Os melhores bootlegs de Bob Dylan

As gravações definitivas de turnês de cada era da carreira de Dylan

Por Andy Greene Publicado em 24/05/2011, às 14h05

Bob Dylan completa 70 anos
AP

No inverno de 1969, um estranho novo LP duplo de Bob Dylan chegou às prateleiras das lojas de discos em uma embalagem branca lisa. As palavras "GF 001/2/3/4" estavam estampadas na capa, apesar de que algumas edições posteriores foram chamadas de Great White Wonder. Um disco consistia das faixas do muito comentado Basement Tapes, enquanto o outro era, basicamente, composto de covers de folk gravados ao vivo em 1961. Ninguém sabia disso na época, mas aquele foi o primeiro bootleg disponível comercialmente.

Great White Wonder voou das prateleiras, dando início à era dos bootlegs de rock. Nas quatro décadas seguintes, o trabalho de Dylan teve mais bootlegs do que o de qualquer outro artista. Em 1991, o próprio Bob Dylan decidiu trapacear os piratas lançando o set de três CDs The Bootleg Series, Vols. 1-3. Desde então, lançou mais seis volumes (sempre com melhor qualidade sonora do que o material que já circulou, mas isso não fez nada para parar a enxurrada de lançamentos no underground).

Sua recusa de lançar um show que fosse de sua turnê Never Ending, a versão completa e sem edição de Basement Tapes ou as incontáveis outras lendárias bootlegs fazem com que haja uma comunidade bastante ativa (e ilegal) de gravações de Dylan. Para um novato, a quantidade enorme de material pode ser avassaladora, mas aqui vai um guia do melhor de cada época da carreira do compositor.

Carnegie Chapter Hall, 11/4/61

Dylan estava tocando em cafés de Nova York havia só dez meses quando conseguiu uma data em uma das casas de maior prestígio da cidade - mesmo que fosse no menor teatro do complexo Carnegie Hall e somente 53 pessoas tenham aparecido. Uma ótima gravação de metade do show circula há anos, mas a inclusão da inédita "This Land Is Your Land" na trilha de No Direction Home parece confirmar que a Columbia tem o set todo em seus cofres.

Claramente nervoso por estar em um grande palco, a 40 quarteirões acima do Village, Dylan não toca uma original sequer, optando por faixas já consagradas como "1913 Massacre", de Woody Guthrie, que formou a base para a sua própria "Song To Woody", gravada apenas algumas semanas depois. O ponto alto é "Fixin' to Die", de Bukka White, que também apareceu em sua estreia. Em menos de dois anos ele estaria no palco principal do Carnegie Hall com um arsenal de material novo.

Town Hall 4/12/63

Perto do ponto alto de seu período de protesto, Dylan fez um dos maiores shows de sua carreira na Câmara Municipal de Nova York. A Columbia gravou para um lançamento oficial e muitas faixas vazaram ao longo dos anos, mas em 2008 a gravação completa apareceu online com dez canções ainda não ouvidas. No set de 24 músicas, Dylan foca em apontar canções sobre injustiça social como "Talkin' John Birch Paranoid Blues", "Who Killed Davey Moore" e "Masters Of War".

Nos 18 meses seguintes a seu show no Carnegie Hall, o jovem de 21 anos desenvolveu uma confiança incrível no palco, fazendo com o que o público risse com frequência ou ouvisse suas letras em silêncio absoluto. Escrevendo no The New York Times, Robert Shelton fez uma resenha arrebatadora do show. "A maestria do senhor Dylan em fazer o clima construiu uma intensidade quase desconfortável fisicamente em 'Ballad Of Hollis Brown', uma música sobre morte em uma fazenda na Dakota do Sul", escreveu. "'A Hard Rain's A-Gonna Fall', sobre a poluição da atmosfera, gerou tensões semelhantes por meio da repetição e uma batida de guitarra." O bootleg em condição impecável é de muito longe a melhor gravação desse período da carreira de Dylan.

