Oscar LGBTQ+: 9 filmes que ajudaram a promover a diversidade sexual na cerimônia

Fizemos uma linha do tempo mostrando alguns dos filmes que abriram portas para a representatividade na Academia

Julia Harumi Morita Publicado em 28/09/2019, às 14h00

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Filmes premiados no Oscar (Arte: Julia Harumi Morita)

A arte não tem gênero. Muito menos orientação sexual. A imponência da criação vem da liberdade e autonomia para transcender e transformar tudo o que está ao alcance do ser humano. Como disse a poetisa Gertrude Stein, "a arte não é tudo, ela é sobre tudo". A perspectiva é fundamental para as obras de arte, mas o ambiente artístico não deve se limitar a crenças e juízos.

O mundo real, porém, não funciona assim. Na prática, a produção artística é submetida à interpretações bem conservadoras, e controlada por meio desses valores morais, sociais e políticos. A tradição é confundida com o conservadorismo e este, por sua vez, tem poder econômico suficiente para criticar, rejeitar e censurar os artistas e as obras deles.

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No cinema, a aclamada cerimônia do Oscar, no lugar de reconhecer e apresentar para o mundo as melhores obras cinematográficas produzidas em um ano, costuma ser uma grande festa privilegiada feita para reafirmar o gosto da elite hollywoodiana. Em 2016, o jornal britânico The Times fez um estudo sobre a cerimônia e concluiu que 91% dos críticos da Acadêmia são brancos e 76% deles são homens. Nesse mesmo ano, o presidente do grupo Hawk Koch afirmou que "não tem muitas pessoas qualificadas de qualquer raça ou gênero para convidar todo ano."

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Por décadas, o Oscar excluiu inúmeras minorias, entre elas os gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais, transsexuais, travestis, transgêneros, drag queens, não binários, queers... Enfim, qualquer perfil de diversidade sexual.

Mesmo assim, alguns artistas se mantiveram fiéis aos princípios de liberdade e respeito da esfera artística e representaram, mesmo que de forma discreta ou metafórica, a variedade dos sexos, orientações sexuais e identidades de gênero em obras cinematográficas premiadas com a renomada estatueta.

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Felizmente, a premiação decidiu se redimir com o passado e abraçar a diversidade. As últimas quatro edições da cerimônia incluíram filmes com a temática ou personagens LGBTQ+ nas categorias principais. E dos 842 membros anunciados para formar a academia do Oscar 2020, 50% são mulheres e 29% pessoas não brancas.

Para entender mais sobre a história da representatividade da comunidade LGBTQ+ no Oscar, confira a lista dos principais filmes premiados que quebraram os paradigmas da sexualidade em Hollywood:

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Rebecca, a Mulher Inesquecível - 1940


Entre os anos de 1930 e 1966, a indústria cinematográfica norte-americana foi obrigada a se adequar ao Código Hays, que visava 'limpar' a imagem de Hollywood e vedava conteúdos 'impróprios' nas grandes produções. Cenas que retratavam gestos e posturas vulgares ou que incluíam qualquer menção à comunidade LGBTQ+ estavam proibidas.

Apesar da censura, alguns diretores conseguiram passar pelo código e retratar discretamente a diversidade sexual nos filmes, como Alfred Hitchcock no longa-metragem Rebecca. Na obra, a atriz Judith Anderson interpreta uma empregada doméstica que demonstra abertamente devoção pela falecida patroa e provoca a nova esposa do dono da casa. Anderson é considerada a primeira atriz a ganhar um Oscar por uma personagem lésbica.


Juventude Transviada - 1955


Juventude Transviada
é um grande marco para a representatividade LGBTQ+ não apenas no Oscar, no qual conquistou três estatuetas, mas em todo o universo cinematográfico. A começar pelos bastidores da produção, formado pelo diretor Nicholas Ray e os atores James Dean e Sal Mineo, todos declarados bissexuais. Mineo, em especial, tornou-se um símbolo do movimento queer nos anos 1970.

Em segundo lugar, pelo enredo do filme, que explora a construção de famílias não convencionais; no caso, formada por três adolescentes insólitos rejeitados pelas próprios pais. Segundo a Indiewire, Ray nomeou intencionalmente um dos personagens de Plato, em referência ao filósofo grego que mencionou as relações de casais do mesmo sexo nos estudos dele. O diretor também pediu para Dean usar a orientação sexual para desenvolver o personagem Jim Stark e o relacionamento velado com Plato, para quem diz em uma cena: "me olhe do jeito que você olha para Natalie".


O Ano em que Vivemos em Perigo - 1982


Linda Hunt
foi a primeira atriz abertamente homessexual a ganhar um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e a primeira pessoa a ganhar uma estatueta por interpretar um personagem do sexo oposto, segundo o Mirror Uk. O filme de 1982 foi dirigido por Peter Weir e tem Mel Gibson e Sigourney Weaver no elenco.

