Parceiro de composição de Amy Winehouse fala sobre demos inéditas

"Se Amy não tivesse sido tão consumida por algumas coisas, ela poderia ter sido um modelo para muita gente", diz Stefan Skarbek; músico afirma ter cinco demos prontas

Por Steve Baltin Publicado em 02/08/2011, às 19h39

Amy Winehouse em show em Florianópolis, em janeiro de 2011
AP

O compositor Stefan Skarbek conheceu Amy Winehouse quando ela tinha 14 anos. Algum tempo depois eles escreveram juntos "October Song", "Do Me Good" e "Amy, Amy, Amy". Skarbek, que também já trabalhou com Estelle, K.T. Tunstall e outros, calcula que tenha escrito um total de 25 músicas com Amy, incluindo cinco demos finalizadas que ele guarda em sua casa. Quando conversou com a Rolling Stone, ele não só estava interessado em falar sobre as colaborações, como também sobre o jeito cuidadoso e maternal da cantora, encontrada morta aos 27 anos no último dia 23 de julho. Leia a entrevista com o músico abaixo:

Você estava envolvido nas novas músicas em que ela estava trabalhando?

Nós estávamos repassando algumas músicas antigas que tínhamos, estávamos meio que escrevendo pelo Skype. Como amigo, eu estava mais me divertindo com ela do que qualquer outra coisa. Tínhamos cerca de dez músicas, cinco delas estão meio que completas.

Essas cinco músicas são faixas antigas que vocês estavam revisitando?

Sim, eram músicas antigas que tínhamos, progressões de acordes, coisas que tinham meio que ficado para trás.

Quando essas demos foram feitas?

A última que fizemos foi provavelmente há dois, três anos.

Para qual direção de estilo essas músicas de dois anos atrás estavam indo?

Eu senti como se ela quisesse voltar para aquela coisa divertida que fizemos antes. Fizemos músicas como "Monkey Boy", músicas de brincadeira. Meu grande negócio com Amy era que ela vinha ao estúdio em Londres e sempre tinha uma história maluca, problemas com o namorado ou coisas assim. E eu dizia algo do tipo: "Amy, Amy, Amy", e aí a gente fazia uma música com o título "Amy, Amy, Amy". Nós iríamos ao zoológico, voltaríamos e escreveríamos uma música sobre macacos. Essa era a extensão de como funcionava, e aí eu segui meu caminho, e ela seguiu o dela. Ela desapareceu por um tempo, e então voltou com Back to Black.

Vocês se falavam com frequência, ou voltaram a ter contato em algum momento?

Ela me ligou quando veio para Los Angeles fazer um show no Roxy. Fazia algum tempo que eu não falava com ela, e saímos, ficamos uns dias no [hotel] Chateau Marmont. Depois disso, ficamos próximos de novo. Ela definitivamente saiu em sua jornada, e foi exposta a muita fama. Acho que as pessoas com quem ela saía antes disso se tornaram mais importantes, as pessoas que gostavam dela pelo que ela era e não porque ela era famosa. E ela também gostava muito de ser famosa, então, pobre garota, era muito conflito.

Por que você acha que ela estava em conflito?

Porque cuidar [das pessoas] era algo inerente dela, ela era como uma avó judia. A última vez que a vi ela fez sopa de galinha para mim, porque eu estava um pouco gripado. Ela provavelmente estava há quatro dias sem dormir, e mesmo assim estava fazendo sopa e cantando para mim. Naturalmente, ela era uma pessoa cuidadosa, maternal. E aí a persona dela se tornou uma rock star fora de controle, mas na verdade ela só queria abraçar e ser abraçada e amada. Ela tinha muito disso, e ela era muitas vezes cercada de espertalhões e gente que queria usá-la. Acho que isso se tornou uma coisa dura. Acho que ela começou a ignorar seu instinto maternal e seu lado cuidadoso e se tornou sua própria caricatura. Ela queria ter uma família, queria ser mãe, todas essas coisas.

Qual foi a última vez que você a viu?

A última vez que a vi foi na festa de aniversário dela, há seis meses.

E quando foi a última vez que vocês se falaram?

Falei com ela dois dias antes de ela morrer.