The Complete Basement Tapes

Das muitas versões das Basement Tapes que foram saindo ao longo dos anos, o lançamento oficial da Columbia em 1975 pode ser uma das piores. Não só a The Band regravou novas partes de guitarras e bateria, como oito das faixas nem eram das lendárias sessões do porão - algumas delas nem tinham Bob Dylan. Uma fonte me conta que existe o equivalente a dez CDs de material por aí. Mas, até agora, apenas o suficiente para preencher quatro CDs apareceu. Ainda é o bastante para fazer dele o melhor de todos os bootlegs de Dylan. Não só dá para ouvir Dylan e a The Band entrando em uma jornada pela história da música norte-americana em covers que vão de "You Win Again", de Hank Williams, a "Folsom Prison Blues", de Johnny Cash, mas também dá para escutar Dylan em seu comportamento mais relaxado e descontraído, conforme ele se mata de rir cantando um improviso que os fãs batizaram de "See You Later, Allen Ginsberg".

Na segunda metade do set, Dylan começa a compor seu primeiro material original desde seu acidente de moto no inverno de 1966, e ele é bem diferente do som de Blonde on Blonde. "I Shall Be Released" e "You Ain't Goin' Nowhere" se tornaram músicas para cantar junto em acampamentos ao longo dos anos, mas é fascinante ouvi-las quando eram um pouco mais do que esboços iniciais. A última é particularmente reveladora porque um take primitivo apareceu com uma letra completamente diferente, a maior parte sem sentido: "Olha aqui, seu monte de barulho de porão, você não é nenhum saco de pancadas... levante o nariz, seu canário, você não vai a lugar algum". Na segunda tentativa, eles conseguiram matar. Se há alguma lógica na equipe que trabalha o catálogo de Dylan, um box definitivo e completo de Basement Tapes será seu próximo lançamento.

Rolling Thunder Revue

A turma de Dylan lançou dois álbuns oficiais ao vivo do Rolling Thunder Revue. O primeiro, Hard Rain, é um disco intenso de nove faixas tiradas dos shows de maio de 1976. O outro, o Bootleg Series Vol. 5: Bob Dylan Live 1975: The Rolling Thunder Revue, junta várias músicas da perna da turnê da primavera de 1975. Os dois têm um som absolutamente impecável e mostram a banda (liderada pelo guitarrista de David Bowie Mick Ronson) em sua melhor forma.

O problema é que nenhum deles representa um único show ou inclui faixas dos outros artistas na turnê. Afinal de contas, a turnê foi concebida como uma caravana cigana de muitos artistas pelos Estados Unidos. Para ouvir o melhor show completo de 1976, dê uma olhada no New Orleans 5/3/76. Neste momento da turnê, o casamento de Dylan com sua primeira mulher, Sara, havia sido destruído de forma irreparável, fazendo com que "Sara" fosse removida do set list e substituída por músicas de On The Tracks como "Idiot Wind" e "You're A Big Girl Now". Também dá a sensação do show completo, com Joan Baez fazendo seu cover de sucesso de "The Night They Drove Old Dixie Down", Kinky Friedman fazendo sua música-marca-registrada "Asshole From El Paso" e a versão solo de Roger McGuinn no clássico do Byrds "Eight Miles High". Simplesmente uma noite inacreditável de música que vale um lançamento do box.

Charlotte, 12/10/78

Poucas eras da carreira ao vivo de Bob Dylan têm uma reputação pior do que a turnê de 1978. Amparado por uma banda de 11 pessoas, o show contava com versões radicalmente diferentes dos maiores sucessos de Dylan - com muito saxofone e backing vocals. Apenas poucas semanas depois do começo da turnê, a Columbia gravou Bob Dylan At Budokan, que, originalmente, era somente para sair só no Japão.

