O Respiro e o Fôlego do Scalene

Depois de anos intensos de trabalhos e uma discografia conhecida pelo rock pesado, Scalene precisou de respiro e fôlego para continuar

Felipe Grutter Publicado em 26/06/2020, às 07h00

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Scalene (Foto: Breno Galtier/Divulgação)

Os últimos três anos do Scalene, banda formada por Gustavo Bertoni (vocal e guitarra), Tomás Bertoni (guitarra e teclado), Lukão (baixo), e Philipe “Makako” Nogueira (bateria e voz), foram bastante movimentados. Eles lançaram o disco Magnetite (2017), extremamente pesado e carregado de significado, tocaram no Rock in Rio e Lollapalooza, criaram um festival próprio, e muito mais. Com tantas atividades e um turbilhão de coisas na cabeça, consequentemente, eles precisavam, depois de uma década de existência, de um Respiro e um Fôlego. 

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Capa de Éter

A banda foi criada em 2009, e de lá até aqui, Scalene conquistou bastante: foram finalistas do reality show Superstar, da TV Globo, ganharam Grammy Latino de melhor álbum de rock em português por Éter (2015), tocaram nos maiores festivais do país (e do mundo) e criaram um próprio, chamado CoMA, entre muitas outras realizações.

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Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Tomás Bertoni falou de como foram os últimos anos da banda até chegar nessa respirada e fôlego. Para o guitarrista, toda a maluquice na carreira deles começou em 2015, “com nosso primeiro show do Lolla”. Mas não parou por aí. No mesmo ano eles ainda participaram do Superstar e tocaram no South by Southwest.


Festivais e primeiros anos de Scalene

No ano de 2017, a banda continuou com toda a intensidade de trabalho desde 2015. Scalene foi um dos responsáveis pela criação do Festival CoMA, ocorrido em Brasília, cidade natal do quarteto.

O grupo já estava acostumado a produzir eventos. Por volta de 2010 eles conseguiram fazer alguns. “Tinha uma cena bem legal em Brasília, com bandas e público engajados”, comentou Tomás Bertoni. Mesmo com uma escala pequena, de cerca de 300 pessoas, os eventos “eram maravilhosos”.

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Scalene nunca se mostrou apto a ser uma banda responsável por apenas compor músicas e subir no palco. Segundo Bertoni, “desde o começo da banda a gente tem essa pegada de se meter em outras áreas da cadeia produtiva da música”.

O quarteto, com o passar dos anos, evoluiu nessa área da indústria da música e “começou a participar até da produção de eventos em outras cidades, como faz até hoje”. Eles cuidam, por exemplo, da divulgação, bilheteria, locação e produção, como foi com o Festival Tenho Mais Discos Que Amigos

Com o passar dos anos, assim como “Scalene ganhou Grammy e tocou no Rock in Rio, a nossa humilde produção de eventos underground de 2010 culminou no CoMA”.

O Festival CoMA é conhecido por ser sobre consciência, música e arte. Além disso, o evento conta com diversos artistas e bandas ainda desconhecidos pelo público, e 50% do line-up conta com músicos do Distrito Federal. Ou seja, com o festival, Scalene faz um ótimo trabalho em movimentar a indústria da música, da qual vivem.


Trabalho, trabalho e mais trabalho

Todo esse lance do Festival CoMA se conecta com a intensidade de tudo que o Scalene passou depois entre 2015 e 2017. Além de tudo falado no texto, em 2016 a banda gravou DVD, e eles produziram “o Festival Tenho Mais Discos Que Amigos, primeira edição do CoMA, lancei o Magnetite e toquei no Rock in Rio”.

Para se ter uma noção de toda a complexidade do acontecido com o Scalene nesse período, o guitarrista afirmou, em tom de brincadeira: “Não é à toa que comecei 2018 tomando remédio, porque foi intenso mesmo”.

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Depois de realizar muitos sonhos, cumprir metas e vencer desafios, Scalene precisava de um novo desafio, nunca visto antes. De acordo com Tomás Bertoni, eles se perguntavam: “Tá, e aí, a gente vai fazer o que agora?”. E a resposta foi “um disco que não é de rock”. 

“Depois desse show do Rock in Rio 2017, parecia que a gente tinha acabado de voltar das trincheiras”, disse Tomás. Após ter cumprido tantas metas, feito tanta coisa e realizado diversos sonhos, o grupo pensou “que fazer um disco que é realmente fora da nossa zona de conforto seria um desafio novo massa”.


