O caso de Penny Lane: Beatles, traficante de escravos e o final da polêmica

Origem do nome da rua causou controvérsia por suposta homenagem a James Penny, comerciante de escravos do século 18

Brenna Ehrlich, da Rolling Stone EUA Publicado em 23/06/2020, às 13h30

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Os Beatles (Apple Corps Ltd 2009)

As placas de Penny Lane, alameda em Liverpool, geralmente são decoradas com grafite: nomes, datas, bons desejos para os Beatles, responsáveis por eternizar o endereço no hit de 1967 da banda. Neste mês, porém, os rabiscos mudaram: a palavra “Penny” foi coberta com tinta preta e a palavra “racista” escrita nas placas. Uma velha teoria ligando a rua a um notório comerciante de escravos ressurgiu devido aos protestos em torno da morte de George Floyd, morto pela polícia estadunidense - e um grupo de historiadores locais teve pesquisas colocadas sob os olhos do público.

“[Eu e um grupo de historiadores] trabalhamos juntos nisso desde 2010 - até um pouco antes individualmente”, contou o guia turístico e historiador local Richard MacDonald à Rolling Stone EUA. "Foi um debate acadêmico, na verdade. Portanto, é uma surpresa para todos nós, para ser sincero; estamos meio surpresos. Não estamos acostumados a esse interesse maior da mídia nos nomes das ruas que remontam a isso, você sabe, 1700 e 1800 - isso geralmente não está nas notícias”.

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Após os grafites nas placas, Steve Rotheram, prefeito de Liverpool, fpo notícia internacional ao proclamar que o famoso nome da rua poderia ser alterado em caso de evidências de alguma relação com o nome de James Penny, comerciante de escravos de 1700. "Se é uma consequência direta do fato de a estrada ser chamada Penny Lane por causa de James Penny, isso precisa ser investigado", disse Rotheram. "Algo precisa acontecer e essa placa e essa rua estão em risco de serem renomeados".

Para MacDonald e outros historiadores, pesquisadores da área há mais de 10 anos, não há conexão entre Penny Lane e o tráfico de escravos. Segundo o historiador, a primeira menção à alameda foi a partir da década de 1840, quando foi listada como Pennies Lane. Nos mapas dos anos 1700, era apenas uma estrada secundária e sem nome. Enquanto isso, James Penny morreu em 1799 - e já tinha uma rua em homenagem ao traficante: Arrad Street, nome da cidade natal de Penny em Ulverston, Cumbria.

"Naquela época, Penny Lane era apenas uma pista rural do interior", diz MacDonald. “Então isso me impressionou. Seria muito incomum nomear uma pista no meio do país com o nome de alguém como se faz nas ruas de prestígio no centro da cidade”.

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Na verdade, várias ruas de Liverpool são nomeadas para homenagear comerciantes de escravos, e este fato alimentou a ideia de que o nome da música dos Beatles teria conexão com James Penny. Em 2006, Barbara Mace, conselheira local, pediu alteração de todos os nomes de ruas relacionados à escravidão em Liverpool. "Minha proposta é renomear várias ruas do centro da cidade, nomeadas em homenagem aos mais notórios comerciantes de escravos e substituí-las pelos nomes de pessoas que fizeram algo positivo", explicou à BBC.

Os Beatles (Apple Corps Ltd 2009)

A pressão aumentou para mudar o nome de Penny Lane quando Stephen Guy, assessor de imprensa dos Museus Nacionais de Liverpool, sugeriu uma relação com o nome do comerciante de escravos ao discutir a inauguração do Museu Internacional da Escravidão de Liverpool. Em comunicado enviado à imprensa depois, escreveu: “Confesso minha ajuda na conscientização sobre as origens sinistras da via provavelmente mais conhecida de Liverpool. Penny Lane - imortalizada pela música dos Beatles - provavelmente recebeu o nome do famoso comerciante de escravos James Penny. Como no caso de outros lugares nomeadas em homenagem a pessoas, Penny ou a família possuíam terras na região ou tinham fortes associações com o local”. (Guy não respondeu ao pedido de comentário da Rolling Stone EUA.)

