"O Brasil não é só café, bunda e futebol"

Nelson Alvarenga, dono de 50% da InBrands, poderoso holding da moda brasileira, cobra "mão na massa" dos conterrâneos; Adriana Bozon, estilista da Ellus, explica coleção "motoqueira"

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 20/06/2009, às 15h46

A Ellus apostou em coleção inspirada em Easy Rider e O Selvagem da Motocicleta

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Se o mundo da moda brasileira fosse um tabuleiro de War, a holding InBrands seria o mais próximo que teríamos da dominação do país. Sob seu poderio estão as principais semanas de moda tupiniquins, São Paulo Fashion Week e Fashion Rio, e as grifes Ellus, Alexandre Herchcovitch, Herchcovitch Jeans, Isabela Capeto e 2nd Floor.

São dois capitães a tocar esse exército. Metade pertence ao Banco Pactual, com suas dezenas de sócios. Outros 50% pertencem a um só homem: Nelson Alvarenga. Presidente do conselho da Ellus, marca que apresentou sua coleção na sexta, 19, na SPFW (você confere imagens do terceiro dia de desfiles ao lado), o estilista e empresário explicou à reportagem do site da Rolling Stone Brasil por que o Brasil, do jeito que está, passa longe de ser um "global player" (jogador global) no bilionário mercado da moda. "A gente exporta é carne. Bunda. Mas [o país] não é só café, bunda e futebol."

Há 37 anos - quando tinha, portanto, 22 -, Alvarenga criou a Ellus, uma das pioneiras no jeanswear, hoje revendida em 800 multimarcas espalhadas pelo mundo. "37 é um clássico", diz, e que a modéstia vá dar uma voltinha. Se há alguém que entende de poder, ele é o cara. E, para os novatos que quiserem mandar tão bem quanto ele, vai o conselho: menos afobação. Ao menos no sentido "sou novo, posso tudo, o mundo que me aguente". "Jovem desperdiça muita energia. Se deixar levar, e aí é papo, bebida, dança - e acordar bodeado no dia seguinte. A mentalidade é muito adolescente. Quer dizer, o Brasil é um jovem em potencial. Adolescente é pejorativo, né?" Em outras palavras: escolha entre enfiar o pé na jaca ou a mão na massa.

Pois, curiosamente, a coleção verão 2010 da marca, assinada por Adriana Bozon, subiu na garupa de um grupo que, pelo menos segundo crença popular, adora bater um papo, beber, dançar - e acordar bodeado no dia seguinte. O espírito livre dos motoqueiros - "aquele vento na cara, hard rock, sabe?", disse a estilista - foi inspiração para macacões brancos e jeans manchadas ("como manchas de óleo"), além das calças menino-menina ("para usar com namorado"), mais soltinhas na coxa e afinadas na barra.

Caixas de som estrategicamente posicionadas faziam a música "rodar" a sala de desfile, "para passar essa ideia de movimento", segundo Bozon. Para dar um empurrãozinho na sensação de "pise fundo e não olhe pra trás", havia ainda uma estrutura com tubos de luzes que se alternavam, erguida no começo da passarela e de onde os modelos masculinos e femininos surgiam com suas roupas inspiradas em Easy Rider e O Selvagem da Motocicleta.

Entre o pragmatismo de Alvarenga e o "caminhando contra o vento" da coleção de Bozon, há o desejo de expandir os negócios para outras bandas. Desejo que a estilista fez questão de expressar para duas mocinhas da MTV Rússia (!), que a chamaram para uma entrevista ("eu quero muito ir para lá!"), e para a repórter argentina que quis saber se a Ellus tem planos para chegar até os hermanos. "Vontade existe. Falta é parceiro! Você conhece algum?"

Confira a cobertura do primeiro primeiro e do segundo dia de desfiles da SPFW.