Opinião: com David Bowie, a música não podia ser desassociada da imagem

Paulo Cavalcanti Publicado em 11/01/2016, às 18h16 - Atualizado às 18h46

David Bowie
Rex Features/AP

“Uma estranha fascinação. Mudanças estão assumindo o ritmo no qual caminho”, cantava David Bowie em “Changes”, faixa de Hunky Dory (1971). Bowie, que morreu neste domingo, 10, aos 69 anos, vítima de câncer, foi o primeiro astro pós-moderno do rock. O legado sonoro que ele criou ao longo de 50 anos de carreira discográfica foi glorioso, monumental e altamente influente. Só que ao contrário de ícones de outras gerações, a música dele não ficou datada, não permaneceu como um retrato instantâneo de um tempo específico. No caso dele, a música não podia ser desassociada da imagem. Bowie não tinha vergonha de colocar o estilo acima da substância. Claro, grandes nomes como Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan fascinavam o público ao mudar a visão artística que tinham e assim também criar uma nova imagem e um visual diferente. Mas Bowie elevou isso ao nível máximo de arte. As transformações pareciam ser um fim e não uma mera ferramenta. Mudanças para ele não vinham de uma forma natural. Era tudo calculado. Bowie era um camaleão, sim, mas um camaleão de carteirinha.

Ao contrário de John Lennon, Pete Townshend, Bob Dylan, Kurt Cobain e outros, Bowie não se interessava em ser “autêntico”. David Bowie, o cidadão nascido David Robert Jones, nunca teve nada a ver com as inúmeras personas que ele vivia nos discos, no palco e nos vídeos. Antes mesmo de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972) ser lançado, ele disse à Rolling Stone: “O rock tem que ser transformado em uma prostituta, em uma paródia. Precisa existir o palhaço, o Pierrô. A música é apenas uma máscara. E eu sou o Pierrô, a mensagem”. E completou: “Os astros do rock são os falsos profetas. Nós queremos adulação, mas não temos nada para dizer. Ficam me perguntando: ‘O que você representa?’ Eu respondo? ‘Não sei’”.

Relembre a carreira de David Bowie em fotos marcantes.

Em 1972, ele ganhou manchetes ao se declarar bissexual. Bowie era casado com Mary Angela Barnett e tinha um filho, o futuro diretor de cinema Duncan Jones. Logo ficou nítido que as ambiguidades sexuais faziam parte do jogo da reinvenção. Bowie estava aberto a tudo o que chamasse sua atenção. Ele encarava a sexualidade como a arte, a música e o estrelato: algo capaz de ser moldado conforme as aspirações estéticas que tinha no momento. O corpo e o rosto de Bowie eram altamente maleáveis e assim ele podia ser o que e quem quisesse.

Bowie certa vez falou que não gostava de ser rotulado como um astro do rock, preferindo ser chamado de ator. Antes de virar artista de massa na era do glam rock nos primeiros anos da década de 1970, ele já tinha interpretado alguns papeis no mundo da música na década anterior: aspirante a astro mod do R&B, cantor de music hall e intérprete de baladas folk. Bowie chegou tarde demais para a utopia lisérgica comunitária dos anos 1960. O primeiro grande hit foi “Space Oddity” (1969), que ele mesmo descreveu que era “uma mistura de Salvador Dalí, Bee Gees e 2001 – Uma Odisseia no Espaço”. A euforia dos anos 1960 se dissolvia na guerra do Vietnã e nos assassinatos cometidos pela gangue de Charles Manson. Os novos tempos pareciam caóticos. Só que Bowie não se interessava por trivialidades cotidianas. Não queria “fazer uma crônica de seu tempo”. Naquele momento, o homem chegava à Lua e isso, sim, atiçou a imaginação dele. Bowie se transformou no Major Tom, o astronauta que se perde no espaço e que olha para a Terra com distância, encantamento e desdém. Sozinho, comentava: “Estou flutuando de uma forma peculiar. E as estrelas parecem diferentes hoje”.