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A reação dos fãs de Beatles e historiadores foi decididamente negativa - devido à importância da área para John, Paul, Ringo e George e também à escassez de evidências para associar a rua ao tráfico de escravos. David Bedford, autor de Liddypool: Birthplace of the Beatles e morador de Liverpool, se manifesta rapidamente quando a mídia discute a possível conexão. Responsável por uma extensa pesquisa sobre a área e os famosos ex-residentes, Bedford elogia o significado de Penny Lane.

“Comecei a perceber a importância da área, moro perto de Penny Lane há mais de 30 anos”, explica à Rolling Stone EUA. “Essa não é apenas uma pequena música sobre um lugar do qual os Beatles se lembram - quando dizem que está [marcada] nos ouvidos, nos olhos, essa a infância deles. Tudo volta para Penny Lane. A menos que você venha à região e veja por si mesmo, não entenderá todo o significado”.

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No final, nenhuma rua foi renomeada; em vez disso, foram instaladas placas explicando a história dos nomes. O Museu Internacional da Escravidão, no entanto, incluiu Penny Lane em uma exposição de ruas com o nome de comerciantes de escravos. Isto é, até a semana passada, quando o interesse pelo nome da rua voltou a ferver e o museu a aprofundou pesquisas. Os resultados encantaram Bedford - e, sem dúvida, os fãs dos Beatles em todo o mundo.

Em 19 de junho, Janet Dugdale, diretora executiva de Museus e Participação, postou uma declaração negando qualquer conexão de Penny Lane com o tráfico de escravos: “Depois de conversar com Laurence Westgaph, historiador da escravidão de Liverpool, Tony Tibbles, nosso guardião emérito da história da escravidão (também ex-diretor do Museu Marítimo de Merseyside) e do historiador e blogueiro Glen Huntley, concluímos que a pesquisa abrangente disponível atualmente não demonstra evidências históricas para relacionar Penny Lane a James Penny. Portanto, vamos ampliar nossa revisão original e estabelecer um projeto participativo para renovar nossa exibição interativa”.

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Em resumo, a placa da rua Penny Lane não fará mais parte da exibição. "Estou muito satisfeito com a revisão da pesquisa histórica do Museu Internacional da Escravidão e confirmou nossas palavras de que não há evidências para vincular James Penny a Penny Lane", diz Bedford. "Isso será um alívio para os fãs dos Beatles e para a indústria do turismo local, mas também significa que o Museu da Escravidão pode continuar com o excelente trabalho realizado para educar, informar e nos ajudar a aprender com a história”.

Ainda assim, a atenção recém-descoberta sobre Liverpool e a história da cidade teve um efeito positivo. "Ainda gera um bom debate", diz Mike Doran, gerente de comunicações do Conselho da Cidade de Liverpool. “Ainda hoje (19 de junho), o prefeito da cidade [Joe Anderson] anunciou uma comissão sobre a desigualdade racial. Já tínhamos uma força-tarefa para investigar como a cidade analisaria conexões com a escravidão desde janeiro. [Penny Lane] causou interesse internacional e nacional por causa dos Beatles, mas o debate fez as pessoas se sentarem e realmente revisitar as próprias atitudes e o que não sabiam sobre Liverpool e as conexões da cidade com o tráfico de escravos".

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Dugdale ecoou esse sentimento em declaração: “Nos Museus Nacionais de Liverpool, recebemos a discussão e o debate de braços abertos, mesmo quando a conversa é desconfortável. Se envolver com a história pública nos dá um forte sentimento de propósito. Ser um lugar seguro para refletir, revisar e responder é um papel importante para os museus da sociedade”.

O significado do nome de Penny Lane permanece um mistério. "Um dos principais problemas que temos é que é quase impossível dizer exatamente por que foi chamado Penny Lane", diz o historiador MacDonald. “É uma das coisas da história - muitas vezes, quando você volta tão longe, [200] ou 300 anos, é muito improvável obterrespostas sólidas para quase todas as perguntas, porque simplesmente não existem os registros. E por que alguém gravaria o nome em uma ruazinha rural, sabe?”


Tradução de Larissa Catharine Oliveira


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