Depois do turbilhão, vem o Respiro e o Fôlego

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Capa de Respiro (2019)

O surgimento do Respiro (2019) não veio apenas da tentativa de cumprir um novo desafio ou sair da zona de conforto, mas sim de vários fatores. O disco veio “de uma intensidade de 3 anos seguidos muito desgastantes”. Então, eles entraram com esse tom musical diferente. 

Vale lembrar que os outros álbuns da banda têm uma sonoridade bastante pesada, com características do stoner rock, metal alternativo, indie rock, entre outros gêneros.

Além disso, para Bertoni, o disco também surgiu de uma “transição simbólica”, por conta de vários motivos, como: “mudança, mentalidade, momento de vida, final de década, sair da zona de conforto ao fazer”, entre outros. 

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Outro fator responsável por ajudar a conceber o álbum foram as estatísticas. “Quando a gente via nas plataformas o número de reproduções, as músicas calmas se saíam bem melhor”, falou o músico. Para se ter uma ideia, “do nosso top 5 [canções], antes do Respiro, não tinha nenhuma música das pesadas, eram todas as músicas calmas”.

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Scalene em foto por Matt Magrath

Para ajudar ainda mais o disco a se tornar realidade, os quatro integrantes, segundo Tomás Bertoni, sempre foram bastante influenciados por bossa nova e MPB, até mais que gêneros como trip rock, post rock experimental, entre outros.

A história por trás da produção de Respiro é interessante. Inicialmente, o trabalho era para ser um EP acústico, com um misto de covers e músicas autorais. De acordo com Tomás Bertoni, o contrato com a Som Livre, gravadora, dizia “Scalene Acústico”.

Respiro se moldou só depois que a gente reuniu com Marcus Preto, o diretor artístico [do disco] quando a ideia ainda não era um um álbum”, disse Tomás Bertoni. Quando Preto ouviu o som feito por Scalene até aquele momento, ele questionou o grupo: “Por que vocês vão gravar cover e por que é um EP?”. Com essa ajuda, e com as estatísticas a favor das músicas calmas da banda, o grupo partiu para fazer o LP que todos nós conhecemos e amamos. 

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Em 2020, surgiu o Fôlego, EP que serve como uma continuação de Respiro e uma despedida dessa fase calma, de acordo com o Twitter do Scalene. “Foi bom dar uma desacelerada, mas a angústia e raiva não cabem mais nesse formato não”, escreveram.

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Capa de Fôlego

A produção dele foi feita durante a quarentena e pandemia do novo coronavírus. Ou seja, Gustavo e Tomás Bertoni, Lukão e Makako gravaram separadamente, assim como aconteceu com Respiro.

Mas Respiro, como é de 2019, não teve a pandemia como contexto. Na época da produção do disco, Gustavo e Tomás moravam em São Paulo, enquanto Lucas e Makako em Brasília. O álbum não precisava da presença dos quatro em estúdio, como exigem os de rock.

No final das contas, o saldo de Respiro e Fôlego se saiu muito além do positivo. Mesmo sem criar canções do gênero responsável por consagrar a banda, eles conseguiram manter a essência deles, com músicas poderosas, profundas e letras complexas.


Respirando na Quarentena

Além de Fôlego, Scalene também criou outro projeto muito interessante durante o isolamento social, o Respirando na Quarentena, uma série de lives transmitidas em um grupo fechado de Facebook.

A ideia surgiu depois do quarteto se indagar, como disse Tomás Bertoni: “Tá, a gente vai ficar mó à toa sem fazer show, olha o tempo que a gente gasta na estrada”. 

Para entrar no grupo, precisava pagar uma assinatura de 12 reais, parte do valor arrecadado era convertido em doação. No grupo, eram realizadas cinco lives por semana, e durou dois meses e meio, quando o filho de Tomás nasceu. As transmissões variavam, algumas tinham os quatro integrantes, com eles sozinhos, ou com outros artistas.

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Os temas eram dos mais diversos, cada membro do Scalene falava sobre o assunto com o qual tinha mais prioridade e afinidade. “Eu falei muito sobre mercado da música, o Gustavo sobre composição, o Lukão ensinou a usar sintetizador, inclusive pelo computador, sem precisar de ter um sintetizador, o Makako ficava fazendo live ensinando a fazer sucos gostosos”, explicou o guitarrista.

Quando os quatro se juntavam, eles assistiam jogo de basquete, futebol e até mesmo jogava adedonha com os fãs na internet.

Caso você só tenha descoberto sobre Respirando na Quarentena agora, não se preocupe, porque o Scalene disponibilizou alguns trechos dessas lives no canal de YouTube da banda.


+++ A PLAYLIST DO SCALENE