O passado, presente e futuro com Abebe Bikila

Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, BK' compartilha as primeiras impressões que o levaram ao terceiro disco da carreira, O Líder em Movimento

Nicolle Cabral | @NicolleCabral Publicado em 07/09/2020, às 07h00

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O passado, presente e futuro com Abebe Bikila (BK) - Foto: Divulgação / João Victor Medeiros

Com dois discos aclamados no rap nacional, a mente inquieta e criativa de Abebe Bikila, que atende por BK', já dispensa apresentação. O lançamento do terceiro projeto — que soa exato, coeso e urgente —, contudo, precisa ser apontado. 

Intitulado de O Líder em Movimento, o disco, lançado nesta segunda, 7, é guiado por um personagem que resgata figuras negras importantes da história e luta para fortalecer a própria comunidade. Nomes como Malcolm X, Martin Luther King, Tupac e Notorious B.I.G ressoam ao longo de toda a audição. "A gente não pode esquecer do que fez o rap ser o rap", pontua BK' em entrevista à Rolling Stone Brasil

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Depois de se debruçar em reflexões existenciais embaladas pelos beats soturnos de Castelos & Ruínas (2016) e evocar o Deus do Furdunço em Gigantes (2019), o rapper carioca "gastou a caneta" com rimas ríspidas e discursos libertários para o povo negro. A fala de Polly Marinho em "Caminho" abre-alas para o espetáculo sensível e poderoso que percorre as 10 faixas do disco. 

"Os que têm a sensibilidade e a frieza na hora de olhar o mundo serão os responsáveis pelos outros olhares. Os que nada temem serão responsáveis por corajosos e covardes. Ser a força, o amor, o poder, a sabedoria. Que a luta pela liberdade só acabe quando ela for encontrada para que a nossa poesia não seja mais escrita com sangue"

Inflamado pelo movimento Vidas Negras Importam (ouBlack Lives Matter), o rapper constrói um imaginário narrativo muito mais conceitual e instrumentalmente sofisticado do que os projetos anteriores. "Não sou o mesmo BK de Castelos & Ruínas", explica. "É impossível eu pensar da mesma forma. Muita coisa mudou".

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O rapper também enfatiza a atmosfera e o discurso do disco por meio da filosofia Sankofa, representada por um pássaro que encontra a própria cauda, um simbolismo sobre o resgate ao passado para ressignificar o presente e transformar o futuro. Com isso, o eu-lírico presente no disco se encontra em um estado constante de mudança. 

Na produção, BK' contou com um elenco de peso: Jonas Profeta (Pirâmide Perdida), Nansy Silvz e Deekapz foram responsáveis pelas batidas, enquanto Arthur Luna, El Lif Beatz e Mike Bozzi (Kendrick Lamar, Post Malone, SZA e mais) mixou, produziu e masterizou, respectivamente. 

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Para entender um pouco mais sobre os processos do disco, abaixo a conversa com o BK' sobre a criação de O Líder em Movimento, principais inspirações e o levante do rap daqui para frente, enquanto o rapper caminha para o futuro, sem esquecer de olhar pelo retrovisor. 

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BK' (Foto: Divulgação / João Victor Medeiros)

Você estava escrevendo o Contos da Madrugada quando o Gigantes surgiu, né? Um som acabou te guiando para fazer o disco. E aí, desta vez, como você chegou até O Líder em Movimento

Cara, então, o meu processo é sempre assim. Quando estou com a cabeça em um álbum, eu já começo a pensar nos próximos projetos por querer mostrar coisas novas, os meus outros lados. A gente também sabe como é o mercado, eu sempre preciso estar produzindo. A galera pede muito. 

Mas parei para pensar no nome do disco, no conceito, quando eu ainda estava com o Gigantes. Eu já tinha a primeira faixa, "Movimento", e aí comecei a ter umas ideias sobre o tema. Começamos a fazer o disco meio que nesse rolê do Vidas Negras Importam, tá ligado? Só que fizemos isso antes de estourar tudo isso. Acho que no nosso subconsciente já sabíamos que essa bomba ia explodir uma hora ou outra, porque a gente já não está aguentando mais. 

Não tive um momento que eu falei: ‘ai, vai ser isso’, ele foi nascendo e eu fui lapidando para ficar mais coeso. Como no Castelos & Ruínas, fui tirando o que não combinava tanto e deixei só o que contava a história. 

Bacana, entendi. E como foi o processo de composição? Teve alguma música que você chegou a escrever durante a quarentena?

Não, não. Desse disco, não. Eu escrevi ele inteiro em 2019. A minha meta era ter lançado ele um ano depois de Gigantes, mas a gente teve alguns imprevistos e acabou não rolando. E foi até bom porque eu consegui amadurecer um pouco mais. O disco foi todo feito em janeiro. No início, ele só ia ter oito faixas, e aí no começo do ano, escrevi mais duas e acrescentei no disco.

"A gente não pode esquecer do que fez o rap ser o rap"  — BK'

 

Quais foram?

