Os piores shows do Nirvana. E também os melhores

Exclusivo: Dave Grohl relembra as caóticas e históricas apresentações do trio no Brasil, há 20 anos; ouça a entrevista

Pablo Miyazawa Publicado em 16/01/2013, às 07h42 - Atualizado em 25/01/2013, às 12h53

O Nirvana em 1991, o ano em que a banda estourou mundialmente com Nevermind

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Em 16 de janeiro de 1993, o Nirvana fez o primeiro de dois shows em solo brasileiro – foi em São Paulo, no festival Hollywood Rock, ao lado do L7 (que tocou no mesmo dia), Red Hot Chili Peppers e Alice in Chains (que se apresentaram no dia anterior).

Clique na imagem acima para ver fotos do show do Nirvana no Brasil.

O show paulistano, no Estádio do Morumbi, e o que ocorreu na semana seguinte, na Praça da Apoteose (no Rio de Janeiro, em 23 de janeiro) bastaram para confirmar ao planeta os problemas que esfacelariam o Nirvana e culminariam na morte de Kurt Cobain, 15 meses depois. A apresentação de São Paulo, em especial, se revelou a mais absurda da curta história do trio – momentos tensos, imprevisíveis e em marcha lenta de hits irreconhecíveis, equipamentos destruídos, instrumentos trocados e covers desleixadas. Metade do público debandou antes do desfecho. Assista a trechos abaixo:

Estou aqui, me divirta: um relato sobre o show do Nirvana em São Paulo, em 1993.

Na época, o então baterista Dave Grohl comentou que teria sido o pior show da história do Nirvana. Quase vinte anos depois, a impressão que ficou é ligeiramente diferente. Na entrevista que concedeu à Rolling Stone Brasil no ano passado, antes da vinda do Foo Fighters ao festival Lollapalooza, Grohl relembrou o contexto daquelas apresentações e explicou as motivações do trio por trás daqueles shows caóticos, descompromissados e inesquecíveis. Leia e escute um trecho da entrevista logo abaixo, na seção Multimídia.

Falando sobre memórias: a primeira vez em que você esteve no Brasil foi para aqueles dois shows em 1993. Eu estive no primeiro, em São Paulo, e só lembro que foi uma insanidade do começo ao fim. Não sei se você se recorda de algo específico dessa noite ou do próprio país.

Lembranças especiais... [pensa] Bem, aqueles shows foram malucos. Era um tempo bem estranho para a banda. Eu acho que houve três fases para o Nirvana. Houve a primeira, antes de eu entrar na banda, quando eles eram apenas um simples grupo de três caras lutando para chegar de uma cidade a outra, vivendo o sonho da banda na estrada, mas lutando para se firmar. Daí, houve a fase seguinte, que é a época do Nevermind. A primeira metade da fase do Nevermind foi a experiência ideal para qualquer banda nova. Nós fomos do ponto em que viajávamos em uma van e ficávamos empolgados pra valer ao ver o público crescendo até a hora em que vimos o disco explodindo e percebemos: “Uau, eu posso comprar meu próprio apartamento! Eu consigo pagar três refeições por dia em vez de só uma!” Entende? Pequenas mudanças na vida como essas. Então, a fase seguinte foi a reação à explosão e a ressaca que veio com isso. Foi quando as coisas ficaram difíceis. A gente queria fazer parte de uma banda popular, mas acho que não esperávamos que se tornaria tão popular. Quando fomos ao Brasil, acho que foi o maior público para o qual tocamos até aquele momento. Em todos os tempos. Não sei, não me lembro quantas pessoas haviam lá.

Frustração e caos: vinda do Nirvana ao Brasil foi histórica – mesmo que os shows tenham entrado para a lista de piores da banda.

Dizem que havia mais de 100 mil pessoas no show de São Paulo.

Sabe uma criança usando os sapatos dos pais? É bonitinho quando uma menina de 3 anos coloca um par de sapatos de salto. “Olha, que gracinha, ela com o sapato da mamãe.” Mas eles não servem. Ela tropeça, fica esquisito. E, de certa forma, era mais ou menos desse jeito quando fomos ao Brasil. Ao mesmo tempo, era como se alguém tivesse nos dado as chaves do castelo e dissesse: “Ok, podem fazer o que quiserem!” E nós: “Sério? Podemos mesmo fazer o que a gente quiser no estádio esta noite?” E daí, se tornou o show mais maluco que você já viu em toda a sua vida. Porque nós nunca pensamos que chegaríamos lá.