As versões de "Mr. Tambourine Man" e "Blowin' In The Wind" sujaram a reputação de Dylan como um artista de shows por muitos anos, mas quando a turnê foi aos Estados Unidos muitos meses depois, finalmente começou a dar certo. A essa altura, Dylan estava tocando músicas de Street Legal, que foi gravado com sua banda de turnê. Diferentemente da maior parte de seu catálogo, essas faixas ficaram mais grandiosas com a banda. Nessa fita de Charlotte Dylan está com tudo, enquanto a banda toca versões incríveis de faixas de Street Legal, como "Señor (Tales of Yankee Power)", "We Better Talk This Over" e "Changing of the Guards". À exceção de "Señor (Tales of Yankee Power)", ele não tocaria quase nada do altamente subestimado Street Legal nas três décadas seguintes.

Toronto, 1980

Dylan pode ter encarado uma certa reação quando fez turnê com uma banda elétrica em 1965, mas não foi nada se comparado ao que ele encarou 15 anos mais tarde. Ao se converter ao cristianismo e fazendo um álbum de músicas sobre ter renascido na religião, Dylan caiu na estrada para cantar somente o material novo. Ele também pregava do palco. "Eu falei para vocês que os tempos iam mudar em 'The Times They Are A-Changin', e eles mudaram", ele disse para um público no Novo México. "Eu disse para vocês que a resposta estava voando no vento em 'Blowin' In The Wind' e ela estava! E estou dizendo para vocês agora, Jesus está voltando e ele está! E não há nenhuma outra forma para se salvar."

Frequentemente perdido em meio a toda a loucura está o fato que as novas músicas eram ótimas, a banda era incrível e ele estava cantando com o maior gosto e convicção que já havia mostrado. Em sua parada em Toronto (que também foi gravada em vídeo), ele abre com "Gotta Serve Somebody" e mergulha em clássicos do gospel como "Precious Angel" e "Slow Train". O guitarrista Fred Tackett, o baterista Jim Keltner e o tecladista Spooner Oldham formavam a espinha de uma das melhores bandas de apoio de Dylan de todos os tempos e o final de "Pressing On" é absolutamente arrepiante. Começando sozinho no piano, Dylan recebe aos poucos a banda e os backing vocals até que culmina em, o que talvez seja, a performance mais emocionalmente crua da carreira de Dylan. Certamente um "tem que ouvir" para aficionados por Dylan.

Sydney, 2/24/86

À exceção de um período de seis semanas em estádios da Europa no inverno de 1984, Dylan ficou afastado da estrada entre 1981 e 1986. Quando voltou, estava no ponto absolutamente mais baixo de sua carreira, mas com Tom Petty and the Heartbreakers servindo de sua banda de apoio, aos poucos, começou a se revitalizar. "Eu não achava que tinha muito público", Dylan escreveu em Chronicles, de 2004. "Por mais que as plateias fossem grandes, Petty estava trazendo a maior partes das pessoas."

Isso é um pouco exagerado e mesmo que fosse verdade, o show era, em sua maior parte, dedicado ao repertório de Dylan. Em uma apresentação em Sydney - que foi capturada em uma mesa de som sem nenhum defeito - Dylan está muito falante, o que não era comum, contando histórias por trás de músicas e destruindo críticos de rock que andavam acabando com ele. Em uma boa mudança de ritmo, em comparação com seus shows de nostalgia dos anos 60, ele toca uma grande quantidade de músicas novas - destaque para "Lenny Bruce", "Seeing The Real You at Last", "I and I" e "In The Garden".

Porém, a grande obra aqui é "When The Night Comes Falling From The Sky". Em Empire Burlesque, Arthur Baker enterra a música em camadas de uma produção oitentista horrorosa, mas com o Heartbreakers ela é revelada como uma das maiores músicas esquecidas de Dylan de todos os tempos.

THE NEVER ENDING TOUR

Em junho de 1988, Bob Dylan deu início a uma turnê que ainda não acabou. Quase todos os shows foram gravados, deixando os fãs com centenas e centenas de fitas para vasculhar. Aqui vão algumas das melhores:

Jones Beach, 6/30/88

Esse é o melhor da era inicial de G.E. Smith da turnê Never Ending. O set list não é muito ousado, mas o guitarrista adiciona algo a mais para os padrões como "All Along The Watchtower" e "Maggie's Farm". Abre com a razoavelmente rara "Subterranean Homesick Blues" e tem a bela "Boots Of Spanish Leather".