"Universo" e "Amor"

Falando em "Amor", acho que é a única que tem uma batida mais voltada para o funk, porque os outros sons, os beats são bem mais secos, com algum instrumento orgânico por trás (violinos, piano e tudo mais), né? Como você decidiu como queria soar no disco? Como foi definir a instrumentação com as rimas que você já tinha escrito?

Queria um disco mais seco mesmo, porque ele tem muita rima, tá ligado? Eu rimo o tempo todo. Então, acho que quando você tem bastante linha assim, você tem que equilibrar o beat. Não pode deixar o beat gritar junto — isso é a minha opinião —, senão acaba confundindo total a cabeça. Então, acho que escolhi andar por esse caminho, com beats mais secos, e aí na parte dos instrumentos, chegou o JXVNS e chamamos mais alguns músicos para somar. Não quis deixar destoar muito do que já era o beat inicialmente. Até pelo assunto, é um disco mais sério que os Gigantes — não que ele não tenha partes sérias, porque tem bastante —, mas acho que esse é, talvez, mais importante que Gigantes, pelos temas, tá ligado? Então quis essa seriedade nos beats. 

Tanto que o disco começa bem empurrado, depois de "Amor" tem "Poder", que é quando o personagem dá uma surtada, e depois ele volta com algumas músicas mais leves, que é para dar uma respirada. Não que ele volte a ser pesado, mas ele volta um pouco cheio. Na última faixa, "Universo", a gente já dá uma relaxada. Mas é isso, eu quis mais que os beats somassem com a ideia. Uma parada meio Scott-Heron, o instrumentalzinho ali e ele falando.

Sei bem. Inclusive, quando ouvi pela primeira vez fiquei com a impressão: 'Puts, é o To Pimp [a Butterfly] do BK’.

Risos. Que isso, obrigado.

É, pelo discurso ser muito forte e ter essa levada mais elegantona, os elementos do jazz, a escolha dos instrumentos também. Mas aí, pensando nisso, queria te perguntar o que você buscou de referência sonora?

De sonoridade, o que me pegou, você falou do To Pimp [a Butterfly], mas eu tava ouvindo muito DAMN.

Massa!

Ouvi muito! O 4:44 do Jay-Z também, tá ligado? O Daytona, do Pusha-T. Então acho que esse álbum é um pouco assim, todas essas sonoridades somadas. O Daytona, o beat é do Kanye, mas a voz do Pusha-T está lá na frente. No 4:44, é tudo do No I.D., e o Jay-Z dando o papo também. Ele está ali mais, não sei se mais confortável, mas ele tá brincando menos, o flow dele está menos elástico, ele está mais dando um papo reto. E o DAMN é o Kendrick, né.

Risos. Sim! 

De nacional, minha referência sempre foi muito Racionais, na parte da escrita. Os caras aqui do Rio também, Marcelo D2, Black Alien e afins, são neles que penso. Eu estava ouvindo outras coisas também, mas elas não serviram necessariamente de inspiração para esse álbum. 

Vocês fizeram uma imersão em um sítio em Nova Friburgo para gravar o disco, certo? Me conta como era a rotina de vocês lá? 

Claro, conto. Então, lá, só fui para gravar, já tinha 95% das letras. A única coisa que eu criei lá no sítio foi o refrão e a intro de "Universo". Mas cara, é isso, esse disco é sério, é um trabalho que eu precisava me dedicar 100% e estar 100%. Sendo sincero, o Deus do Furdunço é real para mim, eu gosto do furdunço.

Os dois riem.

Então, janeiro, no Rio de Janeiro e pré-carnaval rolando, eu não ia conseguir dar o meu máximo. Ai eu pensei: ‘cara vou ter que sair daqui, pelo menos uma semaninha ou duas eu já gravo tudo’. E aí depois eu volto pro furdunço, mas aí volto com o trabalho pronto. Então lá, só foquei nisso. Eu acordava, gravava, tomava um banho na piscina, voltava, gravava outra música, fazia uma sauna, gravava de novo, bebia uma cervejinha, gravava mais uma vez. Mas eu estava focado nisso. Se eu tivesse aqui [no Rio], eu me conheço, a gente ia acabar de gravar uma música e ia direto para o [Galeto] Sat's encher a cara de churrasco e cerveja e aí no dia seguinte eu não ia conseguir gravar. Ia ter que esperar dois, três dias para a minha voz ficar boa.

[O poder] tem que estar com o povo — BK'

 

Entendi. E durante esse tempo, teve algum som que demorou mais para sair? Algum que você sentiu dificuldade de compor, de encaixar o beat ou foi muito tranquilo de fazer?

Cara, a faixa "Visão", eu fiz umas cinco letras para essa música. Ela foi a que eu mais demorei porque eu escrevia e falava: ‘isso sim, isso não’. Então foi a que mais demorou por processo de escrever mesmo, escrever muito e pensar: 'qual dessas aqui eu uso? não sei'. Mas no resto, foi tranquilo, porque nesse disco eu quis ser mais direto, porque eu acho que quando você está dando uns papos retão não dá para você ser muito metafórico, ou fazer muita analogia —não que elas não existam, elas estão no disco —, mas tem hora que tem que ser mais direto. Ainda mais nesse momento que estamos, são tempos de guerra, tempos de loucura. Então, acho que tem que ser direto, foi o que eu tentei fazer.

