O integrante esquecido do Van Halen: Mitch Malloy conta sobre tempos no vocal da banda

Malloy conta tudo sobre o (muito breve) tempo com Van Halen, depois de Sammy Hagar e antes de Gary Cherone

Brian Hiatt, Rolling Stone EUA (tradução de Felipe Grutter | @felipegrutter sob supervisão de Yolanda Reis) Publicado em 12/02/2021, às 13h47

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Mitch Malloy (Foto: Margaret Norton/NBCU Photo Bank/NBCUniversal via Getty Images)

Quando Eddie Van Halen, Michael Anthony e Alex Van Halen pisaram no palco com o ex-vocalista David Lee Rothpela primeira vez em 12 anos, no VMAs (MTV's Music Video Awards) de 1996, muita gente ficou chocada - Mitch Malloy principalmente.

Malloy, nascido em Dakota do Norte com aparência de deus do rock nórdico e voz pronta para o rádio, ficou com a impressão do Van Halen tê-lo escolhido como novo vocalista após saída de Sammy Hagar da banda. Em vez disso, dentro de algumas semanas, o líder do Extreme,Gary Cherone, foi anunciado como novo frontman do grupo.

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O artista, agora vocalista do Great White e de uma nova banda chamada Malloy, permaneceu em silêncio sobre a experiência até revelar parte dela em um minidocumentário, vários anos atrás. Em nova entrevista à Rolling Stone EUA, compartilhou relato mais detalhado da aventura no Van Halen após a cobertura do nosso memorial paraEddie Van Halen, morto em outubro de 2020.

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Aqui está a história de Malloy nas próprias palavras, a qual apoiou com gravações e outra documentação.

Meu primeiro disco solo [como single "Anything at All" ] foi lançado em 1992; meu segundo saiu em 1994 e me mudei para Nashville. Estive lá para escrever canções para o segundo álbum. Era apenas uma vibração mais fácil e descontraída. Isso me lembrou mais de onde cresci. Saí da RCA Records e escrevia e produzia. Consegui um grande e legal contrato de composição, ia muito bem e tive muito sucesso em Nashville com isso.

Nunca fui um artista com tendência country. Produzia artistas country e havia alguma consideração em fazer. Meti os pés pelas mãos nisso um pouco, mas não sei, simplesmente não sou country.

Estava em Nashville, gostava muito de lá; nunca estive em uma comunidade musical como essa. Receber aquela chamada para entrar no mundo do rock de uma forma tão grande foi um pouco como, "hã?"

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Foram todos telefonemas muito secretos, aquilo típico de bastidores de grandes corporações ou grandes bandas, ou algo do gênero. O primeiro cara a me ligar foi Steve Hoffman, assistente do gerente do Van Halen, quem costumava ser o meu cara do dia a dia.

Foi uma grande parte de como isso aconteceu, porque Steve foi para Toronto trabalhar para Ray Danniels [antigo empresário do Rush] e, pouco depois, Ray começou a gerenciar o Van Halen. Então Hoffman mencionou: "Ei, tem um cara com quem trabalhei, chamado Mitch Malloy, acabou de se mudar para Nashville - é perfeito para o grupo”. Tocaram algumas das minhas músicas e o clipe de "Anything at All" e, aparentemente, estavam tipo: “P*** me***. É como uma combinação de Hagar e Roth. Perfeito."

Era como: "Ok, não repita nada da nossa conversa a ninguém. Por favor, sente-se. Sammy foi demitido e isso é ultrassecreto." Respondi: "P*** me***."

Na verdade, quando cheguei lá, Ed disse: “Isso não é um teste. Nós só queremos sair." Eu ri. Tipo, é claro, é um teste. Sou apenas Mitch Malloy e eles são Van Halen.

Me levaram de avião de primeira classe, e uma limusine me levou até o topo da colina onde [o estúdio caseiro do grupo, 5150] estava. Quando cheguei, a banda, alinhada, esperava por mim. Saio e estão parados lá. O Van Halen está lá para cumprimentar o novo vocalista. Foi incrível.

Saí da limusine e disseram: "Ei." Fiquei tipo: "Cara***, é o Van Halen parado lá esperando por mim." Saí, e a primeira coisa a qual Ed fez foi me abraçar, eu estava de óculos escuros porque estávamos em Los Angeles, então ele tirou meus óculos, me olhou nos olhos e disse: "Só precisava ver seus olhos," e colocou os óculos [em mim] novamente.

