Filme de herói versus comédia romântica indie

O Espetacular Homem-Aranha, que estreia no Brasil nesta sexta, 6, acerta ao focar em aspectos pessoais do personagem, mas não deixa de sofrer com clichês comuns em muitos blockbusters

Stella Rodrigues Publicado em 06/07/2012, às 09h11 - Atualizado às 16h05

Emma Stone e Andrew Garfield em O Espetacular Homem-Aranha

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Atenção: o texto abaixo pode apresentar spoilers.

Já faz algum tempo que os olhos dos fãs não arregalam mais ao pensar na ideia de um reboot de Homem-Aranha, tão próximo do final da trilogia anterior (que perdurou entre 2002 e 2007). A ideia já assentou, mas ainda há motivo para entrar na sala de cinema com uma sobrancelha de desconfiança erguida. Afinal, a pecha de caça-níqueis que acompanhou os primeiros anúncios da nova franquia não foi fácil de ser dissipada. Embora o herói tenha ganhado o “espetacular” no título, O Espetacular Homem-Aranha, enquanto filme, é um blockbuster do mesmo nível de tantos outros: com aspectos superiores à trilogia anterior, mas ao mesmo tempo com os mesmos vícios de qualquer filme baseado em HQs populares ou dessas franquias tão megalomaníacas.

O filme, que chega aos cinemas no Brasil nesta sexta, 6, foi sucesso de bilheteria absoluto em seu primeiro dia, nos Estados Unidos, e já foi confirmado como o primeiro de uma nova trilogia – o que já era tão esperado que vários desfechos da trama ficaram suspensos na teia dos roteiristas. Não que isso seja um aval de qualidade, mas indica que os fãs de lá podem ter perdoado a iniciativa de recontar o surgimento do Homem-Aranha tão cedo. Com toques de humor interessantes (embora as piadas não sejam o que pode se chamar de imprevisíveis) e um texto mais bem desenvolvido do que a média dos filmes amplamente comerciais, o título indica o início de uma franquia que poderá superar a anterior, protagonizada por Tobey Maguire.

Nesse recomeço, a forma como Peter Parker (o ótimo e amável Andrew Garfield) se transforma no herói aracnídeo mascarado tem uma característica meio “maktub” de tom novelesco: nada na jornada desse herói aconteceu por acaso e tudo remonta à morte dos pais dele. A entrada de Gwen Stacy (Emma Stone) para a trama só trouxe coisas positivas. O novo casal é fofo e os atores são responsáveis por grande parte do bom funcionamento da produção. A direção de Marc Webb também ajudou – ele casou bem com o projeto não só pela piada fácil de ter um sobrenome que tem quase a mesma grafia da palavra “teia” em inglês, mas porque já tinha no currículo uma comédia romântica indie de sucesso (500 Dias Com Ela). Com a ajuda do roteiro, aplicou as melhores qualidades dele em O Espetacular Homem-Aranha.

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Não que por isso o time de roteiristas tenha se mantido longe das falas que são clichês covardes do cinema blockbuster, mas em geral o texto é divertido (e diálogos instigantes em filmes de ação são sempre uma iniciativa louvável). Por mais que a relação Peter-Gwen-pai da Gwen (o Capitão Stacy, interpretado por Denis Leary) seja basicamente de textos freudianos clássicos, os personagens ganharam um pouco mais de matizes do que de costume. E deu para identificar uma dose maior de realismo na crise adolescente de Peter Parker, potencializada por acontecimentos que não são exatamente comuns a todo jovem norte-americano comedor de torta de maçã. O enfoque pessoal é tão destacado que, quando menos se espera, chega a famosa hora de acabar com Nova York – desta vez, combatendo o vilão Lagarto (Rhys Ifans), que carrega aquela perigosa síndrome de Deus tão frequente na ficção.

O restante do ótimo elenco inclui Martin Sheen (como Tio Ben, cuja cena de morte é de cortar o coração), Sally Field (Tia May), Campbell Scott (o pai de Peter) e Embeth Davidtz (a mãe de Peter).

A ação, em si, é impecável. Não tem muito como errar nesse aspecto quando se tem um estúdio nababesco e a quantidade de dinheiro da qual uma superprodução como essa dispõe. Precisaria de muita incompetência para entregar um filme visualmente irregular nessas circunstâncias e não foi isso que aconteceu. Entretenimento do bom fica garantindo caso o espectador não faça muitas exigências em relação a “como era nos quadrinhos” ou do tipo “espera aí, acho que já ouvi isso em outros mil filmes”.