Depois do Major Tom, seu papel seguinte foi o do deus glam Ziggy Stardust. Mas, não muito depois, em um gesto altamente teatral, ele “matou” Ziggy e nunca mais, de forma alguma, revisitou a criação que o tornou um astro de verdade. Por uma fração de segundo, ele se tornou prisioneiro do próprio momento e isso o incomodou. Antes que alguns maldosos dissessem que “Bowie já era”, ele já tinha virado crooner de soul music branca em Young Americans (1975). E ainda em meio à conturbada década de 1970, se transformou no Thin White Duke, uma figura bizarra eurocêntrica movida a cocaína e com tendências fascistas e gravou o subestimado Station to Station (1976). Depois dessa experiência, Bowie concebeu a chamada Trilogia de Berlim, formada por álbuns calcados na sonoridade futurista do rock alemão da época. Low (1977), “Heroes” (1977) e Lodger (1979) jogaram a música pop no futuro. Os experimentos eletrônicos de Bowie ao lado do produtor Brian Eno se tornaram um marco.

Scary Monsters (And Super Creeps) (1980), o primeiro álbum posterior à Trilogia de Berlim, já antecipava o que seria a música daquela década. A faixa de destaque foi “Ashes to Ashes”. Era uma sequência de “Space Oddity”. O Major Tom tinha voltado do espaço e agora era um junkie. Bowie declarou: “É a dissolução do sonho que originalmente levou o Major Tom ao espaço. Dez anos depois, tudo ficou com um gosto amargo. E, para falar a verdade, ele nem tinha que ir mesmo para o espaço. Era apenas uma ego trip tecnológica”. Ao “matar” mais um ícone de sua carreira, Bowie dava o recado de que nostalgia definitivamente não era com ele.

Hoje, os inevitáveis tributos ao artista estão privilegiando a imagem dele como o maquiado Ziggy Stardust, às vezes dando a impressão de que o triunfo maior de Bowie foi como astro do glam rock na década de 1970. Isso é uma bobagem – assim como é desperdício de saliva tentar categorizá-lo de maneira definitiva em um determinado espaço temporal. Na primeira metade da década de 1980 o espectro de Bowie foi gigantesco. A chegada da New Wave e do New Romantic deu ao mundo um monte de clones e discípulos de Bowie. De Duran a Duran a Madonna, todos se aproveitaram da manipulação da linguagem visual proposta originalmente por ele.

Eterna mutação: uma discografia selecionada com o que David Bowie fez de melhor.

Em um tempo em que a arte do videoclipe deu as cartas, música, moda e uma atitude cool se confundiam. E o próprio Bowie, o perpetrador de toda aquela revolução, reinou com Let’s Dance (1983) e a sequência Tonight (1984). Bowie não era o tipo de artista que fazia música “para marcar os bons tempos”, mas estes discos sem dúvida foram a trilha daquele momento. Ao entoar “vamos dançar, vamos bailar sob este luar”, ele conseguia unir a inquietação artística que tinha com música que falava ao corpo, à mente e à alma.

Claro, ele não era infalível e muita gente achou Never Let Me Down (1987) um fecho pouco digno daquela que foi sua segunda década de ouro. O mesmo aconteceu com o projeto de hard rock Tin Machine, que gerou dois álbuns. Mas Bowie, mesmo diminuindo o ritmo a partir dali, não parou e nunca olhou para trás. De 25 anos para cá, em álbuns como Black Tie White Noise (1992), Earthling (1997), Hours (1999) e Heathen (2002), ele se manteve atualizado e experimentou com trip hop, drum ‘n’ bass e o que mais desse na cabeça. The Next Day (2013), que quebrou um longo silêncio, parecia sinalizar uma volta aos tempos de Berlim.

Tudo acaba agora com Blackstar, que chegou com um timing absurdo, no dia do aniversário dele e um pouco antes da partida do músico. Muita gente ainda está tentando decifrar o álbum, uma aventura experimental que mistura jazz, rock e elementos de música eletrônica. Se antes ele tinha “matado” Ziggy Stardust e Major Tom, um emaciado Bowie parece lidar com a própria mortalidade – não a de um personagem – no clipe de “Lazarus”, que agora se torna a peça central deste derradeiro trabalho. Um epitáfio perfeito para a quimera que foi David Bowie.

Mas, se alguém tiver de dar a última palavra sobre a arte de Bowie, então que seja o próprio artista. Uma vez, uma jornalista alemã quis saber qual seria o “significado” do que ele fazia. Bowie simplesmente respondeu: “Você só me diz o que achou e eu então concordo com você”.