Ele falava: "Incrível. Você está pronto para ir?" Fiquei tipo: "Estou pronto para ir, cara." Ed respondeu, "OK, bem, vamos às compras. Você ficará aqui por muito tempo. Então, faremos compras e traremos dois de cada ítem necessário." Foi nossa primeira atividade juntos.

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Tocamos algumas músicas. Fizemos isso imediatamente. Fomos direto para isso. Ele ficava: "Você quer relaxar? Precisa de tempo?" Mas eu dizia: "Não, vamos lá. Estou pronto."

Então Al está na sala de bateria, onde gravam os discos. O instrumento está montado lá no estúdio. Eddie tinha quatro gabinetes 4x12 dispostos em um quadrado apontando um para o outro e quatro microfones em cada gabinete. Cometi o erro de ficar lá fora por cerca de dois segundos enquanto ele tocava.

Alex Van Halen não quis comentar esta história. Michael Anthony disse em comunicado de assessoria: "muito dos acontecimentos com Mitch Malloy ele não estava envolvido à época."

Eu usava um SM57 também, o microfone mais gigantesco de todos os tempos. Nunca usei um, mesmo no colégio e aqui estou, em um teste para o Van Halen, através de um SM57. Entregam um 57 e você nem consegue me ouvir de verdade, é como: "Este é o Van Halen. Isso deveria ser a primeira classe."

Foi incrível, porque, é claro, soavam exatamente como Van Halen, porque são.Tocavam no estúdio onde fizeram os discos. Basicamente, é quase como um disco da banda chegando até você através dos alto-falantes.

Ed perguntou: "Já sabe como vai começar? Deus, estou nervoso." Apenas olhei e falei: "Sério? Qual é. Você não pode dizer isso para mim. Está nervoso? Mesmo? Vamos. Você é realmente Eddie Van Halen. Não sou. Não pode ficar nervoso."

De qualquer forma, começamos por "Panamá." Repassamos essas músicas e foi isso. Ele parecia muito feliz. Jantamos e pude sair um pouco com Valerie [Bertinelli, ex-esposa de Eddie] quando Ed estava ocupado, ela era tão legal. Me convidou para sair pela manhã e disse: “Tenho um treinador vindo pela manhã. Por que não vem e malha com a gente?" Aceitei e ela continuou: "Eddie está muito animado. Ele te ama. Está muito, muito animado. Você está dentro."

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No segundo dia, Eddie me levou ao estúdio e queria me ouvir... Qual é a grande balada, aquela de piano? "When It’s Love." Ele disse: "Você conhece?" Respondi: “Não. Não aprendi porque você não me disse para aprender, mas poderia tentar a sorte. Posso cantar o refrão com certeza." Por fim, falou: "Apenas faça o seu melhor."

Fomos para a sala maior. Havia um piano de cauda e ele começou a tocar, e eu, a cantar. Depois do primeiro refrão, Eddie apenas parou, levantou e olhou para mim: "Você é melhor que Sammy." A coisa toda foi meio surreal. Quer dizer, tirado do contexto, se um cara como eu dizer isso, vai soar terrível. Sammy não pode ouvir isso. Então, geralmente não falo sobre. 

Tocou para mim [as versões instrumentais das quais se tornaram músicas do Van Halen III]. Minha reação não foi tão positiva. Não no sentido de dizer algo ruim, porque não sou completamente estúpido. Sou muito educado, acho. Tentava encontrar meu caminho.

Lembre-se agora, tenho escrito constantemente há anos com muitas pessoas. Realmente não posso fingir. Se tocarem alguma música pela qual não me sinto atraído... Simplesmente não ouvia. Não entendi. Não tocou nada pelo qual me entusiasmei, exceto uma música. Parecia quase chateado por eu estar animado com aquela faixa. Parecia mais o antigo Van Halen.

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Antes de apresentar as músicas para mim, falou sobre o vício e me dizia sobre só poder compor, no mínimo, tonto. Teve uma fase muito sombria quando foi para o Alcóolicos Anônimos e parou de beber - e depois não conseguiu escrever música. Foi e voltou a ser capaz de criar.

No terceiro dia, Ed afirmou minha entrada na banda. Naquela manhã, o telefone tocou na casa de hóspedes e disseram: "Sim, estão todos reunidos na sala de conferências e querem você na sala de controle em 20 minutos."

Foi um momento incrível e inesquecível da minha vida. Lembro dele dizer: "Bem, acabamos de ter uma reunião. Você é o cara mais legal de todos. Melhor cantor o qual ouvi na minha vida. Parabéns, você está na banda."

