O papa é pop

Festival do Rio: vila vira caos com visita santa, em filme do fotógrafo de Cidade de Deus

André Rodrigues, do Rio, para o site da RS Publicado em 26/09/2007, às 12h24 - Atualizado em 05/11/2007, às 19h20

Beto e seus amigos constróem o "trono"
Divulgação

O Banheiro do Papa

Apesar da rima, os Engenheiros do Hawaii acertaram - sociologicamente falando, claro. O papa João Paulo 2º - que foi sumo pontífice por 26 anos - ganhou o apelido de "o papa viajante", fez de suas turnês por diversos países um grande espetáculo pop e no Brasil virou personagem de música.

Nem mesmo a pequena cidade de Melo, no Uruguai, foi poupada da visita de Sua Santidade. Próxima da fronteira com o Brasil, o lugar foi contaminado por um surto de expectativa quando o papa disse que apareceria para abençoar aquele solo em 1988.

Acostumados a assistir pela TV ao frenesi que envolve um evento desses, os habitantes da região se entusiasmaram e fizeram preparativos para receber um milagre econômico. De acordo com estimativas nada oficiais, milhares de brasileiros (até 200 mil, chegou a cogitar alguém) poderiam atravessar a divisa para acompanhar a missa papal.

Em poucos dias, Melo vira um circo. A população enxerga a possibilidade de faturar alto com os turistas. Assim, donas-de-casa desesperadas passam a cozinhar doces, empanadas e outros quitutes; homens compram vacas para fazer churrasco; os gatos desaparecem nas grelhas; centenas de quilos de lingüiça são colocadas em toneladas de pães; e Beto constrói um banheiro.

Não é um sanitário para o João Paulo 2º, mas sim para a multidão que promete esperar horas pelo discurso sagrado e será pega desprevenida na hora do aperto. Mas, por algumas moedas, poderá descarregar os infortúnios na casinha planejada especialmente para a ocasião.

Beto é ou não um sujeito brilhante?

Os bastidores dessa estranha idéia aparecem nas telas do Festival de Cinema do Rio de Janeiro a partir desta quarta, 26, com o início das exibições de "O Banheiro do Papa", co-dirigido por César Charlone (fotógrafo de "Cidade de Deus" e "O Jardineiro Fiel").

É uma rara oportunidade de acompanhar a cinematografia uruguaia (que ganhou destaque recentemente com o cultuado "Wisky", de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll) e conferir essa "meia estréia" na direção de Charlone.

A trama original partiu de Enrique Fernández, o outro diretor que assina o longa-metragem.

"O Banheiro do Papa" será exibido na mostra Première Latina e já vem carregado com os prêmios de melhor filme latino da crítica e do público, ator (César Trancoso), melhor atriz (Virginia Méndez) e melhor roteiro (Charlone e Fernández) no último Festival de Gramado.

Apesar de retratar um local aparentemente pobre e lotado de gente humilde, o filme desperta não apenas a compaixão, mas o bom humor.

Beto (César Trancoso) é um muambeiro cheio de malandragem que honra suas estratégias incomuns. Ele usa uma bicicleta para buscar produtos mais baratos no Brasil e passar para os comerciantes de Melo.

Adeptos da frase "a necessidade é a mãe da invenção", os habitantes do lugar sabem que propinas e eventuais "jeitinhos" fazem parte do jogo.

A graça de "O Banheiro do Papa" reside nesse interessante paradoxo. A figura do representante máximo da igreja desperta os desejos mais mundanos - e não os aspectos divinos e abstratos da religião.

VEJA OUTROS FILMES QUE A RS INDICA MAIS ABAIXO.

VEJA AQUI A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO FESTIVAL DO RIO.

"O Banheiro do Papa", de Enrique Fernández e César Charlone

Quarta - 26/09

Espaço de Cinema 1, às 16h45 e 21h15

Rua Voluntários da Pátria, 35, Botafogo.

Ingresso: R$ 13

Informações: (21) 2226-1986

Sexta - 28/09

Estação L. Alvim 1, às 14h e 22h

Rua Vieira Souto, 176, Ipanema.

Ingresso: R$ 13

Informações: (21) 2267-4307

Domingo - 30/09

Cine Santa, às 21h30

Rua Paschoal Carlos Magno, 136, Largo dos Guimarães.

Ingresso: R$12

Informações: (21) 2507-6841