O Hobbit leva fãs e iniciantes em novo (e longo) passeio pela Terra-Média

Com quase três horas de duração, novo filme de Peter Jackson baseado em obra de J. R. R. Tolkien estreia nesta sexta, 14

Pedro Antunes Publicado em 14/12/2012, às 11h15 - Atualizado em 15/12/2012, às 11h54

O Hobbit - Gandalf
Reprodução

Voltar à Terra-Média, lugar fantástico onde criaturas incríveis dividem espaço com alguns poucos seres humanos, é como ser sugado para dentro de buraco negro onde o improvável é, contraditoriamente, o mais esperado. Depois da bem-sucedida trilogia de O Senhor dos Anéis, Peter Jackson volta a comandar essa nova (e longa) jornada de volta ao universo criado pelo escritor inglês J. R. R. Tolkien e lançado em 1937 .

Saiba quem é quem em O Hobbit: Uma Viagem Inesperada.

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada estreia nesta sexta, 14, e é apenas a primeira parte de uma nova série de três filmes. O roteiro assinado por Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro, desta vez, é baseado em grande parte em apenas um livro, diferentemente do outro trio de longas. Soa num primeiro olhar como uma estratégia caça-níquel pouco convincente, mas isso é a pontinha de um iceberg mais profundo.

O primeiro problema: O Hobbit, o livro, é classificado como infanto-juvenil, com uma narrativa bastante rasa e superficial. Há espaço para inocências e temas juvenis, completamente diferente da densidade de A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei, cheia de sangue e descrições minuciosas de batalhas e cenários. O Hobbit precisou se enquadrar nessa nova perspectiva adulta para fazer sentido como uma grande obra de seis grandes filmes – e para não perder todos os fãs criados a partir da série cinematográfica.

Um segundo problema é que, na publicação de Tolkien, toda a ação, guerras e aventuras mil são resumidas em parágrafos, uma página, no máximo. Ao contrário das mais de mil páginas da trilogia, os roteiristas e o diretor Peter Jackson estava diante de um livro de leitura rápida. A chave para transformar o filme em algo atrativo e convincente, sem parecer que estamos diante de um longa em fast foward, foi buscar nos apêndices (são muitos, acredite) de todos os livros escritos por Tolkien, para encontrar novos detalhes e narrativas que complementem as situações apenas pinceladas pelo autor no livro.

É fácil dizer que o filme é arrastado, longo e enrolado. É leviano também. Ou talvez, de pouca memória. Basta voltar no tempo, para 2001, quando saiu o primeiro O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, também com quase três horas de duração e também criticado justamente por isso. Para transformar o pequenino O Hobbit em uma história adulta, profunda e condizente com os outros filmes da franquia, era preciso ir fundo na mitologia de Tolkien.

Neste novo recomeço, o professoral Peter Jackson faz novamente um trabalho lento de imersão no universo tolkieniano – passaram-se nove anos desde o lançamento de O Retorno do Rei. Neste ritmo cadenciado, somos levados e entender o que de fato é um hobbit, serzinho pacato, com muita fome, enormes pés peludos e pouquíssimo adepto a novidades e a sair da sua rotina. Bilbo Bolseiro é justamente um tipo de desse, que prefere muito mais sentar no jardim e fumar um cachimbo após uma das muitas refeições diárias do que correr qualquer perigo.

Com a adição de Martin Freeman no papel do senhor Bolseiro, o filme ganhou em sarcasmo e ironia, além do humor quase involuntário do ator inglês. Ele é tio de Frodo, interpretado por Elijah Wood, e que pouco aparece na outra trilogia, mas tem um papel importantíssimo: é ele que entrega ao sobrinho o Um Anel, artefato mágico que dá origem a toda a jornada que segue a partir daí para destruí-lo.

A tal aventura inesperada de O Hobbit é justamente aquela na qual o pacato Bilbo embarca e encontra o precioso anel, 60 anos antes. E volta às telonas o simpático mago Gandalf, tão imprescindível na missão seis décadas depois. Interpretado por Ian McKellen, ele é chamado de O Cinzento, o que mostra sua posição ainda baixa na hierarquia dos magos que habitam a Terra-Média. Ao contrário do sujeito preocupado e extremamente poderoso, aqui ele parece ainda estar aprendendo, não tão forte e até mais gozador.

Bilbo é convencido a viajar na companhia de outros 13 anões, que desejam retomar a posse da Montanha Solitária e, principalmente, de um inimaginavelmente grande tesouro guardado lá dentro pelo poderoso dragão Smaug. Líder da comitiva está Thorin Coração de Carvalho (Richard Armitage), neto da linhagem real que vivia naquele castelo dentro da montanha.

É preciso entender algo sobre os anões, além de eles serem costumeiramente comilões e sua fêmeas possuírem barba, eles são amplamente ambiciosos e prezam por seu ouro acima de tudo. A riqueza corrompe o coração dos anões de modo que a trama foge do caráter muitas vezes maniqueísta da obra de Tolkien.

O Hobbit: Uma Viagem Inesperada ganha ritmo e velocidade com o passar das horas e, ao fim, Peter Jackson já conseguiu o que ele queria: inserir novamente a Terra-Média na cabeça do público – pelo menos daqueles que se dispõe a embarcar nessa nova aventura.

A Desolação de Smaug, segundo filme da nova saga, está programado para ser lançado em 13 de dezembro de 2013 e a nova trilogia chegará ao fim com Lá e de Volta Outra Vez, em 18 de julho de 2014.