Toad's Place, 1/12/90

O show mais esquisito da carreira de Dylan. Essa maratona de quatro horas e meia foi o aquecimento para o começo da perna de 1990 da turnê Never Ending. Raridades extremas como "Man of Peace" e "I Dreamed I Saw St. Augustine" estão misturadas com covers chocantes como "Dancing In The Dark". No final, ele aceita pedidos e toca seja lá o que for que o público pede aos berros. Você tem que escutar para acreditar.

The Supper Club, 11/16/93

O show mais amado da turnê Never Ending. Nesse clube bem pequeno de Nova York, Dylan fez um show acústico que, de longe, se destacou mais do que o MTV Unplugged do ano seguinte. A faixa perdida da década de oitenta "Tight Connection To My Heart (Has Anybody Seen My Love)" é transformada em uma música de beleza perturbadora, enquanto "Queen Jane Approximately" nunca soou tão carinhosa. Ironicamente, 1993 foi um péssimo ano para a turnê, mas nessa noite de novembro, Dylan fez sua apresentação mais perfeita dos últimos 25 anos.

Woodstock, 8/14/94

Ele se recusou a tocar no original, mas em 1994, o pagamento do Woodstock se provou tentador demais. Tocando para seu maior público em anos, Dylan se esforça para entregar versões energéticas de "Highway 61 Revisited" e "Jokerman". Foi apagado pelo Nine Inch Nails, Green Day e Red Hot Chili Peppers, mas ele certamente não fez corpo mole nesse show, como muitos previram que faria.

El Rey Theater, 12/19/97

Time Out Of Mind não só revitalizou a carreira de estúdio de Bob Dylan, parece ter revitalizado seus shows também. Com um arsenal de ótimas músicas novas e a adição do guitarrista Larry Campbell, os shows de auditório no verão de 1997 são alguns dos mais amados da turnê. Sheryl Crow faz uma participação em "Highway 61 Revisited" e "Knockin' On Heaven's Door".

San Jose, 5/19/98

A banda reunida aqui - com Bucky Baxter e Larry Campbell na guitarra - está no ranking dos maiores grupos de apoio com quem Dylan já trabalhou. Aqui foi captado em seu auge. "Love Sick" nunca soou tão assombrosa e "Tangled Up In Blue" ressoa como nunca antes ou desde então. O som também é melhor do que a maioria de álbuns lançados oficialmente.

Tramps, 7/26/99

No meio de uma turnê em que era co-headliner com Paul Simon, Dylan agendou um show de última hora no minúsculo Tramps, em Nova York. Elvis Costello aparece em "I Shall Be Released", mas os verdadeiros destaques são "Visions of Johanna", "Seeing The Real You At Last" e "Every Grain Of Sand". Dylan é sempre mais ousado em ambientes pequenos e esse show formidável é o melhor exemplo disso.

Seattle, 10/4/02

Os fãs ficaram embasbacados com a noite de abertura, na primavera de 2002, da perna da turnê Never Ending, quando Dylan começou o show ao piano, tocando uma faixa da época religiosa, "Solid Rock". O choque virou descrença total quando fez um cover de "Brown Sugar", dos Rolling Stones, e três músicas de Warren Zevon. Isso continuou durante todo o ano - com faixas de Don Henley e Neil Young entrando mais tarde. Esses shows foram os mais bizarros e divertidos da turnê e do material que "tem que ser ouvido".

London, 11/21/05

Abrindo com "Rumble" para homenagear o grande guitarrista recém-morto Link Wray, Dylan tocou duas das músicas mais inesperadas de sua carreira ao vivo nesse show de Londres: a primeira (e, até hoje, única) performance da preciosa "Million Dollar Bash", de Basement Tapes, e um cover de "London Calling", do Clash. Ele soa como quem está se divertindo muito e o público fica absolutamente enlouquecido. Ah, se ele fizesse coisas assim com mais frequência.