Quando vocês compuseram juntos, quantas músicas escreveram? Vocês estiveram juntos escrevendo?

Estivemos. No decorrer de dois anos provavelmente tivemos uns seis meses compondo, e fizemos provavelmente umas 25 músicas. Eram coisas em desenvolvimento. A gente não sabia bem o que estava fazendo - tínhamos essas visões, escutávamos muitos discos e nos divertíamos. Outro dia eu estava ouvindo uma música muito triste chamada "Ambulance Man". A avó ficou doente e Amy cantava sobre a ambulância levando a avó dela embora. Muita coisa era só rascunho. E acabamos com muitas músicas que ela acabou gravando.

A quem pertencem as demos que você tem agora?

Universal.

Você entrou em contato com eles sobre essas músicas?

Não, porque acho que meu publisher provavelmente fará alguma coisa, mas sei que ainda é delicado. [Mas] tenho certeza que a Universal vai entrar em contato com a gente, ou o meu publisher em contato com eles para lançar as demos. A primeira coisa que eu fiz quando soube que ela morreu foi ouvir uma de nossas músicas, chamada "October Song", e foi muito triste. É sobre o pássaro de estimação dela, Ava, que morreu. E foi muito triste porque daria pra substituir a letra por Amy, e foi como um testamento pra ela, ela realmente viveu essa música.

Quando foi que ela te procurou para compor?

Cara, foi por volta de 2001. Eu provavelmente a conheci quando ela tinha 14 anos.

O que fazia dela uma pessoa tão especial?

Se você dissesse para ela "Você tem que fazer isso, você tem fazer aquilo", ela corria pra longe. Ela era estimulada pelo sentimento e pela música, não ligava para negócios. Quando estávamos fazendo as coisas no início e a gravadora aparecia, ela meio que sumia em outra sala e tocava trompete. Acho que isso é que era tão incrível e charmoso nela - Amy sabia que era boa e não tinha que provar isso para ninguém. Isso se tornou parte do magnetismo dela. Quando Amy escrevia música, a melhor forma como posso descrevê-la é como uma coruja, uma boneca de porcelana. Ela era muito sábia, mas muito jovem e inocente. Tinha a sabedoria de uma pessoa idosa e a inocência e a ingenuidade de uma criança. Eu sabia que ela era incrível - a gente nem escrevia letras, só brincava no piano por cinco minutos e então ela ia para uma sala e criava letras geniais e melodias incríveis. Ela abriu as portas para tantos outros artistas e na minha visão, ela mudou todo um paradigma na música. Acho que ela fez com que artistas como Adele pudesse chegar e colocar verdade e honestidade de volta na música.

O que aconteceu com todas as outras músicas nas quais vocês estavam trabalhando?

Eu entrei em contato com Matt Rowe, com quem eu estava trabalhando, e estavam no computador dele. Ele provavelmente irá desenterrar alguma coisa e ver se há algo, só pela nostalgia. A essa altura, eu escuto as coisas só pela nostalgia, os outtakes. Eu não tenho certeza de onde estão as outras músicas. Sei que tenho algumas, mais do que o Matt tem no computador dele. Uma vez que fica fora do disco, você meio que esquece. Eu não sabia que de repente haveria interesse.

O que você quer que as pessoas saibam sobre Amy Winehouse?

Eu a amava, ela era alguém à frente do seu tempo. Amy tinha essa lado incrível de cuidar das pessoas, e isso nunca foi o foco. Ela era generosa, era simplesmente uma boa pessoa e acho que teria sido uma ótima mãe. Se não tivesse sido tão consumida por algumas coisas, ela poderia ter sido um modelo para muita, muita gente. Musicalmente, algumas das coisas que eu tenho talvez sejam lançadas. Talvez sim, talvez não. Mas minha maior impressão sobre ela é que no fundo ela era uma boa pessoa, e amava as pessoas. Isso é algo que acho que nunca prestaram atenção nela. A imprensa britânica é terrível para criar desastres, eles amam fazer isso. E sempre me desapontou ver essas coisas. Mesmo o pior jornalista do mundo, que dissesse coisas horríveis sobre ela - ela não teria nada contra ele. Ela faria sopa de galinha para ele.