O brasileiro está preparado para ter música nos stories do Instagram? [OPINIÃO]

A partir de terça-feira, 25, Facebook, que é dono do Instagram, habilitou todos os produtos musicais das plataformas da rede social para o Brasil

Pedro Antunes Publicado em 26/06/2019, às 11h46

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Na madrugada, o rapaz cuja @ do Instagram será mantida em sigilo para poupá-lo da exposição, publica um vídeo só com a imagem dos pés de meias esticados sobre o sofá. Ao fundo, toca a música “Ouvi Dizer”, do grupo Melim, com versos como “Só ouvi dizer / Que quando arrepia já era / Coisas que eu só entendi / Quando eu te conheci”. De certo, ele passará os próximos minutos na rede social, a esperar pelas (muitas? poucas?) respostas da indiretinha.

Ela, outra @ poupada da exposição, grava imagens do teto do quarto, com a luz ainda acesa e opta pela trilha sonora de Jão, “Me Beija com Raiva”. Está com o coração partido e quer que seus 764 seguidores (até a madrugada desta terça, 25, para quarta) saibam disso.

É possível que tenha passado por alguma cena assim, ou semelhante, nos stories do Instagram ou do Facebook. Antes uma função que só funcionava quando se estava nos Estados Unidos e Europa, a opção de acrescentar música nos stories (aqueles vídeos curtinhos de 15 segundos que são sucesso nas redes sociais) foi habilitada em território brasileiro e as redes já estão em polvorosa. E cheia de indiretas.

O que nos leva à questão-título: estariam os brasileiros preparados para ter a função de música habilitada nos stories do Instagram?

Teríamos maturidade para acessar um catálogo de milhões de músicas à disposição prontas para serem publicadas de forma rápida nos stories?

Caso você não tenha ideia do que estamos tratando aqui, um resumo. Os stories, aqueles vídeos de 15 segundos e fotos que existem só por 24 horas no Instagram e Facebook, agora possuem a funcionalidade de se escolher uma música de um catálogo gigante, escolher um trecho dela, de no máximo 15 segundos e acrescentá-las nos seus vídeos, assim como os gifs, as perguntas, as votações e etc. Você certamente já passou por algo assim, como o exemplo abaixo: 

No exterior a funcionalidade estava disponível desde outubro de 2018, o que era uma grande chateação para quem estava no Brasil. O amigo viajava, postava vídeos na neve, sozinho, acompanhado de alguma música do John Legend, e quem estava por aqui não poderia ouvi-la porque o Instagram avisava que a função não estava habilitada em território nacional. Ou o grupo de amigos, endinheirados, postavam vídeos da festa que estavam fazendo em um barco no Mar Mediterrâneo ao som de Diplo, dá na mesma.

Agora podemos, bem aqui, sentados à janela de um ônibus lotado, a caminho do trabalho, filmar nossos próprios rostos cansados mesmo que ainda seja quarta-feira e acrescentar uma música como “Either Way”, do Wilco, para mostrar para os nossos seguidores como estamos trabalhando demais e, mesmo assim, somos muito descolados.

Abre-se uma caixa de Pandora que talvez jamais devesse ser aberta. Porque nossa relação com as redes sociais tem se transformado e tornado em uma dependência enorme. A validação de um like, um comentário ou uma resposta tem se tornado cada vez mais importante no dia a dia das pessoas que frequentam dedicam mais tempo às redes sociais do que aos encontros com os amigos, por exemplo.

Isso é bastante sério, é claro, mas não é exatamente o sentido desse texto. O fato é que o Instagram mudou a forma como as pessoas se relacionam romanticamente. Até o Tinder, app de paquera, perdeu espaço depois que os stories se popularizaram. São várias táticas para fazer com o que o crush, aquele, aquela, aquelx, note a gente: like em foto antiga no meio da madrugada; assiduidade em assistir aos stories assim que eles são publicados: interações com por mensagens diretas, enfim, as opções são muitas e eu sei que vocês dominam várias delas.

Com a ferramenta de incluir música, o Instagram (e o Facebook, empresa dona da rede social) dá mais uma opção de jogada para os paqueradores virtuais, que já estão se esbaldando, suponho.

E se os stories serviam para as paquerinhas, eles também são uma opção das mais funcionais para dar uma indireta para alguém. Está bravo com algum companheiro de trabalho? Que tal publicar uma foto de cara emburrada na mesa com a legenda "quem gente que não dá nem bom dia, né?". Os amigos deram uma bola fora? Uma opção é publicar uma foto de taça de vinho na noite de sexta-feira com a legenda "às vezes, estar sozinho é a melhor forma de #sextar".

Imagine você, portanto, como tudo isso se multiplicará agora com a possibilidade de músicas como "Earfquake", de Tyler, The Creator, inundarem suas timelines em posts de pessoas arrependidas ao perder um grande amor? E "Medo Bobo", de Maiara & Maraísa (embora eu, particularmente, prefira a versão do Rubel), que certamente estará entre as líderes do ranking das indiretas para os amores que ainda não aconteceram porque falta coragem em uma das partes?

Para não soar leviano e desconectado com a realidade, postei eu mesmo um story na manhã desta quarta, 26, na qual perguntava se "o brasileiro está preparado para ter música nos stories do Instagram?". Em duas horas, a opção de resposta "é claro que não" vencia de lavada a resposta "sim, temos maturidade", com 71% dos votos. Ou seja, estava no caminho certo.

Ao longo da minha existência virtual, sempre tive a impressão que as pessoas sequer aprenderam a lidar de forma ma-du-ra com todas as possibilidades de interação os stories antes de existir a opção de usar as músicas - eu, mesmo, sofri com elas. Agora, então, temo pelo pior. E não me responsabilizo pelas minhas próximas postagens bregas.


* Pedro Antunes é editor-chefe da Rolling Stone Brasil, tem um programa de música feito nos stories do Instagram chamado Tem um Gato na Minha Vitrola (siga aqui) e, na verdade, está bem feliz com a possibilidade de colocar músicas de forma legal nos seus vídeos.