Pulei da cadeira, dei a volta no console e desci até onde ele estava. Colocou as mãos nos meus ombros, abraçou-me, beijou-me nas duas bochechas e disse: "Parabéns!" Enquanto se virava e saía da sala. Volto para cima, sento novamente no console e dou risada... Meu corpo está realmente rindo. Não consigo controlar. Dou risada como uma garota de 12 anos, e realmente proferi as palavras: "Estou no Van Halen."

Pelo menos naquele momento, eu estava na banda. Ed disse para mim e aconteceu. Queria ter registro em vídeo. Mas isso aconteceu. Vou levar isso para o meu túmulo.

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Tocamos mais um pouco. Tinham a música “It’s the Right Time”, mas não era. Foi uma canção muito, muito ruim. Ed a escreveu com duas pessoas incrivelmente talentosas, Glen Ballard e DesmondChild. Seria lógico esta ser uma faixa incrível. Bem, era o contrário.

Mais tarde, Ed me entregou a música e disse: “Vá reescrever isso. Isso está uma me***. Vá consertar. Aqui, fique com isso. Além disso, coloquei aqui uma nova música, mas ainda não é uma. Você precisa pegar e terminar a faixa e traga de volta quando voltar." Comecei a letra do zero. Apenas usei a parte escrita pelo Ed. Não usei melodia, versos, nada. Virou "It’s the Right Time."

Tudo era novo. Até onde sabia, era o vocalista da banda e minha vida inteira estava prestes a mudar. Tudo foi emocionante, legal, novo e ótimo. Então, a maneira como ele falava sobre a MTV parecia meio negativa. Parecia não querer fazer isso. Mas não mencionou nada sobre o envolvimento de Roth.

Pouco antes da época de Malloy em Los Angeles, Van Halen se reuniu temporariamente com David Lee Roth para gravar duas canções para um pacote de grandes sucessos, "Me Wise Magic" e "Can't Get This Stuff No More."

Ele havia mostrado para mim as novas canções de Roth em um zilhão de decibéis. Não tive muito a dizer. Sou muito honesto, e entendeu isso imediatamente. Não iria enganá-lo - ele sabia disso. Sobre as canções, ficava indiferente, porque havia acabado de chegar lá.

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David Lee Roth vai me odiar se ler isso. Mas Ed disse: "Tornei-me um dentista. Tirar aquele vocal de Roth foi como arrancar os dentes."

Eddie continuou a falar sobre a questão da MTV e estava esquisito. A energia dele era um pouco estranha quando falava a respeito. Não entendi por que até o momento no qual Roth entrou no palco.

Apesar de Malloy acreditar ter conseguido a vaga, a banda aparentemente mudou de idéia. Logo depois de partir de Los Angeles, Gary Cherone voou para fazer audições e ensaios com Van Halen. Na época do VMAs, Cherone gravou duas ou três novas músicas com o grupo, disse à Rolling Stone por meio do empresário. Na época, Malloy não tinha ideia; pensou ainda estar na banda.

Naquela época, voltei para Nashville. Estava sentado, enquanto assistia TV sozinho. Não foi bom. Literalmente, meu queixo caiu. Naquele momento, fiquei chocado. Sabe como às vezes, como humanos, apenas sabemo de algo? Você não precisa dizer mais nada. Naquele momento no qual Roth saiu atrás deles, estava ciente do fim. Não estaria no Van Halen.

Foi como uma facada e simplesmente acabou. Tinha muito acontecendo na época, além do Van Halen. Uma promessa real com meu progresso na carreira. Nnão era, para mim, algo punico. Claro, realmente gostaria de estar na banda. Mas quem não gostaria?

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Fui ao meu empresário e disse: “Isso não pode acontecer agora, acredito. Acabou, parece. Devemos informá-los e você provavelmente deve fazer isso, porque é meu gerente." Ele enviou o documento e pronto. Quando receberam a carta, meu amigo Steve me ligou, enquanto surtava. 

O então empresário do Van Halen, Ray Danniels, confirma ter recebido a carta - e só percebeu depois como Malloy  teve a impressão de ter conquistado a vaga.

Ed me ligou para se desculpar. Disse sentir muito e falou principalmente sobre como foi horrível a grande briga com Dave. Quase o socou. Foi só isso. Foi o fim da conversa. Terminou abruptamente.


+++ PAI EM DOBRO | ENTREVISTA | ROLLING STONE BRASIL