Para Ouvir Sempre: Revolver, icônico álbum dos Beatles, completa 50 anos

Repleto de inovações sonoras, o LP levou a um novo patamar a revolução engendrada por John, Paul, George e Ringo

Redação Publicado em 05/08/2016, às 09h00 - Atualizado às 12h38

8 - Revolver - The Beatles
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Quando Revolver foi lançado na inglaterra, no dia 5 de agosto de 1966 (e três dias depois nos Estados Unidos), os Beatles já não eram os rapazes que tocavam para multidões que preferiam gritar a prestar atenção na música apresentada no palco. O álbum saiu no momento em que realizavam a derradeira turnê da carreira. Nenhuma faixa do trabalho foi apresentada ao vivo – e seria extremamente difícil fazer isso com muita fidelidade aos fonogramas. No disco, cuja capa apresenta a notável colagem feita por Klaus Voorman, eles abusaram dos efeitos de estúdio: utilizaram tapes com loops, um octeto de cordas e efeitos de guitarra de trás para a frente, entre outras técnicas. Já antecipavam a psicodelia de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). A discografia dos Beatles não envelhece, mas Revolver talvez seja o trabalho do Fab Four cujo frescor se mantém com mais intensidade.

Admiração Equivalente, Pontos de Vista Distintos

A diversidade musical de Revolver segue apreciada por diferentes gerações. Nestes relatos, três integrantes da redação da Rolling Stone Brasil descrevem como descobriram o disco e detalham sua ligação com as canções

Um álbum cujo esmero é sentido em cada faixa

Tive contato com os Beatles ainda criança, quando as gravações originais deles competiam nas rádios com as versões feitas pelos artistas da Jovem Guarda. Na década de 1970, a mitologia em torno da banda cresceu, e eu queria ouvir tudo o que haviam gravado. Comprei meu primeiro LP dos Beatles em 1975: foi A Collection of Beatles Oldies... But Goldies, coletânea com os singles até 1966. O próximo passo seria entrar na fase psicodélica. Admito que “furei” a fila. Em vez de pegar Rubber Soul (1965), e depois Revolver, fui diretamente atrás de Sgt. Pepper. Adquiri minha primeira cópia em vinil de Revolver em 1976, dez anos depois do lançamento original. Dele eu só conhecia “Yellow Submarine” e “Eleanor Rigby”. Percebi que Revolver era uma entidade sonora diferente do álbum seguinte. Sgt. Pepper tem “conceito” – as faixas se interligam, perfazendo um todo. Já Revolver brilha por meio da audição de cada uma das canções em separado. As músicas são muito diferentes umas das outras – o esmero que os Beatles aplicaram a elas é o que torna o álbum tão instigante. Abrindo com a reclamação de Harrison sobre o imposto de renda em “Taxman”, chegando à ternura de McCartney em “Here, There and Everywhere” e concluindo com a lisergia vanguardista de “Tomorrow Never Knows”, de Lennon, Revolver abriga todos os elementos pertinentes à grandeza dos Beatles.

Por Paulo Cavalcanti

Quando sonhos se transformam em sons

Só fui notar que nunca tinha dado a devida atenção a Revolver quando achei, nos CDs da minha avó, um exemplar empoeirado do disco. Bastou ouvir uma vez com mais atenção para notar: o baixo de “Taxman” soava robusto como nunca; as cordas de “Eleanor Rigby” eram mais agressivas que qualquer guitarra; as baladas de McCartney estavam minuciosamente costuradas; e a voz de Lennon parecia ter sido importada de algum universo místico. Mas foi só depois de ler Here, There and Everywhere: Minha Vida Gravando os Beatles, autobiografia de Geoff Emerick – o inventivo engenheiro de som que ajudou a colocar em prática as ideias do quarteto mais sonhador do planeta –, que Revolver realmente virou minha cabeça. Entre outras coisas, Emerick recriou os graves profundos de Pet Sounds (Beach Boys) e extraiu o aspecto mais rústico dos instrumentos de corda. Quando soube que, em “Tomorrow Never Knows”, Lennon pediu que soasse “como Dalai Lama cantando no cume da montanha mais alta”, percebi que Revolver tinha se tornado meu disco favorito dos Beatles. Os conceitos de exploração do estúdio, expansão da mente e “álbum como obra de arte” seriam estabelecidos em Sgt. Pepper, mas Revolver exalava despretensão e um deslumbramento que os Beatles jamais voltariam a dividir como grupo. Se a maior banda do mundo experimentava, por que todas as outras não deveriam?

Por Lucas Brêda

Depois da arrogância juvenil, o sentimento de descoberta

Descobri os Beatles tardiamente. Na ignorância e prepotência dos meus 15 anos – quando comecei a ter contato com o rock dos anos 1960 –, me achava no direito de julgar superestimado o som dos britânicos. Preferia o lirismo melancólico do folk de Bob Dylan ou então a sonoridade bruta e agressiva de grupos proto-punk, como o The Velvet Underground e o The Sonics. No entanto, Revolver desconstruiu meu pedantismo musical e minha pirraça em relação ao grupo formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Embora não me lembre exatamente em quais circunstâncias tropecei no sétimo disco dos Beatles, ainda tenho nítido na minha memória o arrebatador sentimento de descoberta ao ouvir canções como “Love You To”, “She Said She Said” e “Tomorrow Never Knows”. Do arranjo orquestral de “Eleanor Rigby” à dissonante “I Want to Tell You”, passando pelo solo reverso de “I’m Only Sleeping”, o disco condensa um caleidoscópio de influências e texturas musicais diversas. Também por isso, Revolver segue rompendo barreiras geracionais e temporais: dialoga com qualquer ouvinte, de qualquer idade, sem soar datado. Singular, o álbum escapa à passagem do tempo sem perder a magnitude e a importância que o consagraram como um dos maiores trabalhos não apenas do quarteto mas também da história do rock.

Por Gabriel Nunes