bob-a-loo-bop-a-lop-bam-boom’, sabe?” Richard enuncia a frase de forma percussiva e levemente diferente da gravação original. “Quando encontro as pessoas hoje, elas não sabem disso.”

Ao ouvir a pergunta sobre se sua música na época vinha da frustração que precisava expressar ou de uma alegria que precisava extravasar, ele responde: “Era uma dor e, então, uma alegria impressionante. Queria expressar as duas coisas”. A alegria, explica, vinha de Deus. Quanto à dor: “Minha mãe teve 12 filhos. Meu pai foi assassinado aos 40 anos pelo meu melhor amigo. Então, minha mãe precisou de ajuda. Era muita dor, mas muito amor”. Ele reflete por um momento. “Então a dor não era dor. Era a dor do amor.” Richard mastiga as palavras e, depois, exclama: “Isso deveria ser uma música, ‘A Dor do Amor’. Gosto disso. É bonito.”

Quanto a gravá-la um dia, isso parece improvável. Ultimamente, Little Richard tem passado o tempo desenhando roupas, rezando a Deus para proteger seus funcionários de longa data e a família deles de um apocalipse divino que sente ser iminente e enviando suas roupas antigas para o Museu Smithsonian. Sobre a música, ele diz, decisivamente: “De certa forma, para mim já deu, porque não sinto vontade de fazer nada agora”.

[Este texto foi originalmente publicado na Rolling Stone EUA e traduzido para a edição 84 (Setembro/2013) da Rolling Stone Brasil]


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