O enredo narra a história de Guy Hamilton, um repórter australiano que é mandado para primeira cobertura internacional na Indonésia. Lá, ele se envolve com assessora militar da embaixada britânica, Jill Bryant, e recebe ajuda do fotógrafo anão Billy Kwan, interpretado por Hunt, para estabelecer contatos com as facções inimigas da região.


O Beijo da Mulher Aranha - 1985


Em 1986, a academia concedeu pela primeira vez um prêmio de Melhor Ator pela interpretação de um personagem não hétero. O Beijo da Mulher Aranha ainda foi indicado para as categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.

Na trama, William Hurt dá vida à Luis Molina, uma mulher transgênero presa por ter relações sexuais com um jovem menor de idade durante a ditadura militar brasileira. Na cela, ela cria uma amizade com o revolucionário esquerdista Valentin Arregui, que mais tarde se transforma em um romance e isso ajuda os dois sobrevirem ao cárcere.


Deuses e Monstros - 1998


O Oscar 1999 foi a primeira edição da cerimônia a premiar um ator abertamente gay que interpretou um personagem homossexual. A conquista foi feita por Ian Mckellen no filme Deuses e Monstros, que também levou estatuetas por Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante.

O longa conta a história de um diretor de cinema aposentado, James Whale, anos depois de ganhar fama com os filmes Frankensteine A Noiva do Frankenstein. Isolado em casa, ele enfrenta a próprias memórias da primeira guerra mundial, fantasias e humilhações sexuais que sofreu ao longo da vida. Para diminuir o sofrimento ele compartilha as histórias com o jovem e atraente jardineiro que trabalha na casa.


Milk: A Voz da Igualdade - 2008


Indicado para 8 categorias do Oscar 2008, o filme Milk: A Voz da Igualdadehomenageia o Harvey Milk, o primeiro político norte-americano assumido gay - e voz de toda uma geração de luta por igualdade. Estrelado por Sean Penn, o longa ganhou duas estatuetas: Melhor Ator e Melhor Roteiro Original.

Entre cenas reais e fictícias, o diretor Gus Van Sant retrata o relacionamento do político com Scott Smith, interpretado por James Franco, e atuação de Milk na luta pelos direitos dos homossexuais nos anos 1970. Uma das grandes vitórias do político é contra o projeto Proposição 6, que previa a expulsão de professores gays e simpatizantes da causa nas escolas públicas. A campanha de Milk foi tão eficaz que teve até o apoio de conservadores não homossexuais como Ronald Reagan, na época candidato à presidência.


Moonlight - 2016


Depois de 89 anos da primeira edição do Oscar, um longa-metragem com temática LGBTQ+ ganhou a estatueta por Melhor Filme, a principal da Academia. E não tinha filme melhor do que Moonlightpara conquistar este marco histórico. A obra retrata com sensibilidade os dilemas da descoberta da sexualidade por um jovem negro que convive com o arquétipo da masculinidade agressiva e insensível em uma comunidade de Miami.

Dirigido por Barry Jenkins e protagonizado por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, o longa foi indicado para outras 7 categorias e levou os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado.


Call Me By Your Name - 2017


A prova de que Moonlight foi uma revolução na tradicional cerimônia de cinema é o Oscar 2018.Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino, foi um dos grandes favoritos para o prêmio de Melhor Filme. O longa, baseado no em um livro com o mesmo nome, ilustra o romance entre Elio e Oliver em um verão na Itália nos anos 1980.A categoria principal também contou com os filmes Lady Bird: Hora de Voar e A Forma da Água, ambos com personagens secundários gays.

Outra obra aclamada foi a produção chilena Uma Mulher Fantástica, que conta a história de uma mulher transgênero e a luta pela expressão da identidade de gênero. A representatividade também apareceu atrás das câmeras com os filmes Strong Island, dirigido por um diretor negro e transgênero;Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi e Coco, ambos dirigidos por mulheres lésbicas.


A Favorita - 2018


Em 2019, a premiação realizou a edição mais representativa de todos os tempos. Antes mesmo de divulgar os filmes indicados, o apresentador escolhido para a cerimônia, Kevin Hart, foi pressionado pela mídia à desistir da função, devido a repercussão de antigos tweets homofóbicos feitos pelo artista. Já nos filmes, cinco dos oito concorrentes para Melhor Filme representavam de alguma forma a comunidade LGBTQ+. São eles: Nasce Uma Estrela, Green Book,A Favorita,ViceeBohemian Rhapsody.

Uma das grandes apostas da cerimônia foi A Favorita, estrelado por Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. O longa narra a história da Rainha Ana que vive um triângulo amoroso com a conselheira Sarah Churchill e a criada Abigail. Com 10 indicações, A Favoritafoi o filme com personagens lésbicas com mais indicações na história da premiação.