E é um dos sons mais fortes do disco né. Essa e "Movimento". 

Sim, Movimento é bem forte.

Você também acrescentou outros discursos ao longo do disco, áudios, manifestos. Como foi essa introdução?

É uma conversa que eu tenho com a minha mãe, quando falamos sobre  movimento negro e tal, a visão é sempre muito do Estados Unidos. Não que isso seja ruim, mas a gente sempre lembra muito do Pantera Negra, que também foi influenciado por movimentos daqui, então eu acho que temos também que voltar para o que é nosso. Por isso achei importante colocar o discurso do Abdias do Nascimento, falar da Marielle, das nossas lideranças. Não que lá não seja importante, Malcolm X e todas essas figuras são muito importantes. Mas temos lideranças e pessoas importantes aqui também e é bom resgatarmos isso. 

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Capa O Líder em Movimento (Foto: Divulgação / João Victor Medeiros) 

Falando em liderança, tem um trecho de "Megazord", que você rima “quem é mais fraco / quem é mais forte / juntos somos megazord / multiplicamos nossa sorte”, e pega bem nesse discurso de líder: 'se temos uma direção, vamos segui-lá'. O que ela sintetiza para você?

Então, o disco é muito papo reto, mas ele tem a parte da ficção que é esse personagem que eu inventei e é nesse momento que ele vê: 'tudo bem, eu posso ajudar as pessoas a chegarem em algum lugar, mas o poder não tem como ficar centralizado em uma pessoa só, ele tem que ser distribuído. Não é só um que tem a visão'. Então, essa faixa, e essa segunda parte do disco, na verdade, é tipo: 'rapaziada, estamos juntos', mas não só ele falando para a rapaziada, é ele falando para ele mesmo também. Porque não adianta 'ficar se achando o cara, eu sou o brabo, eu vou fazer isso, vou fazer aquilo', porque tem uma hora que não consegue fazer. É sobre distribuição de poder — ele tem que estar com o povo, é isso.

Você acha que, de certa forma, fez mais sentido o disco ter saído agora?

Cara, a minha vontade, depois de não ter conseguido lançar em 2019, era ter lançado em maio, mas eu acredito que as coisas acontecem no tempo que tem que acontecer. Então, tomara que que seja melhor que ele esteja saindo agora. Não querendo usar dessa situação, muito pelo contrário, mas acho que isso pode ser uma forma de estar ajudando também. Estamos em guerra, espero que o disco some. Tomara que ele seja uma força, um aliado para esses tempos. 

"Não precisamos nos maquiar para um público que nunca gostou da gente" — BK'

 

Tomara. Agora, sobre um detalhe do conceito do disco, você cita a filosofia Sankofa, que prega o olhar para o passado para entender o presente e, assim, moldar o futuro. O que você aprendeu com o passado, que trouxe para o presente e quer moldar para o futuro?

Caraca.

Risos. 

Então, sempre falei isso de que 'precisamos ver onde estamos' e sempre olhar para aquilo que a gente fez, onde estamos agora e se analisar. Eu sempre estou fazendo isso. Com o álbum, fiz meio que um resgate. Eu estava fazendo outro, tinha outras músicas e coisas para falar. Mas acho que esse é mais até pelo momento que a gente está vivendo agora.

O rap, por exemplo, cresceu muito, a gente fala sobre várias coisas, fala sobre amor, noitada, e eu acho muito maneiro, me identifico muito. Mas eu acho que a gente tem que falar o que é importante, o que é o rap, como conhecemos, quais são as nossas raízes, tá ligado? Realmente contribuir, porque se a gente perder isso, o movimento some. É o que o Mano Brown fala, é voltar para base. A gente precisa informar a galera e mostrar o que é rap. Lembrando que eu amo todo tipo, eu gosto de rap. Mas acho temos que lembrar sempre do fundamento. 

Entender que não precisamos nos maquiar para um público que nunca gostou da gente. Agora eles estão curtindo? Beleza, pode curtir a parada, mas eles que vão tem que entender do rolê, não sou eu que tenho que fazer de tudo do meu rolê ser entendível para eles curtirem. Todo mundo é bem-vindo, mas a regra é a da minha casa.

Tenho muita coisa para agregar ainda, mais pelo movimento, por tudo que está acontecendo com o rap, a galera de extrema-direita opinando, são várias coisas que, no meio do caminho, perdem o fundamento. E se fizermos isso, em dois, três anos, ele só vai ser um estilo musical, vazio para vender, e vai acabar sumindo como os outros. Então acho que é isso, quero levar para frente o fundamento, a base. Porque dá para chegar em lugares fod*s, sendo quem a gente é de verdade.


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