Os bastidores de Teocracia em Vertigem: como Porta dos Fundos superou ameaças e fez novo especial de Natal [ENTREVISTA]

Depois de processos, bombas e muitas críticas, o canal resolveu continuar a tradição de especiais de Natal - e lançaram, dia 10, o novo

Yolanda Reis | @_ysreis Publicado em 13/12/2020, às 17h00

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Fábio Porchat como Jesus para Especial de Natal do Porta dos Fundos (Foto de divulgação)

Mesmo depois de problemas, processos, bombas e ameaças,Porta dos Fundos decidiu não voltar atrás. O canal humorístico lançou na quinta, 10,Teocracia em Vertigem - especial de Natal de 2020. Ácido do mesmo jeito - mas, desta vez, sem ninguém gay - dão lugar à crítica política e ataques à extremistas.

Em uma coletiva de imprensa, o elenco do Porta dos Fundos - Fábio Porchat,Gregório Duvivier, Antônio Tabet (Kibe), João Vicente, o diretor Rodrigo Vander, e o CEO Christian Rôças - falou sobre o lançamento, do processo de criação aos medos de retaliação.

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Processo de criação

Os especiais de Natal do Porta dos Fundos são bem planejados. Porchat contou que o processo de criação começa no início do ano, perto de março, e se estende até outubro, aproximadamente. Este ano foi igual. Mas algo de diferente aconteceu: a pandemia de coronavírus. A equipe, então, viu-se pensando em uma maneira de desenvolver o especial de modo a não criar aglomerações (“algo difícil, Jesus tinha 12 seguidores, isso já é multidão.”)- um desafio audiovisual.

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Faziam várias reuniões de brainstorming para pensar em algo. Gabriel Estevez, roteirista, foi o dono da grande sacada: um documentário. Dessa maneira, raremente seria necessário mais de uma pessoa por cena - afinal, eram na maioria entrevistas individuais. Também, na hora, sugeriu o tema: uma paródia deDemocracia em Vertigem, documentário de Petra Costa sobre a fase do PT na política brasileira, concorrente do Oscar 2020.

Porchat, imediatamente, começou a pensar no roteiro (a versão final também foi dele). Contou que as piadas se alinharam na mesma hora na cabeça dele, e já sabia uma ou outra cena. Mas, para se preparar, resolveu ler o Novo Testamento na Bíblia. Queria fazer como todos os vídeos do Porta dos Fundos: bem feito e com base.

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A primeira versão de Teocracia em Vertigemera bastante mergulhada em religião. “Os cristãos iam amar, tinha muita referência,” contou Porchat. Tanto que precisou fazer uma segunda versão muito menos cristã, porque sabia que muitas pessoas não entenderiam a primeira. “Muita gente não sabe quem é Barrabás”, explicou, falando de um dos personagens principais do filme. A solução foi algo bem menos biblicamente aprofundado, de modo que todos pudessem entender as piadas. 

Porchat também fez questão de ser fiel à Bíblia e não ser desrespeitoso aos cristãos. Entregou o roteiro pronto para pastores lerem - queria a opinião deles. Adoraram - deram risada, e até ideias de piada. Inclusive, Emicida fazendo papel de Simão foi uma dica de pastor - afinal, ele era negro.

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Duvivier destacou, também, algo importante: o objetivo do Porta dos Fundos não é, de maneira alguma, ofender pessoas religiosas. “Nossa ideia nunca foi destruiur os valores cristãos, ao contrário disso, o especial é cristão. É sempre um resgate do Cristo vivo, tornamos ele vivo quando fazemos o especial.”

E por quê política? Porchat responde: política é atual. “Só se fala em política. Todo assunto termina em Bolsonaro - criança fala de política, o vírus é política, futebol é política. Então, por que não colocar no especial?”

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Vale ressaltar, porém, que o Porta tentou não se inclinar nem para um lado, nem para o outro. A ideia era uma crítica política local, onde ambos os lados fossem contemplados pelos mesmos personagens. Tomaram alguns cuidados para isso: embora o especial seja inspirado em Democracia em Vertigem, filme sobre o ex-presidente Lula, a personagem de Maria se refere a Jesus como “Messias, cresceu e virou o Mito”, justamente para criar ambiguidade. 

As filmagens

O primeiro desafio das filmagens foi a escalação dos atores. Sem contato direto em meio à quarentena, era difícil fazer audições e testes. A solução foi tentar apostar em quem conhecem - o Porta dos Fundos pensou em quais dos atores próprios seriam mais indicados para cada papel, e encaixou o roteiro assim.

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Então, as filmagens. Algumas foram em estúdio - esse era ventilado, limpo constantemente, cheio de máscaras e afins. Outras, em ambientes externos e amplos de Vargem Grande, cidade de São Paulo. Não houve um caso de coronavírus entre os atores.

Outra precaução inusitada que o Porta dos Fundos, precisou tomar foi com figurantes. Eles não podiam ter muitas pessoas juntas no estúdio. Então, tinham um figurante só - e ele se revezava em vários papéis ao fundo. Quando necessário, Porchat, que acompanhou todo o processo das filmagens, também entrava na figuração.

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Outra opção também foram as participações remotas.Petra Costa, diretora de Democracia Em Vertigem, participou direto da casa dela, gravando sozinha. Clarice Falcão, a “diretora” em Teocracia em Vertigem, também participou com um áudio gravado em casa - mesmo método de Emicida, com quem compartilha a cena.

Medos e Desafios

Teocracia em Vertigemnasceu com vários degraus para subir. O primeiro deles, explicou o diretor Vander, foi fazer uma produção digna de alcançar a qualidade de Emmy (que o Porta recebeu no último especial) com um filme feito remotamente.

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Depois, as retaliações e ameaças. Depois do lançamento de A Primeira Tentação de Cristo, especial de Natal de 2019, o Porta dos Fundos foi duramente criticado e atacado. Aconteceram: ataques online, tentativas de censura por deputados, processos de centros religiosos (igrejas), processos de pastores, e o mais perigoso, um bombardeio.

Na madrugada da véspera do Natal de 2019, a sede do Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, foi atacada por um grupo de terroristas, que atiraram coquetéis Molotov no prédio. Estava vazio no horário, e por sorte, ninguém se machucou. Tabet tem uma visão assertiva sobre o assunto: acredita que todo esse hate só aconteceu pelo filme do último ano indicar que Jesus era gay. Pura homofobia, na opinião dele. “Tenho certeza que só estamos vivos porque Jesus era só gay… Se fosse gay e preto, seriam seis bombas,” brincou o ator na coletiva. “Se fosse mulher, então…” completou Porchat.

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O Porta dos Fundos, porém, não ficou realmente abalado pelo acontecido. “Nos sentimos mais tristes do que sentimos medo,” explicou João. Mas nem por um segundo pensaram em não lançar o especial. Era algo sabido e acertado: ele existiria.

Afinal, o Especial de Natal já é uma tradição do Porta dos Fundos. Como descreveu Crocas, “ele é o nosso Super Bowl: as pessoas esperam por isso o ano todo.” E de fato, depois de tantos anos de tradição, seria estranho pensar na descontinuação. Teocracia em Vertigem ainda trás boas novas: este ano, o especial de Natal foi lançado no YouTube - e não no Netflix, como em 2018 e 2019 - para todos poderem assistir. Os anteriores devem ir para o site também. 

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